Enjoei compra a Gringa para expandir suas fronteiras no mercado de luxo

Em sua 1ª aquisição pós-IPO, o brechó online incorpora a plataforma de artigos seminovos de luxo fundada pela atriz Fiorella Mattheis, em mais uma iniciativa para reverter a má fase no mercado de capitais

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A atriz e fundadora da Gringa, Fiorella Mattheis, que seguirá na operação

Parte da onda recente de IPOs que ampliou a exposição dos ativos de tecnologia na B3, a Enjoei tem chamado a atenção em uma outra vitrine: a lista das empresas do setor que estão lidando com perdas substanciais de valor de mercado na bolsa de valores brasileira.

Em um novo passo para reverter esse cenário, o brechó online está indo às compras. Na manhã desta sexta-feira, a empresa anuncia a aquisição da Gringa, e-commerce de produtos de luxo seminovos, criado em 2020 pela atriz Fiorella Mattheis, sob a ótica da economia circular.

Primeiro acordo da Enjoei após o seu IPO, em novembro de 2020, o negócio foi fechado por R$ 14,25 milhões, divididos em duas parcelas, e envolve uma fatia de 95% da startup. Uma parcela adicional será paga futuramente para a compra do restante da participação, com base em métricas de desempenho.

Sob o comando de Fiorella, que seguirá à frente da operação, a Gringa se consolidou como uma das principais empresas na venda de itens de luxo na internet. De sapatos a bolsas, o mix disponível na plataforma traz marcas como Chanel, Prada, Louis Vuitton e Gucci.

A proximidade com esse modelo de negócios foi o que chamou a atenção do casal Ana Luiza McLaren e Tiê Lima, fundador da Enjoei, empresa que vende desde roupas – de luxo ou não – até itens eletrônicos, acessórios para casa e eletrodomésticos de segunda mão.

“É uma empresa que tem características que a gente vê como muito similares ao que a Enjoei tem em seu princípio”, diz Lima, cofundador e CEO da Enjoei, ao NeoFeed. “Queremos que a Gringa seja a Enjoei do luxo.”

Com a aquisição, o plano é manter as duas marcas e, ao mesmo tempo, aproveitar as sinergias entre as suas operações. Na prática, a Enjoei poderá endereçar produtos de luxo listados em sua plataforma para serem comercializados no canal da Gringa, onde 72% dos itens são vendidos em até três meses.

Ana Luiza McLaren e Tiê Lima, o casal de fundadores da Enjoei

O investimento na startup foi apoiado por dados que mostram o potencial desse segmento. Segundo Lima, 51% dos consumidores de itens de luxo usados fizeram sua primeira compra nos últimos dois anos.

A partir das pesquisas realizadas para o acordo, a Enjoei estima que o mercado de luxo fature R$ 10,9 bilhões no País em 2022, sendo R$ 3 bilhões com itens usados. Esses números são reforçados por dados do Boston Consulting Group, que prevê um salto entre 41% e 50% do setor no período.

Embora não revele números consolidados da Gringa, Lima diz que a empresa registrou um crescimento de 260% em GMV neste ano e projeta quadruplicar sua receita em 2022.
“O mercado de luxo tem uma série de peculiaridades. Você precisa ter uma camada de execução primorosa”, diz Lima. “E a Gringa tem uma execução muito bem feita, além de muita tração, uma marca com propósito e uma embaixadora com legitimidade.”

A nova tacada é mais uma tentativa da Enjoei para diversificar sua operação. A companhia, que nasceu com uma plataforma que permitia transacionar itens de vestuário de segunda mão, expandiu sua operação para abraçar mais categorias.

Nessa direção, recentemente, a empresa incorporou mais de 60 lojas oficiais dentro da sua plataforma, como parte da estratégia para consolidar uma frente de ofertas B2B2C. Entre as empresas parceiras estão nomes como Disney, Puket e Imaginarium. A previsão é de que essa linha de negócios, chamada de “reais oficiais”, represente 15% das vendas totais.

Com esses movimentos, a Enjoei também busca reverter a tendência de queda em sua base de compradores. No terceiro trimestre deste ano, o recuo foi de 9% sobre igual período de 2020, para 166 mil consumidores.

A receita líquida da operação, por sua vez, cresceu 16%, para R$ 25,9 milhões e o GMV registrou um salto de 46% no período, para R$ 199,1 milhões.

Em relatório, a XP destacou os resultados fracos da empresa. Os analistas Danniela Eiger, Thiago Suedt e Gustavo Senday ressaltaram, porém, a evolução da estratégia B2B2C. E mantiveram a recomendação neutra para o papel, com preço-alvo de R$ 7 para a ação no fim de 2022.

O fato é que os números do trimestre não foram capazes de conter a queda nos indicadores da empresa. No ano, as ações da Enjoei, cotadas a R$ 3,07, acumulam uma desvalorização de 75,9%. Hoje, a companhia está avaliada em R$ 607 milhões, contra o valuation de R$ 2 bilhões na época do seu IPO.

“A Enjoei criou uma expectativa muito grande e foi precificada num valor muito alto para o seu estágio de maturidade e nível de receita”, diz Alberto Serrentino, sócio da consultoria Varese. Ele enxerga, em contrapartida, boas perspectivas na aposta da empresa no mercado de luxo.

“O mercado de segunda mão vem crescendo de maneira expressiva no mundo inteiro por ter uma aderência forte junto às novas gerações e pelo crescimento do consumo consciente”, afirma. “Ao mesmo tempo, o segmento de luxo também vem deixando de ser um mercado no qual havia muito preconceito contra esse modelo.”

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