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Enquanto Donald Trump e Xi Jinping brigam, a Beyond Meat quer alimentar os dois

Depois de conquistar o mercado americano, a fabricante de hambúrgueres a base de planta vai abrir fábricas no país mais populoso do mundo. A estratégia acontece em meio a maior guerra comercial e tensões entre os EUA e a China

 

Beyond Meat vai inaugurar duas fábricas próximo de Xangai

Juntando a fome com a vontade de comer, a Beyond Meat anunciou que vai inaugurar não uma, mas duas fábricas na China. E a notícia abriu o apetite dos investidores: as ações da companhia subiram 4,87% nesta quinta-feira, 10 de setembro. Com isso, a companhia alimenta um valor de mercado de US$ 8,9 bilhões.

As instalações da empresa estão sendo desenvolvidas próximas de Xangai e a expectativa é que a produção aconteça em sua capacidade máxima já em 2021. Mais do que apenas “replicar” receitas bem-sucedidas em outros mercados, como seus clássicos hambúrgueres veganos, a Beyond Meat pretende adaptar suas receitas para o paladar local.

“Estamos trabalhando duro para garantir que não estamos apenas exportando o sabor americano”, disse Ethan Brown, CEO da empresa, em entrevista ao portal da CNBCO esforço é para fomentar uma indústria que movimenta, só na China, US$ 910 milhões, com 14% de crescimento anual, segundo levantamento do site CNET

A China é um dos mercados mais maduros para a “imitação de carne” – ou os chamados “fanghun cai”, como eram conhecidos os pratos preparados já na Dinastia Song, no século X, sob a influência budista. 

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a produção global de carne hoje é quase cinco vezes maior do que na década de 1960, passando de 70 milhões de toneladas para mais de 330 milhões de toneladas.

A China sozinha consome mais de um quarto da carne mundial e, embora o chinês médio na década de 1960 consumisse menos de cinco quilos de carne por ano, esse número cresceu para mais de 60 quilos. Isso explica o sucesso de marcas locais de proteína vegana, como a Zhenmeat, Starfield e Whole Perfect Food, e o interesse das estrangeiras. 

Além da Beyond Meat, a Impossible Foods também vê na China terreno fértil para a expansão. “É absolutamente verdade que a China é um grande foco no momento e gostaríamos de entrar nesse mercado o mais rápido possível”, disse Nick Halla, vice-presidente sênior internacional da Impossible Foods, ao portal Reach Further“Chegar à China é fundamental para cumprir a missão da Impossible Foods, que é eliminar a necessidade de animais no sistema de produção de alimentos.” 

Na condição de empresa privada, a Impossible Foods não compartilha seus números, mas a Beyond Meat, negociada na Nasdaq, registrou receita de US$ 113,3 milhões no último trimestre, terminado em junho.

O valor é quase o dobro do reportado no mesmo período do ano passado, US$ 67,2 milhões. A operação da companhia, contudo, ainda não é lucrativa: no trimestre, o prejuízo foi de US$ 10,2 milhões, contra US$ 9,4 milhões na mesma época, em 2019.

A China é o país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes, e é de fundamental importância para os mais variados segmentos. A Tesla, por exemplo, deve parte de seus recentes bons resultados à China. Para entregar, pela primeira vez, uma sequência de quatro trimestres lucrativos, Elon Musk contou com a força de sua fábrica em Xangai e com a potência do mercado interno.

Apenas em agosto deste ano, a Tesla vendeu quase 12 mil sedãs Model 3. E isso é só o começo. Quando inaugurou sua fábrica, em janeiro do ano passado, Musk afirmou que a demanda a longo prazo para o Model 3 seria de 5 mil unidades por semana. Suas instalações na China têm capacidade para produzir 150 mil carros por ano, ou 40% de toda as entregas globais atuais. 

Mas todos esses números são colocados em xeque diante do “estremecimento” das relações entre China e Estados Unidos, tanto do ponto de vista político, como do ponto de vista econômico. Desde 2018, Donald Trump vem impondo uma sucessão de novas tarifas a bens chineses, alegando que o país pratica uma política cambial que limita a competição americana, prejudicando o país ocidental. A China respondeu com a mesma moeda e também elevou as tributações de bens americanos.

Em julho deste ano, foi a vez da Casa Branca aumentar as tensões ao impor o fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas. Na mesma época, o governo de Trump ganhou as manchetes internacionais ao exigir que o aplicativo TikTok vendesse sua operação americana a uma empresa local. Microsoft e Walmart apresentaram juntas uma proposta, enquanto Oracle, a favorita do presidente republicano, e o Twitter também mostraram interesse.

Washington, que ameaça banir o app do país caso sua exigência não seja aceita, diz que a ação visa a segurança nacional. De acordo com os americanos, o app estaria compartilhando com Pequim dados sensíveis dos usuários, num caso de espionagem internacional. É também sob essa acusação que os Estados Unidos justificam o banimento do 5G da chinesa Huawei, que desde maio não tem acesso ao país.

Os americanos ainda pressionam seus aliados a adotarem postura semelhante: o Reino Unido, por exemplo, cedeu à pressão e cancelou seu contrato com a gigante chinesa. Romênia, Polônia, República Tcheca, Latívia e Estônia também assinaram termos se comprometendo a barrar a Huawei. A França estaria inclinada a banir a empresa chinesa a partir de 2028, quando vencem as licenças atuais.

A China, por sua vez, ataca os americanos com sua rígida política de censura. Companhias como Facebook, Twitter, Google e YouTube não podem atuar no país, e jornalistas de grandes veículos, como The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal foram expulsos do país.

Apesar da troca de farpas e taxas entre as duas maiores potências mundiais, uma pesquisa conduzida pela Câmara de Comércio Americana em Xangai mostrou que 92% das empresas americanas na China pretendem manter suas atividades no país, mesmo se a relação entre os governos de Xi Jinping e Donald Trump fosse cortada.

A justificativa para a “insistência” tem a ver com o desejo de explorar a crescente classe média local. Ainda de acordo com o levantamento da Câmara de Comércio, 32% das cerca de duas mil companhias ouvidas disseram que a China respondia por uma parte significativa de sua receita global, número 9,4% maior que o do ano passado. 

“As empresas americanas ainda vêem o mercado consumidor da China como uma grande oportunidade”, disse Ker Gibbs, presidente da Câmara Americana de Comércio em Xangai, em comunicado. “As empresas americanas na China gostariam de ver os dois países resolverem seus problemas pendentes rapidamente e reduzir as tensões.”

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