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Insiders

Ele escreveu um manual para criar apps viciantes. Agora, quer combatê-lo

O escritor Nir Eyal criou o modelo usado por startups para desenvolver apps que viciam. Agora, em novo livro, ele quer oferecer a cura. Em entrevista ao NeoFeed, Eyal conta como controlar a compulsão. Spoiler: ele diz que a culpa não é da tecnologia

 

O escritor e investidor israelense Nir Eyal

“Se você pudesse escolher ter um superpoder, qual seria?” Quando confrontado por essa questão, o escritor e investidor israelense Nir Eyal deslizava os dedos na tela do celular. Na ocasião, ele estava “ocupado” demais para se recordar do superpoder escolhido pela filha durante uma brincadeira de perguntas e respostas. 

“Eu estraguei um momento lindo entre pai e filha porque estava distraído”, disse Eyal em entrevista ao NeoFeed, citando aquele momento como a gota d’água para que mudasse seus hábitos. “Para conseguir fazer isso, eu precisava entender a causa do problema, encontrar a raiz do que eu acreditava que era um problema com o mundo digital.”

Eyal ganhou fama no Vale do Silício quando escreveu, em 2014, Hooked (Engajado): Como construir produtos e serviços formadores de hábitos.  O livro, que se tornou um best seller, virou um manual para as startups criarem aplicativos cativantes para que fossem usados de forma intensa pelos usuários. Em resumo, era um guia para viciar.

Agora, Eyal, que é considerado por muitos o pai de aplicativos viciantes, quer combater esse hábito, com um novo livro. Trata-se de (In)distraível: Como Dominar sua Atenção e Assumir o Controle de sua Vida, publicado pela editora AlfaCon no Brasil. 

O escritor, no entanto, não se diz arrependido de Hooked. “É verdade que muitas das técnicas que eu escrevo são conhecidas e usadas por empresas como Facebook, mas eu não me arrependo porque nunca trabalhei para eles”, afirma Eyal.

Especialista em design de comportamento, Eyal tem MBA pela Universidade de Stanford e já colaborou com publicações como The New York Times. No mundo dos negócios, ele foi investidor de startups como Anchor.com, comprada pelo Spotify; Worklife, adquirida pela Cisco; e Eventbrite, que abriu o capital em 2018.

Em entrevista ao NeoFeed, Eyal conta mais sobre sua nova obra e de como sua vida mudou agora que aprendeu, de fato, a ser “indistraível”.

O seu mais novo livro, “Indistraível” é uma espécie de redenção, de mea culpa, ao “Hooked”?
Não, porque no Hooked eu falo de hábitos saudáveis. É verdade que muitas das técnicas que eu escrevo são conhecidas e usadas por empresas como Facebook, mas eu não me arrependo porque nunca trabalhei para eles. Aliás, quer saber para qual empresa eu me arrependo de ter trabalhado?

Qual?
O The New York Times.

Por que se arrepende?
Porque a notícia vicia mais do que as redes sociais. Em inglês, temos até o termo “new junkies” para falar sobre esse problema. E, no fim das contas, Facebook e The New York Times ganham dinheiro da mesma forma, com anúncios. Ambos querem a sua atenção e querem lucrar com ela. 

Então, o problema…
O problema é o abuso, não o uso. Preciso frisar isso. Consumir um pouco de notícias por dias não só não faz mal, como é indicado. Agora, consumir notícias demais, o tempo todo, não é legal. Da mesma forma, não é saudável consumir muito álcool, muito doce e nem praticar muito exercício. Então, só para deixar claro, o problema não é a mídia, mas a forma como consumimos tudo isso.

“Consumir notícias demais, o tempo todo, não é legal. Da mesma forma, não é saudável consumir muito álcool, muito doce e nem praticar muito exercício”

Isso vale para a nossa distração também?
Sobretudo para a nossa distração. Não são as coisas que nos distraem, nós que nos distraímos. A ação parte da gente. 

Seria, então, quase um instinto?
Não, acho que a distração é um fenômeno exclusivamente humano, porque para se estar distraído é preciso saber do que você está se distraindo. Distração e tração vem da mesma raiz, de uma palavra em latim que quer dizer “puxar”. Só que uma sugere a direção oposta da outra. Então, basicamente, uma pessoa distraída está sendo puxada para longe de seus objetivos para onde deveria ir sua tração. 

E a tecnologia não tem nada a ver com isso?
Se você está procurando distração, é mais fácil do que nunca encontrar uma. Isso não significa, porém, que somos impotentes. Muita gente acha que estamos viciados e perdendo o controle, mas não é verdade. 

Isso já aconteceu antes?
Platão e Sêneca escreveram sobre distração séculos atrás. Toda geração teve de lidar com isso. E toda geração encontrou um culpado: quadrinhos, rádio, televisão e agora a internet. O que não podemos é aceitar a ideia de que isso é imutável.

Como se tornar “indistraível” nesse mundo hiperconectado?
O livro explora com profundidade esse tema, mas vou resumir aqui as quatro etapas necessárias para isso. A primeira é encontrar os gatilhos internos: reconhecer quais os sentimentos de medo ou desconforto que estão levando à distração. Depois, é importante ter tempo para a tração e ter um planejamento é indispensável. Se você consegue uma entrevista com o presidente, você certamente vai colocar esse compromisso na sua agenda e cumpri-lo à risca. É importante criar tempo para as pessoas e hábitos que nos impulsionam a seguir.

E depois…
Depois é preciso reconhecer os gatilhos externos, que eu acho que são o elefante na sala. Essa moda de escritório aberto é um perigo à distração, porque o Bill da contabilidade passa para dar um alô rapidinho, depois seu chefe quer bater-papo… É importante remover os gatilhos externos sempre que possível.

Qual a última etapa?
Vamos recapitular rapidamente: primeiro entendemos os gatinhos internos, depois trabalhamos o planejamento, lidamos com os gatilhos externos e aí chegamos na última parte, que é o pacto. 

Tipo uma promessa?
Não, tipo uma ferramenta de comprometimento.

Poderia dar um exemplo?
Claro, tempos atrás decidi que era hora de me cuidar, mas eu nunca fui à academia consistentemente. Então, eu implementei a técnica “queime ou queime”, que é bastante simples: ou eu vou à academia ou eu queimo uma nota de 100 dólares. Eu sei que isso soa absurdo, mas eu nunca precisei queimar essa nota de 100 dólares que eu mantenho no armário justamente porque vou à academia. 

De todo esse processo para se tornar “indistraível”, qual é o mais difícil?
O primeiro, sem dúvida. É importante entender porque recorremos aos feeds das redes sociais assim que ficamos entediados. Se você está no celular durante um jantar familiar, me desculpe, a culpa não é do celular.

E você acha que a distração pode ser o ponto de partida para problemas como ansiedade, depressão…?
Não, acho o contrário: esses quadros são quase sempre a causa da distração. Esse é o grande ensinamento do livro. A distração começa dentro da gente. São os gatilhos internos. Tudo o que você faz, você faz por uma razão. Estamos sempre procurando maneiras de escapar de situações e sentimentos desconfortáveis. Nossos celulares são a válvula mais rápida e fácil que encontramos para tirar a nossa cabeça do problema. O celular não é o problema e seguiremos distraídos enquanto não soubermos lidar com os desconfortos de maneira saudável. 

E a distração é contagiante?
Certamente. É aquela coisa do fator externo que falamos. Se estamos em uma reunião e o chefe, que teoricamente é a pessoa mais importante à mesa, passa boa parte do tempo mexendo no celular, todo mundo se sente no direito de fazer o mesmo. E, mais, alguém pode pensar “e se ele estiver me mandando um e-mail?”. O que gera ainda mais estresse e, consequentemente, distração. É contagioso ver tanta gente usando a tecnologia de maneira tão pouco saudável. 

“É contagioso ver tanta gente usando a tecnologia de maneira tão pouco saudável”

O que uma empresa pode fazer para promover a tração, e não a distração, no ambiente de trabalho?
Primeiro, ela precisa entender que não há qualquer relação entre o uso de tecnologia e a produtividade: é a cultura da empresa. Se o seu chefe te liga às 8 horas da noite de uma sexta-feira para conversar sobre tarefas e você está com a família, a culpa é do telefone? Não, a culpa é da cultura da empresa que normatiza esse comportamento. A culpa é do seu chefe.

Do chefe?
Sim, porque a primeira coisa que um chefe precisa entender é que todo mundo espera que você dite o ritmo e que liderança, tal qual a água, corre montanha abaixo. Então, se você checa seu celular constantemente, sua equipe vai entender que isso é o que se espera dela. Se você quer pessoas mais produtivas, seja “indistraível” e ofereça esse exemplo. 

Teve oportunidade de conhecer alguma empresa que opere de modo saudável?
Olha que curioso. O Slack, que é aquela plataforma de workflow, é responsabilizado pela distração de muitas equipes e eu estive no escritório da empresa. Naturalmente, esperava que eles fossem os mais distraídos do mundo, já que ninguém deve usar mais o Slack do que a equipe que ali trabalha. Mas às 6 horas da tarde todo mundo vai embora. Se você estiver online na parte da noite ou aos finais de semana, você é repreendido por isso. Eles têm escrito na parede, em letras garrafais: “trabalhe duro e vá para casa”. É parte da cultura deles não estar conectado o tempo todo.  

E há convites de outras empresas para implementar essas ideias?
Ah, sim. Estou rodando o mundo por conta disso. Tenho viagem agendada para a Índia, para São Francisco. É um problema global. 

Não há variante cultural, então?
Na causa e na solução, não. As distrações acontecem pelos mesmos motivos e as mesmas quatro etapas podem ser aplicadas em qualquer país e cultura. O que acontece são diferenças nos locais de fuga. Por exemplo, nos Estados Unidos, as pessoas de distraem, sei lá, com o Instagram, talvez no Brasil, seja com o futebol.  

E como sua vida mudou agora que você é “indistraível”?
Nossa, mudou muito. Eu passo mais tempo do que nunca com a minha família e agora estou em minha melhor forma. Meu trabalho rende mais e é melhor. Tudo mudou. Esse livro não tem a menor pretensão de te dizer o que fazer.

Como assim?
Eu não quero dizer a ninguém o que fazer. Eu quero apenas que as pessoas tenham tempo para fazer o que elas quiserem. Apenas ofereço ferramentas para que isso seja possível, porque sucesso não é apenas fazer a coisa certa, mas também não fazer as coisas erradas. Todo mundo sabe o que é preciso fazer para perder peso, mas se não lidarmos com as distrações, nunca conseguiremos a tração que precisamos e queremos para emagrecer. Precisamos ser mais conscientes.

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