Negócios

Hapvida + Notre Dame Intermédica = mais apetite por consolidação

Fusão das duas empresas de saúde cria gigante com valor de mercado de mais de R$ 110 bilhões. Nos últimos dois anos, ambas compraram mais de 30 companhias. Unidas, acreditam que ainda há potencial para comprar mais

 

Jorge Pinheiro, CEO da Hapvida

Resultado de um namoro antigo, que começou a ganhar ares de relacionamento sério, de fato, em janeiro deste ano, a fusão entre a Hapvida e o Grupo Notre Dame Intermédica foi recebida por boa parte do mercado como um “casamento perfeito”.

Anunciado no domingo, 28 de fevereiro, o acordo ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Mas, uma vez autorizada a transação, é certo que um dos frutos dessa união será o reforço das aquisições.

O apetite por essa frente já vem sendo demonstrado pelas duas empresas em suas respectivas trajetórias recentes. Juntas, Hapvida e Notre Dame já concretizaram mais de 30 aquisições nos últimos cinco anos.

“Ainda vemos muitas operadoras de pequeno porte, que vão ter dificuldades, sejam regulatórias ou de solvências, e nós podemos suprir isso de forma construtiva”, disse Irlau Machado, CEO da Notre Dame, em conferência com analistas sobre o acordo, nesta segunda-feira 1º de março.

Sobre eventuais novos acordos, o executivo fez questão de frisar. “Essas aquisições não serão predatórias”, afirmou Machado. “E sim, muito mais para gerar qualidade e benefícios de diluição de custos que podem ajudar na oferta de preços mais atrativos e acessíveis para a população.”

Jorge Pinheiro, CEO da Hapvida, destacou a expectativa de que a fusão leve cerca de dois anos para ser concluída. “Mas nós desenhamos uma governança para aproveitar esse cenário de consolidação”, disse Pinheiro. “E depois disso, começaremos a ter ganhos de sinergia com ainda mais intensidade.”

A gestão da companhia resultante da transação será dividida por Pinheiro e Machado, que atuarão como co-CEOs. Já o Conselho de Administração será formado por, no mínimo, nove membros, sendo cinco indicados pela Hapvida, dois pela Notre Dame e outros dois integrantes independentes.

Com base no pregão da última sexta-feira, a operação combinada terá um valor de mercado de R$ 110,3 bilhões. Tomando como referência o resultado de janeiro a setembro de 2020, a receita líquida somada seria de R$ 14,1 bilhões e a nova empresa teria uma carteira de 13,5 milhões de beneficiários. O mercado endereçável, segundo os dados apresentados pela dupla, é de mais de 65 milhões de pessoas.

Irlau Machado, CEO do Grupo Notre Dame Intermédica

Em termos de estrutura, a fusão cria uma companhia com 84 hospitais, 280 clínicas e 257 unidades de diagnóstico, com presença em 18 estados do País. Com a transação, a Hapvida terá uma fatia de 53,6% na nova empresa, enquanto os 46,4% restantes ficará com os acionistas do Notre Dame Intermédica.

Pelos termos do acordo, haverá troca de ações e pagamento em dinheiro, levando-se em consideração o preço médio ponderados por volume das ações das duas empresas nos pregões dos 20 dias anteriores a 21 de dezembro, acrescidos de um prêmio de 15% sobre a cotação dos papéis da Notre Dame.

A negociação também passa pela autorização para que a Notre Dame distribua até R$ 4 bilhões em dinheiro, por meio de dividendos extraordinários, aos seus acionistas. O saldo restante será pago na forma de ações da Hapvida.

“Gigante em todos os sentidos”

A resposta do mercado ao anúncio foi positiva no pregão da B3 nesta segunda-feira. As ações da Hapvida e da Notre Dame fecharam o dia com altas de 5,55% e 4,01%, respectivamente. Muitos analistas também ressaltaram o potencial da transação.

Em relatório, o BTG Pactual apontou questões como a “boa governança corporativa”, a partir do modelo de co-CEOs e da formação do Conselho de Administração, e o fato de que o acordo resultará em uma “gigante em todos os sentidos”, com boa perspectiva de aprovação das autoridades.

“A magia deste negócio é que ele combina grandes sinergias com grande complementaridade. A sobreposição é muito pequena e existe em apenas dois estados, Minas Gerais e São Paulo”, escreveram os analistas Samuel Alves e Yan Cesquim.

Enquanto a Hapvida tem maior capilaridade no Nordeste, Norte, Centro-Oeste e interior paulista, a NotreDame concentra sua presença em estados como Rio de Janeiro, Paraná e na região metropolitana de São Paulo.

Já a XP observou que, juntas, Hapvida e Notre Dame criam uma rede única, de abrangência nacional, com uma sinergia estimada em R$ 1,1 bilhão e fôlego para dar ainda mais vazão ao apetite por aquisições.

“Existem apenas cinco estados em que os dois ativos combinados têm uma concentração de mercado superior a 30%, o que sugere uma oportunidade de crescimento orgânico relevante e movimentos de aquisição estratégicos”, escreveram os analistas Vitor Pini e Matheus Soares.

Outro ponto ressaltado foi o potencial do modelo praticado pelas duas companhias, diante da penetração ainda baixa dos planos de saúde privados e das perspectivas de crescimento desse segmento no País.

“Com um modelo verticalizado eficiente, no qual boa parte dos beneficiários usa uma rede própria de atendimento, Hapvida e Notre Dame têm conseguido oferecer planos com tíquete médio inferior ao dos seus pares, além de apresentar sinistralidade menor. Esses fatores combinados permitem que elas cresçam com alta rentabilidade”, acrescentou a dupla de analistas da XP.

Leia também

UM CONTEÚDO:

BRAND STORIES

VÍDEOS

Assista aos programas CAFÉ COM INVESTIDOR e CONEXÃO CEO