Tech é pop, tech é sexy, tech… está caindo! Acabou a paciência dos investidores?

Empresas de tecnologia perderam R$ 23,2 bilhões em valor de mercado desde a máxima histórica de seus papéis na B3 em 2021. A questão é: se companhias como Enjoei, Mosaico, Méliuz, Mobly, entre outras, prometeram crescimento (e a maioria está entregando), por que os papéis estão sendo castigados?

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Desde novembro do ano passado, uma série de empresas de tecnologia, com características de alto crescimento, abriram o capital na B3. A lista inclui nomes como Méliuz, Enjoei, Neogrid, Intelbras, Mosaico, Mobly, Bemobi, Westwing, Infracommerce, GetNinjas, Dotz, WDC, Unique, Brisanet e Clearsale.

A maioria dessas empresas conseguiu fazer IPOs bem-sucedidos e celebrou altas expressivas em suas cotações em seus primeiros meses como companhias públicas. A Mosaico, por exemplo, observou suas ações subirem 97% no primeiro dia de negociação, em fevereiro deste ano. A Méliuz, que abriu a fila das aberturas de capital no ano passado, viu seus papéis valorizarem-se mais de 600% em seu melhor momento.

Agora, a lua de mel dos investidores com essa clase de ativos parece que está chegando ao fim, em meio a uma queda generalizada do preço de diversos papéis de todos os setores na B3 por conta do aumento das taxas de juros de longo prazo e da alta de inflação.

Um levantamento realizado pela Economatica com 11 empresas, feito com exclusividade ao NeoFeed, mostrou que elas perderam R$ 23,2 bilhões em valor de mercado desde a máxima histórica de seus papéis na B3 em 2021. A análise incluiu Locaweb, Méliuz, Enjoei, Neogrid, Mosaico, Mobly, Bemobi, Westwing, Infracommerce, GetNinjas e WDC e levou em conta suas cotações em 16 de agosto.

A Enjoei, que atualmente vale R$ 1,1 bilhão, perdeu 72,2% de seu valor desde sua máxima histórica em fevereiro. As ações da Mosaico, avaliada em R$ 1,4 bilhão, caíram 74,3%. A Mobly, cuja capitalização é de R$ 1,2 bilhão, desvalorizou-se 54,6%.

Até mesmo o Méliuz, uma das queridinhas dos investidores e avaliado em R$ 6,4 bilhões, está cotado abaixo de seu follow on em 15,8% (em relação ao IPO, o papel sobe ainda 380%). A Locaweb, que fez uma oferta subsequente de ações em fevereiro e captou R$ 2,7 bilhões, desvalorizou-se 32,1% – atualmente a companhia vale R$ 14 bilhões.

Mais: dos 17 IPOs e follow ons que aconteceram desde novembro do ano passado, 12 empresas estão com as ações sendo negociadas abaixo do preço inicial da abertura de capital. Apenas Clearsale, Infracommerce, Intelbras, Neogrid e Méliuz estão acima da faixa de preço do IPO.

Diante desse cenário, cabe a pergunta: será que acabou a paciência dos investidores com as empresas tech? “Há três semanas, o Méliuz era a ação favorita da bolsa e hoje é ruim. O investidor de bolsa brasileiro é bem ‘curto prazista’”, afirma um gestor, que participou de alguns desses IPOs. “A brincadeira que eu faço sempre é que se a Amazon tivesse aberto o capital no Brasil não teria investidor para comprar a ação.”

O NeoFeed conversou com gestores e empresas para entender o que está por trás dessas quedas e se os investidores estão preparados para os altos e baixos dessas empresas inovadoras. Em geral, acredita-se que a maioria tem “estômago” para aguentar prejuízos por um longo período. Eles entendem também que, para investir em empresas de tecnologia, precisam ter a resistência de um maratonista.

“O resultado vai vir só na frente. É preciso carregar o papel por muito tempo”, diz Bruno Rosolini, analista do setor de tecnologia da Genial. “No curto prazo, avalia-se o crescimento da base de clientes, o engajamento e as inovações, que são os novos produtos e serviços que as empresas estão colocando no mercado.”

Mas, depois da fase inicial de euforia, os investidores parecem estar mais seletivos, começando a separar o joio do trigo dessa safra de IPOs techs. A análise geral é que os preços foram muito esticados em um primeiro momento e que, agora, vai começar uma seleção natural. As empresas que entregarem o que foi prometido em seus road shows terão mais chances de darem certo.

Quando se olha para as empresas tech brasileiras negociadas na bolsa, uma parte delas tem entregado crescimento expressivo. O Méliuz, por exemplo, quase dobrou sua base de usuários em um ano, passando de 10 milhões para 18,8 milhões no segundo trimestre de 2021. O GMV (as vendas totais) deu também um salto de 128%, totalizando R$ 1,1 bilhão.

Mas a companhia apresentou um prejuízo de R$ 6,1 milhões e o Ebitda, uma medida da geração de caixa das empresas, foi R$ 2,3 milhões negativos nos seis primeiros meses deste ano. “Ficamos tranquilos porque sabemos que os fundamentos mudaram para melhor”, diz Israel Salmen, CEO e cofundador do Méliuz ao NeoFeed. “Nunca prometemos lucro de curto prazo. Queremos aumentar o tamanho da nossa base para depois colher lucros.”

A Enjoei cresceu também seu GMV em 82%, para R$ 205 milhões e o número de novos vendedores avançou 124%, para 215 mil. Mas, por outro lado, mostrou piora em suas margens, apresentou custos mais altos para adquirir clientes, teve uma queda na comissão cobrada dos vendedores e cresceu as preocupações dos investidores com produtos falsificados vendidos em seu marketplace.

“Os investidores não podem olhar apenas a fotografia trimestre a trimestre, mas sim o filme completo”, afirma Marcos Pinheiro, CFO do Enjoei, ao NeoFeed. “Estamos entregando o que prometemos no road show.”

Não crescer, no entanto, é quase que um pecado mortal. E algumas empresas estão patinando justamente neste quesito. É o caso da Mosaico, dona dos sites de comparação de preços Buscapé, Zoom e Bondfaro, que observou seu GMV cair 17,2% para R$ 902 milhões e viu o número de visitas aos seus sites despencar 51,3% no segundo trimestre de 2021 em comparação ao mesmo período do ano passado.

“Essa é uma fase de ajustes e de acomodação, mas estamos executando o plano e a nossa tese de investimentos”, afirma ao NeoFeed Guilherme Pacheco, presidente do conselho de administração da Mosaico.

No segundo semestre, a Mosaico deve acelerar uma série de iniciativas. A principal delas é o cashback, que vai ganhar escala e deve chegar a 80% de cobertura do GMV da companhia. Um cartão de crédito, em parceria com o BTG Pactual, será também lançado. Além de incluir cashback, ele terá a garantia de que o consumidor pagará o menor preço na compra de um produto ou serviço. A política de M&As deve também sair do papel – até agora, a Mosaico fez apenas uma aquisição, a Vigia de Preços, o que frustrou muitos investidores.

Victor Noda, CEO e fundador da Mobly

A Mobly também não conseguiu alavancar o GMV de seu e-commerce de móveis, que movimentou R$ 247,4milhões e repetiu o desempenho do segundo trimestre do ano passado. O Ebtida ajustado foi também negativo em R$ 6 milhões. “O mercado de móveis caiu bastante e conseguimos manter o faturamento”, diz Victor Noda, CEO e fundador da Mobly, ao NeoFeed.

A ideia é voltar a crescer a taxas mais altas no segundo semestre, quando quatro lojas físicas serão inauguradas. Atualmente, a Mobly conta com três megastores, quatro outlets e 4 Mobly Zip, seu modelo de franquias. A companhia vai também migrar para uma novo centro de distribuição (CD), que vai reduzir prazos de entrega e o custo logístico, além de lançar um CD em Pernambuco, no Nordeste. “No quarto trimestre, vamos vir com Ebitda positivo”, afirma Noda.

A volta dos juros altos

O mau humor dos investidores não pode ser explicado apenas pelos resultados das empresas. Existem questões pontuais que podem afetar o desempenho de muitas empresas de tecnologia.

Uma delas é a base de comparação – o segundo trimestre de 2020 – que foi um momento em que a economia brasileira estava fechada e as vendas online explodiram. Agora, apesar de algumas restrições, muitas lojas físicas estavam abertas e o vento de popa do comércio eletrônico, embora ainda esteja soprando, desacelerou.

As questões macroeconômicas também influenciam. Tanto que não são apenas as empresas de tecnologia que enfrentam um momento adverso. Muitas companhias estão sofrendo quedas expressivas na B3 por conta de um cenário de aumento de juros de longo prazo, alta de inflação e de turbulência política à vista.

“Nas últimas quatro semanas, a aversão ao risco cresceu no mundo todo”, diz Bruno D’Avila, analista da gestora Mauá Capital. “Com o custo de capital aumentando, os investidores correm para as empresas mais tradicionais e as companhias de tecnologia são mais impactadas, pois muito de seu valor está no futuro.’

O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, caiu quase 10% desde o seu melhor momento, no início de junho. Mas os ativos tech estão experimentando quedas mais expressivas. Há questões técnicas que explicam essa desvalorização: por terem ainda baixa liquidez, as ações dessas sofrem oscilações mais fortes, tanto para cima, como para baixo.

Apesar do amadurecimento dos investidores no mercado brasileiro, ser uma empresa tech listada no Brasil traz ainda muitos desafios. É por isso que quando se olha a lista dos próximos IPOs dos unicórnios brasileiros, a maioria tem a intenção de abrir o capital nos Estados Unidos.

“Se você perguntar para os empreendedores onde eles querem fazer o IPO, é lá fora”, diz uma fonte do mercado de venture capital. “Lá, os investidores entendem com mais facilidade a tese dessas empresas de crescimento exponencial.” Nubank, CI&T, Hotmart, Elo, Conductor e Ebanx são algumas das empresas que estão se preparando para abrir o capital nos Estados Unidos.

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