Nova variante da Covid-19 mostra a face atual da desigualdade: a falta de vacinas

Nova cepa do coronavírus coloca o mundo em alerta e traz à tona as baixas taxas de vacinação em países pobres, um problema que, se não for combatido, deixará as economias no modo ioiô, subindo e descendo, ao ritmo das variantes

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A identificação de uma nova variante do coronavírus ativou o modo pânico nos mercados e está derrubando as bolsas de valores ao redor do mundo por conta do medo que a recuperação econômica possa ser freada pela nova cepa – no Brasil, o Ibovespa apresentava uma queda de 3,5% por volta das 16 horas.

A B.1.1.529, batizada de Ômicron, é a mais “significante” variante detectada até agora e tem alto potencial de propagação, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Não se sabe ainda se as vacinas atuais são efetivas contra a nova cepa, o que alimenta o temor de novas restrições à circulação das pessoas com efeitos na economia.

E, diante desse cenário, os países começam a fechar suas fronteiras para voos vindos da África, região onde a variante foi identificada. A medida, que já foi adotado por alguns países europeus, pode ser usada pela União Europeia para tentar retardar o avanço da nova cepa. A Anvisa recomendou que o Brasil faça o mesmo.

O fechamento de fronteiras, uma medida que à primeira vista parece necessária, deixa em evidência uma face nova da desigualdade global, que se não for combatida, colocará o mundo à mercê do surgimento de novas variantes de forma indefinida: a falta de vacinas na maior parte do planeta, em geral, em países pobres.

De acordo com o site “Our World in Data”, que traz dados sobre a vacinação ao redor do mundo, 53,9% da população mundial recebeu ao menos uma dose da vacina contra a Covid-19. Mas apenas 5,6% das pessoas em países de baixa renda foram imunizadas.

A desigualdade é gritante. Nos Emirados Árabes Unidos, 98% da população recebeu ao menos uma dose. Em Cingapura, 93%. Em Cuba, 90%. Na sequência, entre os países mais vacinados, aparecem Portugal, Chile e China. O Brasil é o 14º país com mais habitantes vacinados: 75,9% de sua população já recebeu ao menos uma dose.

Por outro lado, há países em que a taxa de vacinação é baixíssima. A Nigéria, por exemplo, tem apenas 2,9% de sua população vacinada com apenas uma dose. A Etiópia, 4,9%. E o Quênia, 8%. O Egito, a África do Sul e Bangladesh não estão em situação muito melhores, com 23%, 28% e 34% de seus habitantes vacinados.

Por que isso é importante? A resposta é simples. De nada adianta os países mais desenvolvidos vacinarem quase toda a sua população se uma parte importante e significativa dos habitantes do mundo seguirem sem proteção. As vacinas são uma proteção individual, mas só serão mais efetivas se um percentual grande população estiver imunizada.

Mas não é só isso. Os países com baixa taxa de vacinação podem se transformar em um berçário para novas variantes que podem furar a proteção das vacinas. Os especialistas da OMS já vinham alertando há tempos que a distribuição mais ampla da vacina era necessária para impedir o surgimento de novas variantes. A dra. Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS, disse, em agosto deste ano, que estava “com medo” de que as campanhas de reforço “só levassem a mais variantes”.

Outros especialistas alertavam para o mesmo cenário há meses. Ken Shadlen, professor de estudos de desenvolvimento da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, disse, em entrevista ao Business Insider, em março deste ano, que, se a desigualdade global da vacina persistir, “isso vai potencialmente minar os benefícios para a saúde de tudo o que estamos fazendo com bloqueios e vacinas.”

A opinião é compartilhada por Michael Osterholm, epidemiologista da Universidade de Minnesota, que aconselhou Joe Biden sobre a Covid-19. Para ele, os esforços para acabar com a pandemia seriam difíceis se houvesse uma “transmissão amplamente descontrolada nos países de baixa e média renda”, mesmo que as nações mais ricas do mundo tivessem vacinado amplamente.

O rápido desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus foram uma conquista da humanidade, uma epopeia que será registrada nos livros de história. Mas a sua ampla distribuição para todos os cantos do planeta é uma necessidade para pôr um fim definitivo à pandemia que resiste e persiste.

Não faltam problemas para ser combatidos ao redor do mundo. A desigualdade, no Brasil e no planeta, tem diversas faces. A da falta de vacina é a mais nova dela. E, infelizmente, é mortal não só para os países que não têm acesso aos imunizantes, mas também àqueles que foram bem-sucedidos em proteger seus habitantes.

Sem imunização em massa, o coronavírus está mostrando para todos que é capaz de encontrar brechas para seguir sua marcha pelo mundo. Com isso, a economia ficará no modo ioiô, subindo e descendo, ao ritmo das novas variantes.

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