Filme que faz história no Oscar 2022 retrata o drama dos refugiados

Com três indicações ao Oscar, “Flee – Nenhum Lugar para Chamar de Lar” revisita os traumas de afegão que conseguiu fugir para a Dinamarca nos anos 1990, o que remete ao cenário atual, com a invasão russa na Ucrânia

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A animação “Flee” tem estrutura que respeita o formato jornalístico, com o personagem Nawabi contando o que passou

Enquanto a crise dos refugiados da Ucrânia já atinge mais de 3,5 milhões de pessoas, uma produção dinamarquesa, que faz história no Oscar, oferece uma perspectiva mais intimista do que significa fugir de um país em guerra.

“Flee – Nenhum Lugar para Chamar de Lar” resgata a jornada de um adolescente que escapou do Afeganistão e desembarcou sozinho na Dinamarca nos anos 1990. A produção marca a primeira vez que um concorrente ao Oscar disputa simultaneamente como melhor documentário, melhor longa de animação e melhor filme internacional (representando a Dinamarca) na cerimônia deste domingo, 27 de março.

São os sentimentos e as impressões, construídas em primeira pessoa, de quem encarou o horror e sofre os traumas de um refugiado. O filme que ecoa com o cenário atual, com a invasão russa na Ucrânia, chega aos cinemas brasileiros pela Diamond Films no dia 21 de abril.

“Inicialmente, não pensei em contar a história de um refugiado. E sim de um amigo”, conta o dinamarquês Jonas Poher Rasmussen. O cineasta revisita aqui a trajetória de Amin Nawabi (pseudônimo), que ele conheceu no trem, a caminho da escola, em Kalundborg, quando era adolescente.

“Hoje percebo que o filme é sobre uma pessoa que nunca se sentiu em casa. Primeiro por ser gay e ter crescido no Afeganistão (onde relações com o mesmo sexo é proibida). E depois, já na Dinamarca, por não conseguir superar o seu passado”, afirma Rasmussen.

Ele contou como nasceu “Flee” (Fuga, na tradução) em painel realizado durante o TIFF, o Festival de Cinema de Toronto, que teve cobertura online do NeoFeed. Já são mais de 80 troféus para o título que teve première mundial no ano passado no Festival de Sundance, onde ganhou o Grande Prêmio do Júri da mostra de Cinema Mundial em documentário.

Assim que conheceu Nawabi, Rasmussen quis saber como o garoto tinha conseguido sair sozinho do Afeganistão e chegado à Dinamarca. “Mas ele nunca quis conversar sobre isso. Ainda estava traumatizado por tudo o que tinha acontecido e também não queria mais contar a história inventada”, diz o diretor.

Quando Nawabi foi para a Dinamarca, aos 16 anos, os traficantes de pessoas pagos por sua família para ajudá-lo na fuga o instruíram a dizer às autoridades locais que todos os seus parentes tinham sido massacrados. Embora não fosse verdade, seria o jeito mais seguro de Nawabi ser aceito como refugiado no novo país.

Rasmussen tentou extrair a verdade do amigo novamente há 15 anos, ao propor uma entrevista de rádio sobre a sua vida. Nawabi recusou mais uma vez, dizendo que ainda não se sentia pronto. Até porque ele não queria revelar seus segredos publicamente, passando a ser reconhecido por tudo o que viveu.

Isso explica Nawabi ter aceitado a última proposta do amigo, há oito anos, quando Rasmussen foi chamado para participar de um workshop na Dinamarca para desenvolver projetos unindo documentário e animação. Foi perfeito, já que Nawabi poderia se manter anônimo, sem precisar revelar a sua identidade e muito menos mostrar o seu rosto.

“E, ao mesmo tempo, a animação não nos impede de mergulharmos na intimidade de alguém, trazendo mais nuances à história dos refugiados”, conta Rasmussen, que entrevistou Nawabi durante quase quatro anos. “Percebemos que eles têm tanta complexidade quanto nós. Ser refugiado é apenas uma circunstância na vida”, completa o diretor.

A partir das entrevistas, em que Nawabi fechava os olhos e puxava as memórias, como em uma sessão de terapia, foi criada a animação de “Flee”. A estrutura respeita o formato jornalístico, com Nawabi contando o que passou.

Muitas das situações que viveu são reproduzidas em animação, conforme os detalhes que ele forneceu. Há também algumas imagens de arquivo, que são costuradas na narrativa para dar mais autenticidade e respaldo histórico e político.

A família de Nawabi começou a se desestruturar quando o pai desapareceu durante a invasão soviética no Afeganistão, que durou de 1979 a 1989. Mais tarde, quando o poder passou para as mãos dos mujahidins, os guerrilheiros inspirados no fundamentalismo islâmico, a família conseguiu viajar para a Rússia, com visto de turista.

Mas o novo país se demonstrou bastante hostil, com a família vivendo praticamente trancada em casa, com medo da polícia russa corrupta, que exigia dinheiro para deixar os afegãos em paz.

Com a ajuda de outra ala da família, que vivia na Suécia, traficantes de pessoas foram contratados para tirá-los da Rússia. Depois de algumas tentativas fracassadas de viajarem todos juntos à Suécia, Nawabi foi separado da família e foi parar na Dinamarca, onde ninguém o esperava.

Muito detalhes assustadores da jornada de Nawabi são revividos aqui, o que dá uma ideia mais clara do que refugiados ucranianos podem estar enfrentando hoje. Isso inclui uma tentativa frustrada de a família afegã seguir unida para a Suécia, de barco, cruzando o Mar Báltico – antes da fuga solitária de Nawabi.

Depois de alguns dias de viagem, com a família espremida com outros refugiados no porão, o barco cruzou o caminho de um transatlântico norueguês. “As pessoas que estavam conosco queriam pular do barco e nadar até o navio, esperando serem resgatadas. Todos estavam desesperados”, recorda Nawabi, no filme.

O desfecho, no entanto, foi outro, já que o capitão do navio simplesmente chamou a polícia da Estônia para levar todos de volta à Russia. “Eu me senti com muita vergonha da nossa situação”, conta Nawabi, lembrando que os passageiros no convés do transatlântico, turistas em sua maioria, apenas tiravam fotos dos afegãos, enquanto eles imploravam por ajuda.

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