Um vídeo caseiro, até então nunca divulgado, reacende a polêmica sobre o suposto abuso sexual sofrido por Dylan Farrow, em 1992. São imagens da filha adotiva de Mia Farrow e Woody Allen, aos 7 anos, contando para a câmera, operada pela mãe, como o pai a teria molestado no sótão de sua casa em Connecticut, nos EUA.

O material é o que mais chama a atenção no documentário “Allen v. Farrow’’, uma das novas atrações na programação da HBO e da HBO GO. Dividido em quatro partes, com episódios lançados semanalmente, aos domingos, o programa mostra que há ainda muito a ser descoberto e discutido no caso, embora ele ganhe extensa cobertura da mídia há quase 30 anos.

As imagens da pequena Dylan contando como o pai teria tocado em suas “partes íntimas” são desconcertantes. Sentada na cama, sem camisa, a menina de cabelos loiros despenteados revela, com ar constrangido, o que Allen teria feito “secretamente, com uma das mãos”.

“Eu não gostei nem um pouquinho daquilo”, conta ela, apontando para a genitália, após a mãe perguntar onde ela tinha sido tocada. A data da gravação do vídeo está registrada como 5 de agosto de 1992, um dia depois da visita de Allen.

Como o cineasta não aceitou participar do projeto, a sua versão dos fatos é apresentada com trechos de entrevistas antigas que ele deu para emissoras de TV. Allen sempre negou que tivesse tido qualquer “comportamento sexual inadequado ou abusivo” com relação a Dylan. Segundo ele, tudo não passaria de uma “falsa memória” plantada por sua mãe, para se vingar do diretor.

O que há de mais recente do documentário, da parte de Allen, são trechos extraídos da narração que ele fez para o “audiobook” de “Apropos of Nothing”. No seu livro de memórias, lançado no ano passado, ele nega, mais uma vez, que teria abusado sexualmente de Dylan, quando a visitou em agosto de 1992, na casa de Mia, quando Dylan e seus irmãos estavam sob cuidados de uma babá.

Na época, Allen e Mia, que nunca moraram juntos, já enfrentavam uma crise. Em fevereiro daquele ano, Mia tinha descoberto na casa de Allen fotos nuas de Soon-Yi Previn, a filha que ela adotou com o companheiro anterior, o músico André Previn. Allen já tinha confessado o caso com Soon-Yi, mas ainda não tinha assumido a jovem de origem sul-coreana, 35 anos mais jovem, como sua nova mulher.

Woody Allen é acusado há quase três décadas pela ex-mulher e a filha adotiva - Foto: www.flickr.com/photos/electroluxappliances

“A imprensa me confunde com homens que foram condenados ou que admitiram crimes sexuais, apesar do fato de que a acusação feita contra mim repetidamente não ter sido provada”, escreveu Allen no livro, em um dos trechos que é resgatado no documentário.

“Meu filme ‘Um Dia de Chuva em Nova York’ ficou esperando distribuidor por um tempão nos EUA”, reclamou ele no livro e agora no documentário, referindo-se ao trabalho concluído em 2018.

Inicialmente, a comédia seria lançada pela Amazon Studios, que suspendeu a estreia prevista para 2019 depois que o movimento Me Too reaqueceu a polêmica entre Allen e Farrow. Só em outubro do ano passado é que o título foi lançado em território americano, graças à MPI Media Group e à Signature Entertainment.

“Allen v. Farrow” é dirigido por Kirby Dick e Amy Ziering, mais conhecidos por assinarem “The Invisible War”. Este documentário sobre uma onda de estupros nas forças armadas dos EUA foi indicado ao Oscar da categoria em 2013.

Desta vez, a dupla propõe uma nova investigação sobre o caso envolvendo Allen e Farrow, que até hoje é um dos maiores escândalos sexuais de Hollywood. Toda a história é revista a partir dos vídeos caseiros, de documentos judiciais, de gravações telefônicas entre Mia e Allen e de novos testemunhos.

Além das imagens de Dylan contando o que Allen teria feito com ela na ausência de Mia, há muitos trechos de vídeos e fotos de momentos familiares. Os trechos escolhidos sempre sugerem que Allen teria um comportamento estranho com Dylan, como se ele perseguisse a menina.

Também ganham espaço documentos extraídos da investigação conduzida sobre a polícia do Estado de Connecticut a partir das alegações de Dylan. Um deles é o relatório da Clínica de Abuso Sexual de New Haven, em que a instituição declarou, na época, haver “inconsistências’’ na história de Dylan.

O que há de novo agora, com a revisão do documento, feita por psicólogos infantis a assistentes sociais, é a revelação de que a criança foi entrevistada nove vezes ao longo de três meses. Para especialistas consultados recentemente, esse seria um número excessivo e incomum no caso de uma suposta vítima de abuso sexual infantil.

A própria Dylan, hoje com 35 anos, deu entrevista para o filme, assim como Mia Farrow e outras pessoas que conviveram com a família na época em que as acusações surgiram. Como só o lado da suposta vítima ganha extensos depoimentos atuais, o documentário acaba tendencioso, como se fosse a favor de Dylan e de Mia.

Para que houvesse equilíbrio, Allen precisaria ter se defendido, com imagens gravadas exclusivamente para o filme. O que os representantes do diretor fizeram foi soltar um comunicado no último dia 21.

“Esses documentaristas não tinham interesse na verdade. Em vez disso, passaram anos colaborando sorrateiramente com os Farrows e seus facilitadores para montar um trabalho sujo repleto de falsidades. Woody e Soon-Yi foram abordados há menos de dois meses, tendo apenas uma questão de dias ‘para responderem’. Claro que eles se recusaram a fazê-lo”, diz o comunicado.