“Ataque dos Cães” subverte a figura feminina no faroeste

Indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, Kirsten Dunst encarna, com a ajuda da diretora Jane Campion, uma personagem que foge dos estereótipos da mocinha do universo dos “westerns”

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Rose, uma viúva e mãe de um adolescente, é uma personagem tridimensional, cheia de nuances no cenário árido

O papel da mulher nos faroestes costuma ser o da mocinha romântica que precisa de um herói para salvá-la. Ou o da dona do bordel (ou mesmo a prostituta) que se encarrega de divertir os caubóis, os xerifes e os fora-da-lei.

“Ataque dos Cães”, líder de indicações ao Oscar, com 12 no total, subverte o que se espera da figura feminina no gênero clássico. Rose, viúva e mãe de um adolescente, foge dos estereótipos, capturando várias nuances da mulher na paisagem árida e deixando a personagem mais tridimensional.

Por um lado, Rose consegue quebrar aquela masculinidade tóxica com sua sensibilidade e gentileza – ela chega a ensinar um caubói a dançar, por exemplo. Mas, por outro, sofre com a tortura psicológica do cunhado, um tipo rústico e cruel, o que a torna muito vulnerável e a faz cair na bebedeira.

A personagem é vivida por Kirsten Dunst, que concorre ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pela performance. A americana é conhecida por sua forte presença em cena e por conferir densidade emocional e inteligência às mulheres que interpreta. Também nunca deixou que a beleza luminosa, por seus traços delicados, ar angelical e meigos olhos azuis, a aprisionasse em papéis rasos.

“Por ter sido dirigida tão jovem por Sofia Coppola, ganhei uma autoconfiança diferente da maioria das atrizes em ascensão”, diz Kirsten, referindo-se ao drama “As Virgens Suicidas’’ (1999), que rodou aos 17 anos. Sua personagem aqui foi uma das cinco irmãs que não conseguem escapar do conservadorismo e da tirania dos pais na década de 70.

Kirsten também cita Gillian Armstrong como cineastas importantes para a sua formação, por tê-la dirigido em “Adoráveis Mulheres” (1994). Ela tinha apenas 12 anos, quando encarnou aqui uma das quatro irmãs que amadurecem durante a Guerra Civil nos EUA – em obra de subtexto feminista.

“A jovem vista apenas pelo olhar masculino, com homens atrás das câmeras, não desenvolve a mesma confiança como atriz. Muitas vezes, ela fica presa na ideia de que é sexy, antes de mais nada”, completa Kirsten, de 39 anos, durante evento virtual realizado pela American Cinematheque, que teve cobertura do NeoFeed.

Disponível no catálogo da Netflix, “Ataque dos Cães”, um dos favoritos ao Oscar de melhor filme do ano, é assinado por Jane Campion. A neozelandesa é uma das vozes femininas de maior expressão atrás das câmeras.

Nesta 94ª edição do prêmio da Academia de Hollywood, marcada para domingo, 27 de março, em Los Angeles, Jane faz história como a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de melhor direção mais de uma vez.

Sua marca registrada como cineasta é registrar o desejo das mulheres nas telas, incluindo o das inconformadas com seu destino. Como a heroína de “O Piano’’ (1993).

Foi com a trama da viúva muda (Holly Hunter) que enfrenta a opressão masculina com a sua música que Jane conquistou a Palma de Ouro de Cannes (a primeira mulher a realizar a façanha). Com a obra, ela também arrematou o Oscar de melhor roteiro original e recebeu a sua primeira indicação como diretora.

Para assinar “Ataque dos Cães”, Jane buscou inspiração na obra “The Power of the Dog”, de 1967. O escritor Thomas Savage explora aqui a dinâmica entre os irmãos Phil e George, coproprietários de rancho em Montana, nos anos 20.

A relação começa a se complicar depois que George (Jesse Plemons) se casa com Rose, que é desdenhada constantemente por Phil (Benedict Cumberbatch), para quem ela não passa de interesseira. Para ele, uma figura feminina naquele ambiente hostil é quase uma intrusa.

“No livro, Rose não é uma personagem tão importante quanto Jane fez dela no filme. Não há muita coisa sobre Rose, a não ser o ponto de vista de Phil sobre ela”, afirma Kirsten, destacando que Rose aqui contribui para desafiar os estereótipos de gênero no universo do faroeste, o que resume a proposta de Jane.

Só o fato de uma diretora se interessar em explorar a masculinidade nos “westerns” já surpreende, por ser um dos territórios cinematográficos mais associados ao “clube do Bolinha”. Jane não mudou o foco da narrativa, que se mantém nos homens, por serem eles que dominam esse imaginário do Velho Oeste.

Mas mesmo sendo uma personagem menor, o que explica a indicação de Kirsten como melhor coadjuvante e não melhor atriz, Rose ajuda a colocar em perspectiva a estupidez na típica representação do caubói valentão, avesso ao mundo emocional. Como se fosse impossível conciliar um trabalho duro com o respeito e a consideração pelos outros.

Logo que Phil e Rose interagem pela primeira vez, ele logo ridiculariza o filho adolescente dela, Peter (Kodi Smitt-McPhee), de natureza delicada e aparentemente frágil. Para Phil, não é coisa de homem servir mesas e, ainda pior, fazer flores de papel – o que o garoto faz para ajudar a mãe, dona de um pequeno restaurante na região.

“Por mais que Rose não consiga se impor, quase sempre desabando diante Phil, o que importa é o modo como o filme aborda a dinâmica feminina e a masculina no faroeste, deixando as coisas propositadamente confusas, fugindo do que se vê na maioria das vezes”, afirma Kirsten.

Para marcar a desconstrução do “western”, não é por acaso que, no desfecho da história, um tipo dominador como Phil cai em ruína justamente ao se permitir um pouco de vulnerabilidade em sua vida, abrindo-se para uma conexão emocional. E justamente com o adolescente, de quem ele adorava zombar.

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