Na Getnet, uma cisão que vai multiplicar seu valor e colocá-la no game global

Em entrevista ao NeoFeed, o CEO da Getnet, Pedro Coutinho, fala sobre os planos de desmembrar a empresa do Santander e listar na B3 e na Nasdaq, conta sobre o processo de internacionalização da companhia, analisa o mercado e diz que “a guerra das maquininhas acabou”

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Pedro Coutinho, CEO da Getnet

O cronograma está, praticamente, desenhado. No fim deste mês, uma assembleia selará a cisão. Logo depois, o Banco Central será comunicado e, após a aprovação do BC, o que deve acontecer entre setembro e outubro, as ações serão listadas na brasileira B3 e na americana Nasdaq.

Esse é o caminho desenhado por Pedro Coutinho, CEO da empresa de meios de pagamento Getnet, para a companhia que está sob o guarda-chuva do Santander. A cisão da empresa terá um efeito de destravar valor para os acionistas e dará ainda mais independência para a Getnet.

“A Getnet, lá fora, pode valer mais, assim como os concorrentes estão cotados a um valor ‘xis’ vezes maior que os seus ganhos”, diz Pedro Coutinho, CEO da Getnet, ao NeoFeed. “Estamos no processo de implantação e a criação dessa empresa global que se chama Pagonxt. O branding é Getnet e a holding é a Pagonxt.”

Com R$ 274 bilhões transacionados no Brasil em 2020 e uma participação de mercado de 15%, a Getnet está se consolidando como uma empresa de alcance mundial com atuação na América Latina, Estados Unidos e Europa. No Velho Continente, por exemplo, comprou as operações da falida Wirecard por cerca de 100 milhões de euros.

A comparação com outros players que atuam no Brasil e não têm nem 10% de participação de mercado é inevitável. A Stone, por exemplo, é avaliada em US$ 20,8 bilhões na Nasdaq. A PagSeguro, por sua vez, vale US$ 15,67 bilhões na Nyse.

Uma fonte com a qual o NeoFeed conversou e que conhece os bastidores da cisão diz que a grande discussão hoje são “os méritos da cisão”. Há, também, um temor de que o mercado não precifique isso “de maneira correta”.

Na entrevista que segue, Coutinho, que comanda a companhia há sete anos, fala sobre o desmembramento e a estratégia global da Getnet. Acompanhe:

Como foi 2020 para a Getnet?
O ano de 2020 foi um ano muito duro. Além da pandemia, tem um aprendizado de convivermos com algo que jamais tínhamos visto. Como modelo de negócio, algumas coisas foram positivas para nós. Há quatro anos, tomamos a decisão de construir uma plataforma digital de “one stop shop”.

Como funciona?
Quando você vai para o mundo de e-commerce, se você é uma média ou grande empresa, tem que contratar dez fornecedores para poder operar nesse novo mundo. Você precisa de um gateway, um cofre digital, um periférico para fazer recorrência, um antifraude e etc. Na Getnet, a gente construiu isso com uma plataforma própria. Em vez de um cliente ter de contratar outros fornecedores, ele contrata só a Getnet. Isso tem impacto grande do ponto de vista de eficiência e agilidade. Conseguimos atender um cliente pequeno, montamos uma loja online em dois dias, ou uma grande empresa, que são os maiores varejistas do País. Hoje, entre 25% e 30% das vendas de e-commerce no Brasil passam pela Getnet.

Compensou a receita perdida no mundo físico?
Isso nos ajudou a cobrir esse gap que veio com a pandemia. Vamos pegar bares, restaurantes e postos de combustíveis. Em alguns desses segmentos, temos mais de 20% de market share. E eles foram afetados dramaticamente. Esse crossroad, essa mudança de segmento, nos ajudou a ter um 2020 com crescimento de 32%, ter 15% de market share e, ao mesmo tempo, crescer a nossa base em mais de 100 mil clientes.

“Hoje, entre 25% e 30% das vendas de e-commerce no Brasil passam pela Getnet”

Qual é tamanho da base atualmente?
Temos uma base com 1,9 milhão de dispositivos em todo o Brasil.

E no mundo digital, os que não precisam de maquininha?
Esse número a gente ainda não abre. Mas o que a gente percebe é que o mundo vai na direção do físico e do digital. Essas duas coisas vão se falando. Há três anos, clientes nossos diziam que o digital não era prioridade para eles. Hoje é prioridade para todos. O legal é que hoje estamos ajudando esses clientes a construírem uma plataforma, um modelo de negócio novo. A gente tem cliente que faturava 100 no mundo físico e zero no digital. Hoje, ele fatura 120 no e-commerce.

Muitas adquirentes estão começando a oferecer softwares de gestão para os seus clientes. A compra da Linx pela Stone passa por esse caminho. Como a Getnet está se posicionando diante disso?
Temos uma empresa de tecnologia que compramos há 9 anos chamada Auttar. Ela é uma empresa especializada em conciliação financeira, no mundo de terminais financeiros e demos uma evoluída na Auttar para ela ser uma empresa de omnichannel. Temos, por exemplo, uma relação com a Shell há cinco anos. Desenvolvemos mais de 12 produtos e serviços para os postos dela. Dentro do POS digital tem um software. Por exemplo, a campanha “abasteça e concorra a um prêmio com a V-Power”, antes de instalarmos um software de campanha, eles produziam X e hoje produzem dez vezes mais.

O que é essa produção?
Dez vezes mais pessoas participaram. Por que isso? Porque ajudamos a construir algo que os ajudasse a vender mais. O nosso mindset é como ajudar a vender mais. Veja o caso da Estapar, nossa cliente. Se você descer no aeroporto de Santos Dumont, no Rio de Janeiro, vai ver um toten que construímos com eles, o e-commerce é com a gente, o app é com a gente, agora desenvolvemos um POS digital com software para a Zona Azul de São Paulo. Ou seja, a multicanalidade na Estapar é aplicada e nós ajudamos nesse processo. A gente tem softwares específicos para restaurantes embarcados nas nossas máquinas. O que não temos, comparando com o concorrente que você mencionou, é a automação comercial.

A Getnet não faz essa parte?
A gente faz. Mas não desenvolvemos, esse é um serviço que a Linx, a Totvs e outras softwares houses fazem. O nosso negócio é a conexão dessa automação comercial com toda a jornada do cliente. Em alguns casos, vamos até essas empresas de software e elas embarcam nos nossos produtos e serviços.

Não faz sentido ter uma empresa própria, como a Stone fez com a Linx?
Não. A gente entende que estamos atendendo os nossos clientes, usamos os serviços dessas empresas de software.

A Getnet anunciou que vai se separar do Santander e listar suas ações na B3 e na Nasdaq. Isso é para quando?
Final de março faremos a assembleia para a cisão, no início de abril mandaremos para o Banco Central e o BC deve autorizar, em nosso cálculo, até setembro. Aí, em outubro, passamos a ser cotados na B3 e em outra bolsa nos Estados Unidos.

“O grupo entende que a Getnet tem uma oportunidade global em meios de pagamento”

Por que fazer isso?
O grupo entende que a Getnet tem uma oportunidade global em meios de pagamento. Em cada país em que o grupo está, ele tem uma empresa, uma opera no Chile, outra na Argentina, outra no México. A Getnet acabou construindo um bom portfólio de produtos, se tornou uma empresa que cresce recorrentemente há sete anos e a gente entendeu que poderíamos internacionalizar.

Como isso foi feito?
Fizemos isso no ano passado. Temos 200 pessoas em tecnologia, em Porto Alegre, trabalhando para o global, implantamos no México, na Argentina e no Chile. O banco comprou a Wirecard na Europa. Tem um valor travado aqui dentro. A Getnet, lá fora, pode valer mais, assim como os concorrentes estão cotados a um valor ‘xis’ vezes maior que os seus ganhos. Entendemos que poderíamos tirar valor desse processo e a gente está construindo isso. Estamos no processo de implantação e a criação dessa empresa global que se chama Pagonxt. O branding é Getnet e a holding é a Pagonxt.

Qual é o tamanho dessa operação internacional?
Na realidade, essa operação está sendo construída. Em alguns locais o banco tem fornecedores externos que serão comprados. Te digo que aqui temos 15% de market share, no Chile temos 20%, no México mais de 10%. Em cada país temos uma participação. Assim que tivermos realizado todas as compras, a Pagonext vai divulgar quanto tem no global.

É só América Latina ou estão mirando o mundo inteiro?
É global. Latam, Europa e Estados Unidos. Em dez países, o Santander tem mais de 10% de market share.

“Aqui temos 15% de market share, no Chile temos 20%, no México mais de 10%. Em cada país temos uma participação”

A Getnet é uma empresa de adquirência ou de tecnologia?
Somos uma empresa de tecnologia especializada em meios de pagamento. Somos mais low profile, estamos na mídia menos do que concorrentes, falamos quando as coisas estão operando. Mas somos uma empresa inovadora e de tecnologia.

Quantas pessoas seriam clientes de grupo globalmente?
Não tenho esse dado ainda. Nossa prioridade, nos últimos dois anos, foi separar as equipes, construir uma plataforma completamente nova que passou a funcionar no México e a prioridade agora é integrar outros países. A Argentina, o Chile, a operação da Wirecard na Europa.

Tudo isso está sendo feito a partir de Porto Alegre?
Tem dois grupos de tecnologia. Começamos primeiro em Porto Alegre, com 200 pessoas, que construíram a plataforma do México. Agora, compramos a Wirecard, que fica na Alemanha, e tem mais 500 pessoas envolvidas.

A Getnet já trabalha de modo independente do grupo. Mas, ao abrir o capital, ela terá mais autonomia. Virão novos produtos e serviços?
A Getnet sempre foi independente e teve autonomia para fazer as coisas. A gente aprendeu a trabalhar com o banco e a relação é muito positiva. Mas também trabalhamos com outros bancos, como o Original, o Pine. Temos um chinese wall, temos uma equipe de canal externo e de canal interno, é tudo separado. Agora, a relação não tende a mudar. Eu sei as principais necessidades do Santander e o nosso principal canal de distribuição é e vai continuar a ser o Santander.

Nesse mercado de adquirência, a concorrência é tão grande que foi cunhada a expressão “a guerra das maquininhas”. Como a Getnet se posiciona nessa disputa?
Você não vai encontrar nenhuma matéria onde a gente dizia que estávamos na guerra das maquininhas. O nosso posicionamento sempre foi o de que somos uma empresa de tecnologia, estamos nos mundos físico e digital, acreditamos que essa conexão entre o físico e o digital e de serviços de valor agregado são um diferencial nosso, isso nos trouxe até aqui e vai nos levar daqui para frente. Acredito que essa guerra das maquininhas proporcionou uma entrada do long tail de empreendedores que só viam valor agregado na compra da máquina. Com esse novo mundo de produtos, serviços, tecnologia e vendas online, tem mais de um ano que você não mais se falar de guerra de maquininhas, isso já acabou. O mundo vai nessa direção de serviço de valor agregado.

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