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Com aporte de R$ 100 milhões, Ideal entra de vez na disputa das plataformas de investimento

Fundada em 2019, a corretora fez barulho ao chegar no topo das ofertas para investidores institucionais com um modelo 100% digital, baseado em nuvem e sem carteira própria. Agora, recebe um aporte do Kaszek Ventures e quer replicar essa trajetória no concorrido espaço dos investidores do varejo

 

Fundada em março de 2019, a Ideal já disputa espaço com as principais corretoras voltadas aos investidores institucionais. Essa jornada foi construída com um modelo de intermediação 100% digital, que substitui as tradicionais ordens de compra e venda por telefone. E que passa pelo fato de a empresa não operar uma carteira própria, sob a ótica de zerar eventuais conflitos de interesse.

Agora, a novata está ganhando um novo fôlego para seguir nessa ascensão meteórica, ao anunciar nesta-segunda-feira, 21 de setembro, um aporte de R$ 100 milhões, liderado pela Kaszek Ventures. A rodada envolve uma participação minoritária, não revelada, e a operação ainda está sujeita à aprovação do Banco Central.

“Somos bastante assediados por investidores desde o segundo mês da operação”, diz Nilson Monteiro, sócio e CEO da Ideal, em entrevista ao NeoFeed. “Mas nós sempre procuramos um sócio, nunca dinheiro ou maior valuation.”

Em negociações desde dezembro do ano passado, Monteiro aponta um fator decisivo para a escolha pela Kaszek. “Queremos crescer nossas linhas de negócios, produtos e serviços”, afirma. “Encontramos neles o mesmo apetite, visão e urgência em fazer algo nessa direção ainda nesse ano.”

A partir do caixa reforçado, a corretora vai acelerar um plano que vinha sendo arquitetado nos últimos meses: a entrada no mercado de varejo, uma arena que, ao contrário da seara dos investidores institucionais, está cada vez mais concorrida.

Não faltam exemplos recentes para ilustrar esse cenário. Na semana passada, o Nubank anunciou sua chegada ao segmento com a compra da Easynvest, corretora com 1,5 milhão de clientes e cerca de R$ 23 bilhões sob custódia.

No fim de agosto, a Avenue Securities, que até então atuava como uma plataforma de acesso dos investidores latino-americanos a títulos e ações nos Estados Unidos, desembarcou no Brasil com a aquisição da corretora Coin DTVM.

Outros movimentos reforçam essa disputa acirrada, como as compras da corretora Magliano, em julho, pelo Neon, e do Modalmais, em junho, pelo Credit Suisse.

Broker as a service

Para se distinguir nesse bolo, a Ideal já escolheu suas armas. “Nosso modelo é o B2B2C”, diz Monteiro. “Preferimos nos posicionar como uma corretora de broker as a service do que ser mais uma plataforma para competir com todas que já existem e que surgirão no mercado.”

Na prática, a proposta é fornecer infraestrutura tecnológica e outros serviços para atuar nesse mercado via parcerias. “Queremos ser uma plataforma de conexão para uma série de produtos”, afirma Lucas Cury, sócio e diretor de operações da corretora.

“Preferimos nos posicionar como uma corretora de broker as a service do que ser mais uma plataforma para competir com todas que já existem ”, diz Nilson Monteiro, sócio e CEO da Ideal

A primeira iniciativa nessa direção veio à tona em agosto, com a oferta de dados de mercado para a Guru. Em operação há poucos meses, a fintech tem uma proposta semelhante ao aplicativo americano Robinhood, que atraiu US$ 1,7 bilhão em aportes ao desafiar as corretoras tradicionais com um modelo sem taxas, que facilita o acesso de investidores ao mercado de capitais.

“Hoje, quem acessa o aplicativo da Guru tem acesso a dados de volumetria e de negócios da B3, providos pela Ideal”, explica Monteiro. “E até o fim do ano, esses usuários vão poder transacionar e liquidar suas operações em bolsa por meio do nosso chassi.” Ele acrescenta que a corretora tem cerca de dez parcerias nesses moldes sendo negociadas ou implantadas.

O fato de atuar mais nos bastidores não significa que a Ideal não quer seguir fazendo barulho no mercado. A empresa enxerga espaço para se associar a projetos que desafiam os modelos estabelecidos no mercado, como a própria Guru. “Seja no institucional ou no varejo, não vamos mudar a nossa tese de ser uma agency only, sem conflitos de interesse.”, diz Cury.

Para Bruno Diniz, fundador da consultoria Spiralem, existe potencial para confrontar formatos como os agentes autônomos. Mas a falta de educação financeira de boa parte dos investidores pessoa física é um desafio na busca de escala para esses modelos. “Ainda estamos muito distantes da maturidade do mercado americano, onde qualquer um acompanha as oscilações do mercado de ações”, diz Diniz.

Ele enxerga, porém, boas perspectivas para a Ideal. “Com esse modelo self service no institucional, eles mostraram que há espaço para outras teses serem acomodadas”, diz. Mas faz uma ressalva. “Entrar no varejo, com tão pouco tempo de operação, pode tirar o foco do negócio que já está indo bem.”

Nas nuvens

Com uma média de 2 milhões a 2,5 milhões de negócios diários, a Ideal está no topo dos volumes negociados no mercado futuro de derivativos da B3, com uma participação que varia entre 17% e 18%. Já no segmento de ações, a corretora figura entre as quatro principais, com uma fatia de 7%.

Outro pilar ajuda a entender o rápido avanço da empresa. Toda a estrutura por trás das operações da companhia está hospedada na nuvem, o que permite que a corretora, com alguns cliques, tenha flexibilidade para se adaptar rapidamente às oscilações do mercado.

Foi o que aconteceu durante a pandemia. “Em março, chegamos a ter um pico de 16 milhões de negócios em um dia e não tivemos problemas”, afirma Monteiro. Cury acrescenta: “Passamos por um batismo de fogo com a Covid-19 e saímos ilesos.”

A Ideal está no topo dos volumes negociados no mercado futuro de derivativos da B3, com uma participação que varia entre 17% e 18%

Além do modelo digital, baseado em nuvem e no formato “agency only”, a experiência dos nomes à frente da empresa é mais um componente na trajetória, até aqui, bem-sucedida da Ideal.

A companhia foi fundada por um grupo de ex-executivos da Link, corretora digital que se destacou nos anos 2000 e foi comprada, em 2013, pelo banco suíço UBS. Hoje, a Ideal atua no modelo de partnership e tem 17 sócios.

No saldo dessa equação, a corretora é lucrativa desde os primeiros meses de operação. “Vamos fechar esse ano com cerca de R$ 17 milhões de lucro, quase três vez mais que 2019”, diz Monteiro. “Em nove meses, nós executamos o plano que tínhamos traçado para três anos. Mas isso ainda é só o começo.”

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