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Como é a vida na cidade com maior concentração de ultra-milionários do mundo

A cidade de San Jose, na Califórnia, com pouco mais de 1 milhão de habitantes tem a maior concentração de grandes fortunas do mundo. Em outro extremo, parte de seus moradores sofre para acompanhar a elevação do custo de vida na região. O NeoFeed visitou o lugar e conta como é a vida por lá

 

Uma das mansões de San Jose

No fim da década de 1950, a família Rocca se mudou de San Francisco para San Jose, a 60 quilômetros de distância. Na região central da pequena cidade californiana, o clã abriu o restaurante Original Joe’s, que, nas décadas seguintes, saciou o apetite de alguns dos protagonistas da revolução que culminou no nascimento do Vale do Silício.

Embora não revele os nomes de seus clientes mais famosos, Brad Rocca, neto do fundador do restaurante, sabe que a localização do estabelecimento é um prato cheio para atrair um perfil, em particular, de público.

San Jose foi eleita a cidade com a maior concentração de ultra-milionários do mundo, segundo o último relatório da consultoria Wealth-X, especializada na análise e insight de grandes fortunas. O cálculo da empresa mostra que uma a cada 727 pessoas ali tem um patrimônio que supera US$ 30 milhões, o que certamente influencia a dinâmica social, política e econômica do lugar.

A cidade está à frente de Basel, na Suíça, com um a cada 776 habitantes com mais de US$ 30 milhões; seguida por Hong Kong (1 a cada 787), Genebra (1 a cada 880), Zurique (1 a cada 924), São Francisco (1 a cada 1.186), Seattle (1 a cada 1.519), Boston (1 a cada 1.589), Bridgeport (1 a cada 1.655) e Nova York (1 a cada 1735).

Quem dirige pelas ruas pacatas da cidade San Jose, com pouco mais de um milhão de habitantes, não consegue entender o apelo que a região tem para quem poderia morar em qualquer lugar do mundo. São ruas e mais ruas de casas construídas em estilos neoclássico, com árvores enfileiradas e pavimento bem cuidado. Num domingo ensolarado, o sonho americano pode ser até um pouco sonolento.

As áreas das casas se alargam à medida que se avança para os bairros nobres, como Saragota e Los Gatos, onde mora Sergey Brin, cofundador do Google. Larry Page, o outro nome envolvido na criação do buscador mais famoso do mundo, fixou residência na cidade vizinha de Palo Alto, onde também vive o todo-poderoso do Facebook, Mark Zuckerberg.

Cupertino, casa da Apple, fica nos arredores, e a Wealth-X não deixou claro se incluiu esses CEPs estrelados em seu levantamento. A empresa revelou apenas que considerou “áreas construídas fora do núcleo administrativo”, o que deixa a entender que as cidades satélites foram igualmente contempladas.

O mapa utilizado pela consultoria tem limites tão confusos como o da vida real, onde, em uma esquina, toma-se café em San Jose e, na outra, em Loyola ou Los Altos. É uma geografia confusa, sobretudo, para quem não nasceu ou cresceu ali – o que Rocca acredita que seja algo em torno de 70% dos locais.

Michelle e Brad Rocca, proprietários do Original Joe’s

“Vi gerações inteiras dividirem refeições, mas isso está ficando cada vez mais escasso, com a chegada de pessoas de outros estados e países”, diz. A mudança na demografia e na socialização local foi refletida no menu. Agora, o Original Joe’s funciona apenas na hora do jantar, a partir das 16h, mas serve panquecas e outros itens de café da manhã.

“Paramos de servir almoço pouco antes da pandemia, porque as longas reuniões de almoço, regadas a martinis e drinks, ficaram no passado”, conta. “Além disso, essas grandes empresas de tecnologia têm refeitório com chef local, então todo esse pessoal almoça diante do computador e nunca deixa o campus”. Ali, estão gigantes como ebay, Adobe, Cisco, entre outras.

Junto com a nova dieta local, vieram outras mudanças. Segundo a PayScale, agência especializada em remuneração e benefícios, a média salarial na região é de US$ 30/hora, o dobro do salário mínimo. “Percebo que as gorjetas estão mais generosas e que nossos clientes cuidam muito bem dos nossos garçons e atendentes”, diz Rocca.

Teto de vidro

A maior circulação de dinheiro transformou quase todo os moradores em “milionários”. “Meus pais, imigrantes, compraram uma casa aqui em 1977 e agora, por conta do valor do imóvel, eles podem ser considerados milionários, mas certamente não vivem como tal”, conta ao NeoFeed a agente imobiliária Nicki Brown.

Ela acaba de assinar a venda de uma casa em San Jose por US$ 7,9 milhões e está negociando uma outra, na mesma cidade, avaliada em US$ 9,7 milhões. “São cinco quartos e oito banheiros, e acho que conseguiremos vender esse imóvel um pouco acima desse valor, numa transação em dinheiro e sem nenhum tipo de contingência”, diz.

Ainda de acordo com Brown, esses multimilionários não estão necessariamente pesquisando a melhor piscina, a maior suíte ou a melhor decoração, mas sim, privacidade: localização é a palavra-chave para esses magnatas, que podem reformar os imóveis como bem entendem.

“E é tudo muito bom e muito bonito, mas aí eu me preocupo com os meus filhos”, diz. “Porque não sei como ou se eles vão conseguir comprar um imóvel por aqui, competindo com esses empreendedores que abrem o capital de suas companhias e, num piscar de olhos, ganham fortunas.”

É justamente nesse abismo que mora a maior preocupação do professor de sociologia da San Jose State University, o Dr. Scott Myers-Lipton, responsável por conduzir o estudo que foi compilado no Relatório da Dor do Vale do Silício.

“Neste momento, no Vale do Silício, cerca de 20% de nossa população sofre de insegurança alimentar”, disse ele ao NeoFeed. “Quer um outro dado alarmante? 70% dos meus alunos trabalham e, mesmo assim, não conseguem arcar com os aluguéis da região, então acabam dividindo quartos com até sete pessoas ou, em alguns casos, dormem em carros”.

Grandes empresários e companhias não se esquivam de sua responsabilidade e têm alocado dinheiro para combater a desigualdade na região. Só a Apple, por exemplo, destinou US$ 2,5 bilhões para projetos de moradias assistenciais na Califórnia, exemplo que foi seguido por Google, Amazon e Facebook.

Mas não são todos que podem aguardar os resultados do projeto. Segundo o 2021 Sillicon Valley Index, a região tem “perdido” cerca de 5,1 mil habitantes, que buscam estabelecer residência em áreas mais baratas no estado da Califórnia e além. Muitos estão se mudando para Los Angeles, no mesmo estado da Califórnia; Miami, na Flórida; e até mesmo Austin, no Texas (Leia reportagem).

A julgar pela fila dominical do Whole Foods, rede de supermercados de alto padrão, pertencente a Amazon, esse êxodo não tem afetado drasticamente a região. Sobretudo, porque quem realmente tem dinheiro, segue ali. Firmes, fortes e cheios de privacidade em suas mansões compradas à vista.

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