CEO da Petrobras: um cargo tão instável quanto o de técnico de futebol

Se aprovado, Caio Paes de Andrade será o terceiro CEO da estatal neste ano. Só José Sarney e Fernando Collor de Mello fizeram mais substituições que Jair Bolsonaro. Ação cai com mudança

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Caio Paes de Andrade indicado para assumir o comando da Petrobras

Poucas cargos são tão instáveis como ser técnico de futebol no Brasil. Em geral, eles são trocados da noite para o dia por dirigentes que querem dar uma satisfação à torcida e acreditam que, com mais uma mudança, vão acalmar os torcedores pelos maus resultados.

Mas o cargo de CEO da Petrobras, a maior empresa brasileira, avaliada em R$ 429 bilhões, tem sido mais instável do que ser técnico de futebol no Brasil.

Ao demitir José Mauro Coelho, que ficou apenas 40 dias no cargo, e indicar Caio Paes de Andrade, o secretário de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, para assumir como CEO da estatal, o governo de Jair Bolsonaro promove a terceira troca de comando neste ano.

O time do Vasco da Gama, que disputa a série B do Brasileirão, trocou, na média anual, menos de técnico do que Bolsonaro de CEO da Petrobras na última década. A agremiação do Rio de Janeiro, que foi quem mais demitiu o treinador nos últimos dez anos entre os times de elite do futebol brasileiro, mudou 22 vezes o seu treinador neste período, uma média de mais de 2 vezes por ano.

Bolsonaro, que mudou quatro vezes o comando da Petrobras até agora, só trocou menos vezes do que José Sarney (1985-1990) e Fernando Color de Melo (1990-1992), entre os presidentes desde a redemocratização do Brasil. Em sua gestão, Sarney mudou o CEO cinco vezes. Collor, em sua rápida passagem no Palácio do Planalto, fez também cinco mudanças.

O presidente Itamar Franco (1992-1995) foi o que menos mexeu na estatal do petróleo brasileiro, com apenas uma troca. Na sequência, Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) fez três trocas. Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), duas. Dilma Rousseff (2011-2016), duas. E, por fim, Michel Temer (2016-2019), mexeu também duas vezes no cargo.

Mesmo com tantas mudanças, o que seria um sinal de que a gestão está ruim, a Petrobras teve um lucro de R$ 44,5 bilhões no primeiro trimestre de 2022, um dos maiores de sua história, por conta da alta do preço do barril do petróleo no mercado internacional em razão da guerra na Ucrânia.

É justamente nesse ponto que reside o problema – e os motivos das trocas sucessivas e constantes em 2022. Com uma política de paridade internacional com o preço internacional do petróleo, a Petrobras tem se beneficiado dessa alta do barril do petróleo.

Mas essa política fez o preço dos combustíveis disparar nos postos. Nos últimos 12 meses, a Petrobras subiu o preço do diesel em suas refinarias em 40%. O reajuste da gasolina, em um ano, ultrapassa 30%.

Mas será que a mudança do comando da estatal será capaz de frear essa política de preços da Petrobras? As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) caiam mais de 4% na B3. As ordinárias (PETR3) desvalorizavam-se mais de 3%. As ADRs da estatal, negociadas na Bolsa de Nova York, perdiam também mais de 3%.

A percepção do mercado é de que a Lei das Estatais e o estatuto da Petrobras vão blindar a empresa. Mas, dessa vez, ao contrário das outras trocas, a convicção não é tão grande.

“Embora a governança corporativa da Petrobras tenha evitado até agora interferências mais diretas, o verdadeiro teste ainda está por vir”, escreveram os analistas do BTG Pactual, Pedro Soares e Thiago Duarte, em relatório.

E questionaram: “Em última análise, achamos que o novo CEO enfrenta uma difícil dilema: como preservar o próprio emprego seguindo as políticas da empresa e sem comprometer a disponibilidade de combustível do Brasil?”

Outras bancos de investimentos seguiram no mesmo tom em suas análises. O Citi divulgou um comentário aos clientes chamando a troca de “loop infinito”. A XP escreveu que a mudança “não é positiva”.

O Credit Suisse foi cauteloso. “Acreditamos que esses anúncios provavelmente serão recebidos negativamente pelo mercado devido a possíveis interrupções e algumas preocupações de interferência política.”

A dúvida do mercado é como Andrade, caso o seu nome seja aprovado pelo conselho de administração, irá lidar com as pressões do cargo e com a política de preços.

Será que ele vai seguir a linha de raciocínio do livro “O Leopardo”, do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) que diz: “Algo deve mudar para que tudo continue como está.” Os próximos capítulos vão trazer a resposta.

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