O efeito dominó que pode inflamar os mercados nas próximas semanas

Nas próximas três semanas, BCE, Fed e Copom elevam as taxas de juros, mas ventos contrários podem alterar a dose do aperto monetário

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Pautadas pela prioridade dos bancos centrais de combater a inflação, as reuniões de política monetária agendadas para as próximas três semanas produzirão um efeito dominó com potencial de inflamar ainda mais os mercados. A começar nesta semana.

A primeira peça se move na quinta-feira, 21 de julho. O Banco Central Europeu (BCE) deverá quebrar o jejum de mais de uma década e aumentar suas taxas em 0,25 ponto percentual.

Na semana seguinte, em 27 de julho, o Federal Reserve (Fed), o BC dos EUA, poderá elevar o juro em 0,75 ponto. Em 3 de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil, poderá ajustar a Selic em 0,50 ponto, para 13,75%, e anunciar que para por aí.

Esse roteiro era dado como certo até a semana passada, mas os ventos mudaram e há incerteza sobre os próximos passos dos bancos centrais porque a desaceleração da atividade pode chegar mais cedo lá fora.

E, no Brasil, os riscos fiscais podem agravar a perspectiva de inflação em 2023 e redobrar a cautela do BC, a despeito da desaceleração do IPCA neste ano devido à desoneração tributária dos preços dos combustíveis.

Na próxima quinta-feira, o BCE divide a cena com a Rússia que, no mesmo dia 21 de julho, decidirá se reabre ou não o gasoduto Nord Stream 1 que transporta gás natural para a Europa via Alemanha.

O Nord Stream 1 entrou em manutenção há 10 dias e a retomada da atividade está prevista para esta quinta, alerta a imprensa internacional. Se a Rússia decidir manter o gasoduto fechado como sanção à Europa em meio ao duradouro conflito com a Ucrânia, o preço da energia deve disparar, agravar a espiral inflacionária na Zona do Euro e acelerar o processo recessivo que pode conter a determinação do BCE de promover ajustes subsequentes nos juros. A inflação poderá até recuar, mas como efeito da retração da atividade.

O BCE deverá, na reunião desta quinta-feira, anunciar o mecanismo “antifragmentação” das dívidas soberanas das economias periféricas da Zona do Euro. Portugal, Espanha, Itália e Grécia observam uma escalada no custo de financiamento de suas dívidas, ante a perspectiva de aperto monetário pelo BCE. A instituição deverá formalizar a recompra de títulos desses países.

Nos EUA, dois eventos abriram a porta para uma alta maior do juro pelo Fed, de 0,75 ponto percentual para 1,0 ponto: a inflação ao consumidor americano, de 9,1% anualizada até junho, renovou o pior resultado em 40 anos; e os sinais de recessão reportados no Livro Bege divulgado na semana passada pela instituição que monitora a atividade em 12 distritos onde o Fed é representado.

Na sexta-feira, 15 de julho, porém, membros do Comitê Federal de Mercado Aberto do Fed (Fomc, na sigla em inglês) jogaram água na fervura, reforçando a probabilidade de o aumento do juro ser reprisado em 0,75 ponto. Resultado? Os mercados reagem positivamente nesta segunda-feira.

No Brasil, a aprovação pelo Congresso da PEC das Bondades, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro na quinta-feira, 14 de julho, com R$ 41,2 bilhões de despesas com pagamento de auxílios fora do teto de gastos, impõe ao BC maior cautela com a demanda – que o juro alto procura coibir – e com riscos fiscais, embora o ministro da Economia, Paulo Guedes, assegure que essas despesas serão cobertas com arrecadação extraordinária e dividendos das estatais.

Os três bancos centrais estão em estágios diferentes de elevação dos juros. Nenhum deles têm condição de afirmar, neste momento, que a política monetária restritiva arrefece a inflação. O BCE é o mais atrasado no ajuste. O Fed, começou a subir a taxa em março deste ano, mas a inflação segue explosiva. O BC do Brasil é o mais adiantado. Deflagrou o aumento da Selic um ano antes do Fed, mas o IPCA em 12 meses até junho está em 11,89%.

As projeções para a inflação brasileira para o fim desde ano – já sob efeito da redução de preços dos combustíveis – oscilam entre 7,2% e 7,9% entre os maiores bancos privados. O Santander Brasil prevê 7,9%. Em revisão de cenário, o departamento econômico, liderado pela ex-secretária do Tesouro, Ana Paula Vescovi, o banco elevou a estimativa de Selic para 2022, de 13,50% para 14,25%.

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