Bordeaux 2021, a safra da discórdia

Com condições climáticas severas, a região apresentou vinhos muito heterogêneos, dividindo críticos nas avaliações e conturbando o sistema de precificação pelas vinícolas

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Neste momento em que os críticos especializados começam a divulgar suas pontuações e os châteaux revelam os primeiros preços para os vinhos da safra 2021, as assimetrias mostram que não será uma campanha de venda fácil para Bordeaux, uma das regiões mais prestigiadas do mundo do vinho.

Muito em consequência do clima frio e chuvoso na região. Segundo a Saturnalia, empresa especializada em dados climáticos e mapeamento de vinhedos, 2021 foi o segundo ano mais frio da última década, ficando atrás somente de 2013. Se fosse apenas um ano de baixas temperaturas e umidade em excesso, contudo, o desempenho dos vinhos seria, ao menos, parelho e estável.

Porém, não foi o caso em 2021. Tiveram ainda granizos e geadas que afetaram seriamente as regiões como Sauternes e Barsac, mas não St-Estèphe, por exemplo. Vinhedos em solos mais elevados e bem drenados funcionaram para os tintos, mas o mesmo não se repetiu em outras composições de terreno.

Daí nasce a explicação para a heterogeneidade dos vinhos da safra e para a discórdia nas avaliações dos especialistas. Em especial quando comparados com os das safras de 2020, 2019 e 2018, considerado o “trio estelar de Bordeaux”.

Os grandes vinhos de Bordeaux, os com classificação Cru Classé em especial, possuem uma forma bastante particular de negociação, com uma venda antecipada chamada de “en primeur”. Trata-se de um grande evento de degustação onde os produtores apresentam os primeiros vinhos da safra para os principais compradores e críticos.

A ponderação entre as pontuações dos especialistas e as conversas para estimar a disposição dos compradores ajuda os châteaux a balizarem seus preços, que são divulgados nas semanas seguintes ao evento, em um formato parecido com um IPO.

Os châteaux e os négociants (vendedores) estabelecem o valor e o tamanho do primeiro lote de “ações”, no caso, garrafas de vinho. O sucesso ou fracasso indica qual deve ser a oscilação na precificação do lote seguinte e no mercado secundário.

Apesar da conhecida anedota de Bordeaux, onde as boas safras são anunciadas como excepcionais e safras difíceis são propagandeadas como clássicas, 2021 será, como Antonio Galloni (fundador do portal Vinous) diz “um ano de classicismo velha-guarda, para quem aprecia os Bordeaux das safras anteriores à 2000, pelo álcool e estrutura comportados.”

Por um lado há certo consenso que as estrelas do ano são Cheval Blanc, Cos d’Estournel, Haut-Brion (tinto e branco), Lafite-Rothschild, Lafleur, Margaux e Smith-Haut-Lafite Blanc; todos com notas acima de 94 pontos pelos críticos Antionio Galloni (ex-Robert Parker-Wine Avocate e fundador do site Vinous), Neal Martin (Vinous), James Sukling, Lisa Perotti-Brown (The Wine Independent) e William Kelly (Robert Parker – Wine Advocate).

Os críticos divergem na pontuação de tintos como do Château Ausone

Por outro, e mais chamativo, há dissonâncias. Enquanto Kelly coloca Château Ausone dentro da perfeição (97-100), Neal Martin e Galloni avaliaram em 93-95. Ainda mais extrema é a diferença na nota de Galloni para o Château Brane-Cantenac 2021 (93-96) e a baixa pontuação de Lisa Perrotti-Brown (86-88), também ex-Wine Advocate. Como se observa, as opiniões não são tão pacíficas e requerem bom conhecimento por parte do comprador.

Instabilidade na precificação 

Como boa parte da aura de Bordeaux está no tamanho e forma de comercialização, a grande questão para os vinhos de 2021 é o preço. Se por um lado os valores são pressionados para cima pelo aumento dos custos dos insumos, em especial garrafas, papéis e energia elétrica – e dos casos citados de queda de produtividade -, por outro a demanda pelos vinhos de Bordeaux está menor que vinhos de outras regiões.

O índice Liv-Ex 1000, que analisa o mercado de 1000 rótulos entre os mais cultuados no mundo (incluindo, por exemplo, Supertoscanos, os grandes nomes de Napa, além dos principais produtores de Champagne, Borgonha e Rhône) observa uma demanda menor por Bordeaux, com valorização de 11,5% nos últimos 12 meses. São números tímidos para a região se comparados às valorizações de 43,8% nos rótulos da Borgonha e 51,2% de Champagne no mesmo período.

Por enquanto, a discórdia parece afetar também os preços dos vinhos anunciados para a safra 2021. Da margem esquerda, o Château Léoville Las Cases anunciou a redução mais agressiva no valor pedido em 2021 frente à 2020 (198 euros para 169 euros, cada garrafa). Léoville-Barton também reduziu o valor pedido de seu vinho no lote inaugural de 2021 (de 60 euros em 2020 para 55,80 euros em 2021). Na margem direita, o Château Angélus (260 euros para 265 euros) e Cheval Blanc (380 euros para 390 euros) subiram ligeiramente seus preços frente à 2020.

Outro grande grupo de produtores anunciou preços idênticos aos estabelecidos em 2020, casos de Pontet-Canet, Palmer, Longoa-Barton, Sociando-Mallet e Duhart-Milon, entre outros. Os Bordeaux de 2021 pedem paciência na compra, até os preços se estabilizarem em alguma direção.

Proposta a qual o editor-chefe da revista Wine Spectator, James Molesworth, já antecipou que “não há motivos para se comprar os Bordeaux de 2021 ao mesmo preço de 2020”, fazendo referência à qualidade superior da safra mais antiga. A publicação ainda não divulgou suas pontuações da safra 2021.

Brancos e doces, os mais afetados

O Château Guiraud não produzirá seu Sauternes 2021

Os símbolos maiores da catástrofe climática de 2021 estão em Sauternes e Barsac, sub-regiões vizinhas e focadas na produção dos vinhos doces. Barsac perdeu quase a totalidade da produção, cerca de 86% menos que em 2020 e Sauternes colheu 71% menos uvas que em 2020.

O 1er. Grand Cru Classé de Sauternes, Château Guiraud, anunciou que não produzirá seu reputado Sauternes em 2021. Luc Planty, diretor-técnico do Château afirmou que a (má) surpresa ocorreu na adega. “Tínhamos colhido um pouco de uva, porém, apesar dos cachos parecerem saudáveis por fora dentro das uvas, já havia uma grande população de bactérias acéticas (que transforma o vinho em vinagre)”. Assim a produção do vinho de sobremesa foi descartada.

Há poucos quilômetros de Guiraud está o Château d’Arche (Grand Cru Classé de Sauternes). Ali a solução para combater as geadas foi apelar para os fogareiros entre as fileiras das videiras. A produção foi 80% menor que a média histórica e com custo elevado. Cada fogareiro custa 10 euros e mantém a chama por seis horas. O custo estimado foi de 4.000 euros para proteger apenas um hectare de vinhedo. Arche possui 55 hectares em Sauternes.

Do lado mais otimista estão os vinhos brancos de Bordeaux. Embora não gozem do mesmo status e reputação dos tintos, as uvas (Sauvignon Blanc e Sémillon na grande maioria) colhidas mais cedo, escaparam dos picos de chuva, calor e geada.

Na Wine Advocate, publicação fundada pelo crítico Robert Parker, apenas o já citado Ausone flertou com os perfeitos 100 pontos (97-100). Todos os demais ficaram abaixo dos 98 pontos. Apenas como comparativo, na safra 2020, a mesma publicação colocou 15 vinhos com pontuação potencial entre 99 e 100 pontos.

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