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Em IPO, Havan quer valer R$ 100 bilhões, mais que B2W e Lojas Americanas. Faz sentido?

Comandada pelo empresário Luciano Hang, a varejista mira uma captação de R$ 10 bilhões e um valor de mercado que a colocaria como a segunda maior varejista listada na B3, atrás apenas do Magazine Luiza. O atraso no digital e a comparação com seus pares, no entanto, colocam essas cifras em xeque

 

Entre 2017 e 2019, a Havan ampliou em 32% sua rede de pontos de venda, para 147 unidades

Conhecido por suas aparições extravagantes e, muitas vezes, polêmicas, o empresário Luciano Hang voltou a ficar sob os holofotes na noite de quinta-feira, 27 de agosto, quando a Havan, rede de varejo fundada por ele em 1986, protocolou o prospecto preliminar de sua oferta pública inicial de ações.

Em tempos de reaquecimento do mercado de capitais, a formalização do caminho para o IPO não foi exatamente o que mais chamou a atenção nesse movimento. Mas sim, as supostas cifras envolvidas no processo.

No mercado, o que se comenta é que a Havan estaria buscando captar R$ 10 bilhões com a oferta, que será primária e secundária. Caso esse montante for confirmado, a companhia seria avaliada em cerca de R$ 100 bilhões, um patamar bem superior ao de boa parte das varejistas listadas na B3.

A rede de Hang estaria abaixo apenas do Magazine Luiza, cujo valor de mercado no fechamento da quinta-feira era de R$ 153 bilhões, segundo a consultoria Economatica. E muito à frente da B2W, a próxima da lista, avaliada em R$ 60,8 bilhões.

Na sequência, levando-se em conta o pregão de hoje, a relação traria as seguintes varejistas, com seus respectivos valores de mercado: Lojas Americanas, R$ 58,3 bilhões; Carrefour, R$ 39,2 bilhões; Raia Drogasil, R$ 35,5 bilhões; Renner, R$ 34,6 bilhões; Via Varejo, R$ 32,2 bilhões; e Grupo Pão de Açúcar, R$ 17,5 bilhões.

“Se essa cifra da Havan for confirmada, será um prêmio excessivo”, afirma Shin Lai, analista da Upside Investor. “Mesmo se a empresa conseguir dobrar o seu lucro em 2021, ainda assim o preço/lucro futuro ficaria em 111.”

Por entender que a Lojas Americanas é a varejista com um sortimento mais próximo do que é ofertado pela Havan, Lai usa a empresa, com um preço/lucro futuro na casa de 70, na mesma base de comparação, para reforçar essa visão.

“A Lojas Americanas já tem embutida a estratégia do 3G Capital para justificar seu valor de mercado de quase R$ 58 bilhões”, afirma. “E a Havan chegaria ao mercado valendo o dobro, com uma execução que nem todos conhecem. Será que a empresa tem toda essa capacidade de gestão?”, questiona.

Em 2019, a Lojas Americanas registrou um lucro líquido de R$ 704,1 milhões, alta de 85% sobre o ano anterior. Já a receita líquida da companhia cresceu 5,5%, para R$ 18,6 bilhões.

A Havan, por sua vez, apurou um lucro líquido de R$ 428,4 milhões, contra R$ 549 milhões, um ano antes. E reportou um faturamento de R$ 10,5 bilhões, 46% superior a 2018.

Em 2019, a Havan  reportou um faturamento de R$ 10,5 bilhões, 46% superior a 2018. As vendas digitais representaram apenas 1,1% desse montante

Aqui, porém, outro número merece destaque. A participação do digital nesse bolo foi de apenas 1,1%. Já no primeiro semestre deste ano, a fatia foi ainda mais incipiente, de 0,3% do faturamento de R$ 4,2 bilhões.

O dado chama ainda mais atenção porque, em tempos de pandemia, o online foi a válvula de escape do setor. No mesmo período, por exemplo, esse número, no Magazine Luiza, foi de 66,6%.

“Hoje, os múltiplos altos no setor são prêmios para quem está se descolando do modelo de varejo e se tornando plataforma ou ecossistema”, afirma Alberto Serrentino, sócio da consultoria Varese Retail.

Ele destaca outros fatores valorizados, como ter uma tecnologia proprietária robusta, um marketplace de escala rodando e plataformas de serviços, logística e de produtos financeiros em operação.

“Nesse sentido, no caso da Havan, não sei qual é a justificativa para defender esse múltiplo”, afirma Serrentino. “E não apenas o valuation é alto, mas também o tamanho da oferta, de R$ 10 bilhões.”

Planos

Em seu prospecto preliminar, no qual se apresenta como “a única empresa do mercado brasileiro que apresenta um modelo de varejo disruptivo”, a Havan destaca suas estratégias recentes e também os planos de crescimento e de destinação dos recursos com o IPO.

Entre 2017 e 2019, por exemplo, a companhia ampliou em 32% sua rede de pontos de venda, para 147 unidades. A empresa investe no formato de megalojas, que têm, em média, 4,7 mil metros quadrados de área de vendas e que funcionam de domingo a domingo.

A empresa investe no formato de megalojas, que têm, em média, 4,7 mil metros quadrados de área de vendas e que funcionam de domingo a domingo

A ampliação e a expansão das lojas são justamente duas das frentes que serão impulsionadas com o montante captado no IPO, juntamente com questões como o reforço no capital de giro.

“Eles têm um modelo interessante de loja física, com uma localização à margem de rodovias, que foge do confronto com as grandes”, diz Serrentino. “Mas, ao mesmo tempo, são equipamentos muitos caros em termos de implantação.”

Os investimentos em tecnologia e em transformação digital são outras destinações da cifra levantada com a abertura de capital. De acordo com o prospecto, as iniciativas nessa direção estão sendo tocadas pelo Havan Labs, time formado por 163 profissionais.

A partir dessa equipe, em março, a Havan anunciou um roteiro de projetos a serem lançados nessa área. Entre eles, um novo aplicativo, neste mês, e o início da operação de seu marketplace, em dezembro. Outro componente previsto para o ano é a criação do Havan Bank, um marketplace de produtos financeiros.

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