O Brasil mostrou suas muitas caras em Boston

Não há como inovar sem proporcionar um ambiente de escuta e desenvolvimento que seja plural e diverso. A Brazil Conference trouxe isso

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Boston, a capital do estado americano de Massachusetts, é conhecida por ser o berço de universidades de excelência, com destaque para Harvard e o MIT. Às margens do Rio Charles, que corta a cidade, encontram-se seis diferentes instituições e mais de 80 prêmios Nobel.

É neste ambiente que estimula conhecimento e inovação que floresceu a Brazil Conference, encontro anual promovido pela comunidade brasileira de estudantes universitários e que se propõe a debater os temas relacionados ao nosso país envolvendo academia, empresas, políticos, ativistas, esportistas e quem mais está aberto a contribuir com o debate. Foi minha primeira, na cidade e no evento.

Sempre tive por crença de que não há como inovar sem proporcionar um ambiente de escuta e desenvolvimento que seja plural, diverso. Isso vale para multinacionais e é ainda mais realidade em startups. Na Brazil Conference não foi diferente.

Logo no primeiro dia eles reuniram um grupo de embaixadores, dez jovens foram selecionados nas cinco regiões do país para, não apenas contarem suas histórias (e muito incríveis!), mas para serem replicadores dos seus aprendizados em outras comunidades e também junto à comunidade acadêmica distante mais de 7 mil quilômetros da realidade local.

Realidades como a da Graziele, estudante de arquitetura quilombola e autista, que está desenvolvendo projeto de saneamento básico para sua comunidade ou do Diogo, um jovem negro, da zona Leste de São Paulo, que começou dando aulas de inglês na quebrada e hoje tem um projeto que capacita jovens para trabalharem como desenvolvedores em empresas de tecnologia.

Em comum a capacidade de encontrar soluções reais para problemas reais, com forte componente regional e de ter um compromisso em “devolver” para o local onde nasceram um legado que inspire novos talentos. Uns chamam de altruísmo, mas tenho convicção de que é a essência do empreendedorismo social, uma marca desta geração.

A programação trouxe temas recorrentes na agenda nacional, mas a Brazil Conference mostrou-se atenta em reunir um conjunto plural de speakers que pudessem abordar os desafios do meio ambiente e o desenvolvimento, da ineficiência do sistema carcerário, de como ampliar a presença feminina nos centros de tomada de decisão.

Com atenção ao Judiciário, também trouxe reflexões de como reduzir a desigualdade na educação ampliada pela pandemia ou como possibilitar que o PIX, que ampliou o acesso das pessoas a bens e serviços, especialmente nas classes mais pobres e informais, continue gerando acesso e movimentando a economia evitando fraudes, roubos e vazamento de dados.

Perguntas e reflexões necessárias, que ajudaram a pautar as sabatinas promovidas ao longo do encontro com os principais pré-candidatos à Presidência. Sergio Moro, Ciro Gomes, Simone Tebet, João Doria, Eduardo Leite e Jaques Wagner, o último representando o ex-presidente Lula, foram questionados por alunos, jornalistas políticos, professores e especialistas numa conversa direta e sem a presença dos roteiros tradicionais que marcam muitas vezes os debates eleitorais.

Um dos grandes méritos da Brazil Conference é a capacidade de reunir num mesmo ambiente colaborativo empresas, academia, governo e sociedade para estimular o conhecimento e gerar novas soluções

Para além de expor, foram chamados a ouvir e refletir sobre este novo país pós-pandemia e marcado pelo retorno da pobreza. Este para mim é um dos grandes méritos da Brazil Conference e do porquê devemos estar com os olhos atentos a ela: a capacidade de reunir num mesmo ambiente colaborativo empresas, academia, governo e sociedade para estimular o conhecimento e gerar novas soluções.

E digo isso, pois no Brasil ainda há um mito de que universidades e iniciativa privada precisam estar em raias separadas, quando agregariam mais valor à indústria da tecnologia, por exemplo, co-criando.

Estimular o boom tecnológico, a pesquisa, deve ser uma das prioridades de ambos os lados, mas como destacou o professor Mark Zachary Taylor em um dos painéis do evento, há países que fomentam a insegurança criativa, dificultando a inovação com leis restritivas e criadas sem quase nenhum debate social ou a ausência de diálogo transparente entre pesquisadores e empresas. Alguma semelhança?

Foram inspiradores os dois dias da Brazil Conference, que possibilitou ainda conhecer Boston e perceber que a cidade respira inovação e conhecimento. Pude tomar um café e bater um papo sobre as perspectivas do futuro e da identidade digital com o professor de Harvard, David Eaves, num café, na Harvard Square, em plena sexta-feira à tarde.

No domingo pela manhã, os cinco finalistas da HackBrazil, um braço da Brazil Conference que seleciona projetos para serem mentorados por ex-alunos e professores das universidades e os cinco finalistas concorrem a um prêmio de R$ 75 mil para ajudar a alavancar o negócio.

A Edumi, uma startup que ensina gratuitamente programação para jovens de periferia, concorreu e, na mentoria com o Paulo de Alencastro, co-fundador da unico, comprovaram que há muito potencial jovem, negro, feminino, diverso, borbulhando no Brasil e na espera, não de oportunidade, porque já estão agindo, mas de visibilidade para alçar voos ainda mais altos.

*Gabriela Onofre é sócia e vice-presidente de comunicação e marketing da idtech unico

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