No Banco Daycoval, uma previsão (quase) garantida

Nos últimos anos, o banco da família Dayan tem ocupado o topo entre os de maior rentabilidade sobre o patrimônio. Entenda o que faz essa azeitada máquina girar

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Sede do Banco Daycoval na Avenida Paulista, em São Paulo

Duas previsões que nenhum banqueiro gosta de fazer sobre seus balanços é sobre inadimplência e sobre ROE, o famoso retorno sobre o patrimônio líquido. Diante dos impactos da Covid-19 na economia, prever a inadimplência tornou-se, de fato, um exercício digno de um vidente com uma bola de cristal. Já sobre o ROE, quem está de fora, tem conseguido enxergar um vencedor.

De acordo com um estudo feito pela plataforma de informações financeiras Economatica ao NeoFeed, nos últimos anos, o Banco Daycoval tem se posicionado entre os primeiros quando se analisa esse indicador. Em 2019, o seu ROE atingiu 29,4%. No ano passado, quando o novo coronavírus paralisou a economia, alcançou 29,1%, quase o dobro dos concorrentes. Neste ano, no primeiro trimestre, anotou 28,3%, ganhando de lavada dos grandes como Santander (16,6%), Bradesco (14,2%) e Itaú (13,3%).

A questão é como o banco, o oitavo do Brasil em ativos, com R$ 51,95 bilhões, tem conseguido alcançar esses patamares. “A gente vem crescendo o ROE porque estamos num mercado nervoso, de pandemia, de discussões sobre eleições, reformas. É esse Brasil maluco e vamos bem nesse cenário”, diz Ricardo Gelbaum, diretor de relações institucionais do Daycoval, ao NeoFeed.

O Daycoval é conhecido por atuar principalmente na área de crédito. Conta com uma carteira de R$ 37,1 bilhões, sendo R$ 28,4 bilhões para empresas – em sua maioria pequenas e médias –, R$ 7,4 bilhões no consignado e R$ 1,16 bilhão em veículos. E é aí que reside a sua força. “Crédito não é para principiantes”, diz Gelbaum.

O NeoFeed conversou com três profissionais que atuam no mercado financeiro e os três foram unânimes em dizer que o modelo do Daycoval, dono de um patrimônio líquido de R$ 4,8 bilhões, tem se tornado um norte para outros competidores. “O Daycoval é uma máquina muito bem azeitada de crédito”, diz um executivo de um banco concorrente.

Outro define como fundamental o estilo de gestão da instituição, comandada pela tradicional – e discreta – família judaica Dayan. Os três diretores-executivos, os irmãos Carlos Moche Dayan e Salim Dayan, e o primo Morris Dayan, são vistos como o norte da instituição. “É um banco de dono. Lembra o Safra dos tempos do seu José Safra”, diz um profissional do mercado comparando com o lendário banqueiro que morreu no fim do ano passado.

O terceiro executivo ouvido pelo NeoFeed conta que o Daycoval é considerado um “banco que faz negócio, que trabalha com muitos gerentes tradicionais que põem a barriga no balcão”. “Não têm salários altos, mas ganham um excelente bônus por desempenho”, afirma. E prossegue. “Os bancos investem muito em tech e têm esquecido de olhar para a área comercial. Não é o caso deles.”

O próprio Gelbaum dá um exemplo de como essa máquina funciona. O Daycoval, cuja sede é na avenida Paulista, que já foi o coração financeiro de São Paulo – título que hoje está nas mãos da Faria Lima, conta com um total de 46 agências. “Temos agências em cidades como Jaraguá do Sul (SC) ou São José do Rio Pardo (SP)”, afirma. Até aí, nada de outro mundo. O curioso é como o banco escolhe os lugares para fincar sua bandeira.

Esqueça algoritmos ou estudos feitos por economistas para medir o PIB de cada lugar. Não que eles não sejam usados, mas não são decisivos. “O superintendente da região indica o lugar e tenta nos convencer que aquela cidade é um polo de exportação de laranja, de soja, do setor têxtil”, afirma Gelbaum. Além disso, é levado em conta se a cidade possui um clube de campo frequentado por empresários e se o superintendente tem acesso a eles.

Ricardo Gelbaum, diretor de relações com investidores do Banco Daycoval

É o que o diretor de relações com investidores do Daycoval chama de “o cheiro do banqueiro”. E esse “cheiro do banqueiro” tem sido fundamental na condução dos negócios. Há 5 anos, poucos bancos davam atenção para as pequenas e médias empresas. “Todo mundo só queria as grandes, bons ratings, coporate e ficamos aqui sozinhos nesse segmento”, diz Gelbaum.

“Mas, depois de Lava Jato, Odebrechts da vida e escândalos, todo mundo realizou que não era tão seguro assim. Agora, todo mundo quer ir para pequena e média empresa”, afirma. De fato, há uma corrida por esse cliente. Além dos bancões tradicionais, os digitais e fintechs estão de olho nesse segmento.

O LetsBank, banco digital do antigo Indusval, foi pensado para atuar nesse nicho. Outros como Inter, BS2, C6, Original, Nubank e BTG Pactual também intensificaram a atuação nesse mercado. Sem contar os grandões e as fintechs como Cora, Linker e Conta Simples. Todas as empresas estão de olho em um mercado que, segundo a EY, representa 27% do PIB.

“A gente gosta da concorrência. Entendemos que é salutar, de grande, de pequeno e médio, de fintech. O Daycoval responde rápido e conhece o setor. O que não gostamos é desse negócio de moda. Na moda, se cometem os grandes equívocos de precificação, na moda se busca market share. E aí é que vem os grandes erros”, diz Gelbaum. “Quando estourou a crise, no ano passado, os algoritmos das fintechs deram uma engasgada.”

No ano passado, o banco anotou um lucro líquido de R$ 1,2 bilhão. E, mesmo assim, manteve suas provisões em alta. No total, R$ 1,59 bilhão. Deste montante, R$ 1 bilhão de provisões regulares pela norma do BC e o restante de provisões adicionais. No primeiro trimestre, o lucro líquido recorrente foi de R$ 330 milhões, 18,8% a mais do que no mesmo período do ano passado, e a taxa de inadimplência bateu em 1,6%, mesmo nível do ano passado.

O índice é baixo porque o banco trabalha em um segmento muito específico: o de crédito com garantia. Mais de 75% dos empréstimos são para pessoas jurídicas e cerca de 60% das garantias são recebíveis da empresa e 40% são ativos reais do dono da companhia. São clientes que buscam o crédito para capital de giro e os tíquetes médios variam entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão.

A carteira de crédito do banco para empresas cresceu 59,9% quando comparada com o primeiro trimestre de 2020. Muito disso se deve ao FGI PEAC, o programa emergencial de acesso a crédito do BNDES. O Daycoval emprestou R$ 8,1 bilhões por meio dele, o equivalente a quase 10% de tudo o que foi disponibilizado nessa linha de crédito. Mas o crescimento também vem de um processo de transformação digital iniciado entre 2018 e 2019.

“É uma transformação diferente dos bancos tradicionais. Não queremos ter clientes gratuitos. Tudo tem um propósito e o propósito é crédito”, diz Gelbaum. O investimento em tecnologia, na casa das centenas de milhões, como diz o executivo do Daycoval, ajudou a acelerar o acompanhamento de checagem das garantias, dos recebíveis e das duplicatas. Também tem sido fundamental na aprovação do crédito para veículos.

Uma assistente de inteligência artificial, batizada de Dayane, foi criada em 2019 para agilizar as interações com os clientes. Antes, ela atendia a reclamações. Agora, funciona como uma orientadora. São 150 mil interações por mês, das quais 1,7 mil tem sido para montar carteiras de investimentos.

O Daycoval passou a entrar com mais força em outros produtos e a navegar no mercado de plataformas de investimentos. A ideia é fazer com que seus mais de 1 milhão de clientes também invistam com a instituição financeira. “Na área de custódia de fundos, montada há quase dois anos, são R$ 30 bilhões. Já na plataforma aberta de investimentos, são quase R$ 5 bilhões sob custódia”, diz Gelbaum.

Além de estreitar o relacionamento e trazer mais dinheiro do cliente pessoa física para dentro do banco, o objetivo era encorpar a operação para uma nova abertura de capital. O Daycoval fez IPO em 2007, mas a família Dayan recomprou as ações e fechou o capital em 2016. A meta era abrir novamente no começo de 2020, quando o mercado acreditava que iria captar R$ 4 bilhões. Mas veio o coronavírus e tudo ficou paralisado.

Gelbaum diz que, por enquanto, não está nos planos. Foi necessário focar ainda mais na operação quando a crise estourou e o “mundo” correu para garantir crédito. “O banco vive e respira crédito 24 por sete. E crédito não é coisa de amador, vivemos isso há 50 anos.”

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