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Em Bordeaux, os produtores choram e os compradores brindam

Por conta da pandemia, a crítica especializada não pôde provar a safra de 2019. O resultado: os preços caíram até 35% no chamado en primeur, o sistema de venda antecipada

 

Château Lafite Rothschild, onde repousam algumas das mais belas safras de vinho

Em Bordeaux, onde se produz e repousam alguns dos melhores vinhos do mundo, um ritual seguido à risca ano a ano define o sucesso de uma safra: a avaliação e opinião da crítica especializada. Suas notas determinam o destino de um Margaux, um Mouton-Rothschild ou de um Lafite.

Elas são essenciais no resultado econômico do chamado en primeur, um sistema particular de venda antecipada. Nele, é colocado à venda o vinho que acabou de entrar na barrica e ainda vai envelhecer nos châteaux por um período de um a dois anos, antes de chegar ao mercado.

Acontece que a pandemia do coronavírus acabou bagunçando todo o cronograma e a precificação das vinícolas bordalesas. Impedidos de contar com a opinião da crítica especializada, que não pôde provar, presencialmente, a safra 2019 nos châteaux, no mês de abril, os produtores tiveram de baixar os preços de seus néctares.

Os vinhos foram precificados, em média, 21% mais baratos, segundo relatório da consultoria inglesa Liv-ex. Em alguns casos, a redução chegou a 35% na comparação com o valor da safra de 2018. A precificação foi feita diante do cenário que se apresentava.

Climaticamente, o ano de 2019 apontava para uma safra difícil em Bordeaux. Além disso, a pandemia fez retrair o consumo de vinhos premium na China e em Hong Kong, fator que pesou na formação de preços dos grandes rótulos bordaleses (na última década, os asiáticos têm inflacionado o preço dos vinhos franceses, principalmente os de Bordeaux).

Outro fator crucial nesta redução de preço foi o imposto de 25% criado pelo governo norte-americano para os vinhos franceses, o que tem afastado os consumidores americanos, grandes bebedores de vinho.

Para as vinícolas, definitivamente, não foi um bom negócio. Para os compradores, é claro, trata-se de uma grande oportunidade. Ainda mais, depois que alguns críticos conseguiram provar e dar o veredicto sobre a safra.

Muitos dos críticos receberam as amostras em suas casas, em uma verdadeira operação de guerra, organizada pela Union des Grands Cru de Bordeaux, a entidade que representa as vinícolas bordalesas, e começaram a publicar as suas notas.

Com a tabela dos preços en primeur já publicada e as vendas começando a ser realizadas, a safra de 2019, que era vista como complicada, começou a receber notas altas dos especialistas.

Lisa Perrotti-Brown MW, que substituiu Robert Parker nas avaliações de Bordeaux da The Wine Advocate, deu 97-100 (numa escala de até 100 pontos) para o Château Margaux e 98-100 para o Château Mouton-Rothschild, por exemplo.

James Suckling pontuou entre 99-100 o Château Lafite Rothschild. Suckling, aliás, foi o primeiro crítico a publicar sua avaliação, afirmando que “os vinhos são de excelente qualidade, do simples Bordeaux ao cru classé”.

Margaux, um dos ícones de Bordeaux

O resumo desta história é que 2019 começou a surgir como uma safra de qualidade – para muitos, a melhor da década –, porém os seus grandes vinhos já estavam sendo vendidos por preços mais baixos no sistema en primeur. Não havia mais volta para as vinícolas.

Para os brasileiros de paladares mais apurados e bolsos mais recheados, foi uma ótima notícia. Diante deste cenário, a importadora World Wine decidiu lançar o seu en primeur, o que não acontecia desde a safra de 2012, por razões econômicas.

“Com uma diferença de até 35% no preço FOB compensa trazer estes vinhos, mesmo com o câmbio desfavorável”, conta Juliana La Pastina, vice-presidente da importadora World Wine.

Em safras passadas, com o preço em alta e o câmbio desfavorável, a avaliação da importadora é que não compensava trazer estes vinhos para o Brasil. Este ano, o cenário mudou. “Há um mercado de consumidores brasileiros ávidos pelos grandes rótulos de Bordeaux. E o en primeur é uma oportunidade”, afirma Juliana.

Mas, afinal, como funciona o en primeur? Pelo sistema, o interessado paga 50% do valor do vinho no momento da compra e os 50% restantes quando a garrafa chegar na adega da importadora, entre dois e três anos depois.

Um exemplo é o Château Latife Rothschild, clássico grand cru classé de Pauillac, a garrafa mais cara na lista da importadora, vendido por 1.319 euros. Paga-se 659,5 euros (R$ 3.990) no ato da compra e os 659,5 euros restantes serão convertidos em reais na data da entrega das garrafas.

A previsão de entrega é em 2022. Até lá, a desvalorização cambial pode não estar tão forte e certamente a garrafa, que recebeu entre 97-99 da Wine Advocate, entre 99-100 de James Suckling e 98 da Decanter, valerá mais do que os 1.319 euros atuais.

O en primeur pode ser chamado de compra de confiança, válida para os grandes vinhos de Bordeaux. Ajuda a financiar as vinícolas, que recebem adiantado pela produção. Mas, como mostrou esta safra, é muito dependente da avaliação dos negociantes e jornalistas, em degustações organizadas pela Union des Grands Cru de Bordeaux.

E safras como esta são também um bom investimento nos mercados em que as vendas de vinhos têm liquidez. Londres, Hong Kong e Nova York são os principais centros.

No Brasil, onde o vinho ainda não é tratado como um investimento financeiro, cabe aos amantes de Bordeaux desfrutar do prazer de degustar estes vinhos por um preço abaixo do de safras passadas. O que, convenhamos, não é nada mau.

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