Maluhy quer fazer do Itaú um banco mais leve e ágil. E está apostando alto em tecnologia

Quatro meses depois de assumir o comando do maior banco do País, Milton Maluhy Filho lidera uma série de mudanças na operação sob os mantras da tecnologia, da velocidade, da obsessão pelo cliente e da transformação cultural

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No último dia 2 de fevereiro, em conferência com jornalistas, Milton Maluhy Filho falou pela primeira vez, oficialmente, como CEO do Itaú Unibanco. Na ocasião, acompanhado de seu antecessor, Candido Bracher, ele sinalizou as premissas que guiariam sua gestão à frente do maior banco do País.

Na manhã desta quarta-feira, 2 de junho, passados exatos quatro meses, o executivo voltou a ficar sob os holofotes. E, já com um pouco mais de bagagem, deu mais detalhes sobre suas prioridades e desafios na nova posição.

“Nós precisamos fazer uma verdadeira e profunda transformação na nossa organização”, disse Maluhy Filho, durante o Itaú Day, evento online que foi acompanhado por mais de 20 mil pessoas. “A boa notícia é que essa transformação já começou. Agora, precisamos dar intensidade e velocidade.”

Longe de um mero discurso, o CEO do Itaú Unibanco deu exemplos de como esse processo está se dando na prática. Logo na largada de sua gestão, o executivo reduziu um nível da estrutura no alto escalão, eliminando cargos como vice-presidentes e diretores executivos.

“Hoje, temos um comitê executivo, com mais autonomia e muito mais próximo de todas as equipes”, observou, sobre o time formado por 12 executivos. “E com muito mais capacidade e velocidade de tomada de decisão.”

Além de transformação e velocidade, outros mantras guiaram as palavras de Maluhy Filho no evento. Entre eles, termos como cultura, centralidade e obsessão pelo cliente e, em especial, tecnologia, um componente que, hoje, segundo o executivo, permeia todas as áreas, times e negócios do banco.

Nessa frente, em particular, ele também destacou algumas medidas, como a contratação de mais de 4 mil profissionais para a área nos últimos 12 meses. Assim como a previsão de migrar 50% da infraestrutura do banco para a nuvem até o fim de 2022.

Esse é um passo essencial. Os bancos sempre investiram bilhões de reais em tecnologia. Mas os gastos eram em sistemas antigos e legados, que estão ultrapassados e dificultam a competição com novos entrantes, mais leves e ágeis.

“Precisamos construir um banco mais eficiente, mais simples, horizontal, menos hierárquico e muito mais ágil”, afirmou Maluhy Filho. “E isso pressupõe trabalhar cada vez mais para o cliente, escutá-lo, aprender com as críticas, ter humildade e, ao mesmo tempo, não ter medo de errar.”

Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco

O executivo também não esquivou de falar sobre o cenário que está por trás desses e de outros movimentos. Ele destacou, por exemplo, a evolução na regulação do setor, com a chegada de novidades como o PIX, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, e o Open Banking.

Outro tema diretamente ligado a essa urgência demonstrada pelo banco, o avanço das fintechs também foi abordado por Maluhy Filho. “Eu sempre olho a concorrência, seja das fintechs ou de players tradicionais por um prisma positivo”, disse. “À medida que essas empresas entregam uma experiência diferenciada, aumenta o nível de exigência do consumidor. E esse tem que ser o nosso foco.”

Na disputa com as startups financeiras, ele entende, porém, que o Itaú Unibanco leva algumas vantagens. A principal delas, a capilaridade da rede de agências do banco, que abre espaço para atender os clientes onde, quando e como eles quiserem, dentro de uma abordagem multicanal.

Em contrapartida, embora tenha classificado como positiva a agenda pró-competição que vem sendo encampada pelo Banco Central no setor, ele fez ressalvas às diferenças de tratamento dado aos grandes bancos e às fintechs.

“Alguns desses players estão ganhando relevância em determinados segmentos e já não são mais entrantes. Eles têm um porte que já não justifica assimetrias pelo regulador”, observou. “Não queremos nenhuma vantagem nem desvantagem. E sim, o mesmo nível de regulação para todos.”

O discurso se mostrou afinado com as palavras da dupla responsável por arquitetar, há 13 anos, a fusão entre o Itaú e o Unibanco: Pedro Moreira Salles e Roberto Setubal que, hoje, ocupam os cargos de copresidentes do Conselho de Administração do banco.

“Temos perdido participação de mercado e valor de mercado”, afirmou Salles, na abertura do evento. “Mas muito em função desse desequilíbrio nas regras que são aplicadas a nós, incumbentes, e a esses novos entrantes.”

Depois de reforçar essa posição, Setubal disse acreditar em possíveis mudanças nesse cenário no médio prazo. “Ao longo do tempo, esses incentivos vão ser reduzidos ou acabar”, afirmou. “Porque, à medida que essas operações cresçam, elas vão trazer um risco sistêmico e os reguladores terão que atuar.”

Os dois banqueiros ressaltaram ainda que Maluhy Filho é a pessoa certa, no momento certo, para liderar a transformação necessária do Itaú Unibanco, especialmente diante dessa concorrência cada vez mais acirrada no setor.

“De fato, tentar reagir sem estarmos preparados para tal não era a melhor resposta”, disse Salles. “O Milton chegou para capitanear nossa volta ao mercado num tom muito mais agressivo em crescimento do que tivemos nos últimos anos.”

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