Depois de conquistar os EUA, a Moove, da Cosan, “volta os canhões” para a Europa

Ao comprar a PetroChoice, nos EUA, a empresa de lubrificantes da Cosan fez um M&A transformacional. Agora, mira (de novo) a Europa, de onde já vem mais de 30% de sua receita. O CEO Filipe Affonso Ferreira explica a estratégia

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 Filipe Affonso Ferreira, CEO da Moove

No fim de maio, a distribuidora de lubrificantes automotivos e industriais Moove surpreendeu o mercado ao anunciar a aquisição da PetroChoice, segundo maior nome do mesmo segmento nos Estados Unidos. Por US$ 479 milhões, a empresa do Grupo Cosan, que tem como sócio o fundo de private equity CVC Capital Partners, passou a estar presente em 70% no mercado americano, avaliado em US$ 33 bilhões.

Este foi o passo mais contundente do plano traçado, em 2017, por Filipe Affonso Ferreira, o CEO da empresa, para transformar a Moove em uma referência global na venda e distribuição de lubrificantes. Mas está longe de ser o único. 

A próxima etapa consiste em estabelecer a Moove como nome relevante em outra região que Ferreira entende ter espaço para crescer: a Europa. A intenção é criar uma plataforma ampla de serviços no Velho Continente nos moldes da que a empresa acabou de comprar nos Estados Unidos. 

“Voltamos todos os nossos canhões para lá”, diz Ferreira, em entrevista ao NeoFeed. “Na Europa existem oportunidades que estamos analisando e, na hora certa, devemos dar algum passo lá.”

Diferentemente dos Estados Unidos, onde até a compra da PetroChoice as operações estavam concentradas na distribuição de lubrificantes Mobil nas regiões metropolitanas de Nova York e Nova Jersey, a Moove já tem presença relevante na Europa. 

Sua chegada ocorreu em 2012, quando adquiriu as operações da marca Comma na Inglaterra, passando a produzir, vender e distribuir lubrificantes para mais de 40 países na Europa e Ásia. A Moove tem também operações de distribuição e venda da marca Mobil e marcas próprias em Portugal, Espanha e na França. 

As operações europeias respondem por quase um terço da receita total da Moove, que foi de R$ 6 bilhões em 2021, dado que não inclui a PetroChoice. Mas Ferreira entende que há espaço para expandir a atuação da Moove na região.

O executivo destaca que não há definições concretas a respeito de aquisições. Mas avalia que o continente europeu é altamente fragmentado, com muitas companhias atuando separadamente nos mais diversos elos da cadeia. 

A ideia de Ferreira é replicar na Europa o modelo dos Estados Unidos: comprar uma plataforma e nacional na área de lubrificantes, a exemplo da PetroChoice. A empresa americana é o resultado de uma série de aquisições feitas ao longo de quase 53 anos, o que a tornou um dos principais nomes do mercado.

Com a PetroChoice, a Moove passou a ser dona de mais de 50 centros de distribuição em 25 estados e de duas unidades de mistura de lubrificantes nos Estados Unidos. Anualmente, a companhia americana distribuiu 240 milhões de litros de lubrificantes.

Com essa infraestrutura, a Moove passa a competir diretamente com a grandes petroleiras, como a Chevron, e até distribuidores com atuação parecida a da PetroChoice. “A operação que temos na Europa é muito parecida com o que a compramos nos Estados Unidos”, diz Ferreira. “Mas o negócio americano agora é três vezes maior que o europeu.”

Para atingir um patamar semelhante ao americano na Europa, o plano é encontrar players que possam fortalecer a Moove nos elos de supply, manufatura, marketing, vendas e distribuição de lubrificantes.

Ferreira entende que é na especialização nessas partes que está seu diferencial competitivo para encarar os grandes rivais da Europa, como Castrol e Shell, e conseguir abocanhar uma fatia relevante do terceiro maior mercado do mundo, que responde por 19% do consumo global de lubrificantes. 

Passo a passo

A Moove foi criada em 2008 após a Cosan adquirir os ativos da ExxonMobil no Brasil. Desde sua origem, a companhia tinha planos de expansão global. Mas, quando Ferreira assumiu o comando da empresa, em 2016, ele entendeu que, antes de conquistar o mundo, era preciso primeiro ganhar eficiência e robustez no mercado brasileiro, responsável no ano passado por cerca de 55% da receita da Moove.

Isso não significava abandonar os planos internacionais. Além de Estados Unidos e Europa, a Moove vende também produtos para Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia a partir de sua fábrica no Rio de Janeiro, de onde vem quase 45% da receita. 

O plano traçado vem demonstrando resultados, com a companhia vindo numa crescente desde 2016. O Ebitda cresceu 4,5 vezes até 2021, para R$ 603 milhões, enquanto a receita avançou 3,2 vezes, para R$ 6,1 bilhões.

No Brasil, a Moove se consolidou como o terceiro maior nome do setor de lubrificantes em volume de vendas, com uma fatia de 14,1%, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Em primeiro lugar está a Iconic, parceria da Ipiranga com a americana Chevron, com 16,8% de participação de mercado. Em seguida vem a Vibra Energia, ex-BR Distribuidora, com 15,8%.

A chegada da PetroChoice faz a Moove dar um salto em termos financeiros e operacionais, mostrando a pretensão de seu plano de internacionalização. A empresa estima que a plataforma americana vai aumentar o volume de vendas, que fechou 2021 em 400 milhões de litros, para 650 milhões de litros entre este ano e o próximo. 

No mesmo período, ela estima um aumento de 66% da receita, para R$ 10 bilhões, e de 41,6% do Ebitda, para R$ 850 milhões. O percentual do resultado em moeda forte subirá de 44% para 55%. 

E mesmo com os olhos voltados para o exterior, a Moove não se descuida em aproveitar oportunidades no mercado doméstico. Em fevereiro, a companhia fechou a compra da Tirreno, concluída em junho, entrando para um segmento em que não atuava, o de especialidades. Esse tipo de produto é voltado para situações e indústrias específicas, sendo produzido em lotes menores. 

Segundo Ferreira, a Tirreno vem para complementar a oferta da Moove, além de agregar financeiramente um faturamento de R$ 250 milhões. “No Brasil, no estágio que chegamos hoje, para trabalhar especialidades, você precisa de pessoas que são experts, porque é um investimento muito especializado. Trouxemos a Tirreno por causa disso”, afirma. 

Com estes movimentos, a Moove vai ganhando destaque dentro da estrutura da Cosan, que conta com nomes já consolidados e líderes em seus mercados, como Raízen, Compass e Rumo.

Em 2021, a Raízen, que atua no setor de energia, registrou uma receita de R$ 175 bilhões. A Compass, empresa de distribuição de gás natural da Cosan, fechou com receita de R$ 12,3 bilhões. E a Rumo, de ferrovias, R$ 7,4 bilhões.

Para Gabriel Barra, analista do Citi, a Moove representa um negócio complementar para a Cosan, além de apresentar um bom nível de retorno. O Roic, índice que mede o retorno sobre o capital investido, passou de 7,3% em 2016 para 19,1% em 2021.

“Quando olhamos para a Moove, chama atenção o fato de que a aquisição traz a companhia para outro patamar”, diz Barra. “Na minha cabeça, não vejo como um business secundário, ele pode ser menor, mas tem um Roic razoável.”

Por ser uma companhia de capital fechado, o analista destaca que uma possível listagem poderia facilitar a percepção de valor pelos investidores.

Como parte do processo de reestruturação apresentado ao mercado no final de 2020, a Cosan pretendia realizar o IPO de suas subsidiárias, mas a piora dos mercados em virtude da pandemia colocou um freio na maior parte dos processos – o único a sair foi o da Raízen, em agosto de 2021, movimentando R$ 6,9 bilhões.

Questionado sobre a abertura do capital, Ferreira diz que este não é o foco atual da companhia. “Acreditamos ter muito valor a gerar antes da abertura de capital”, diz o CEO da Moove.

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