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O escândalo que abalou uma das mais importantes instituições do vinho

Um grupo de 21 mulheres acusa diretores da Corte of Master Sommeliers Americas, responsável por conceder o honroso título de Master Sommelier, de exigir sexo em troca de aprovações

 

A notícia caiu como uma bomba. A acusação de assédio sexual de diretores da Corte of Master Sommeliers Americas e o GuildSomm, seu braço educacional independente, dois ícones do mundo do vinho, abalou as estruturas do universo dos sommeliers, os profissionais responsáveis pelo serviço do vinho.

Vinte e uma mulheres mulheres norte-americanas denunciaram a instituição, alegando que, enquanto estavam estudando para obter o cobiçado título de Master Sommelier, concedido pela Corte, foram assediadas.

O título é o degrau mais alto que um profissional do vinho pode atingir em sua carreira. Passou a ser ainda mais cobiçado depois do sucesso do documentário Somm, lançado em 2012, que mostra a árdua rotina de quatro sommeliers para obter o título.

Para exibir na lapela o broche com as iniciais MS, que são usadas também como assinaturas no final dos nomes dos aprovados, é necessário muito estudo e conhecimento sobre vinhos. O esforço compensa: o título abre muitas portas e, principalmente, adegas para aqueles profissionais que conseguem passar no exame.

Mas chama atenção o baixo número de mulheres com o título. Até hoje, na sessão norte-americana, há 155 MS, dos quais apenas 24 são mulheres (a filial americana foi inaugurada em 1997).

O jornal The New York Times foi atrás dos motivos do baixo número de aprovadas e revelou uma história sórdida: sommeliers homens, em cargos de poder, trocando relações sexuais por aprovação nas provas.

Uma das assediadas foi a sommelière Ivy Anderson, então com 22 anos, que morava em Charleston. Ela tinha acabado de fazer uma aula de champanhe, ministrada por Geoff Kruth, o badalado fundador do GuildSomm, quando ele a contatou, dizendo que percebeu que ela havia comprado ingresso para uma festa do instituto em Nova York.

Já que ela viria para a cidade, ele a convidou para jantar em um refinado restaurante e para se hospedar em um hotel em Manhattan com ele e outros membros da Corte. No hotel, logo de cara, Ivy ficou surpresa ao encontrar apenas um quarto, com uma cama.

No restaurante, ela foi apresentada a Victoria James, um ícone para jovens aspirantes ao título. Afinal, Victoria recebeu o certificado de master sommelière aos 21 anos de idade, a mais jovem da história a ostentar a honraria.

Durante o jantar, Kruth disse a Yvy que ele e sua esposa tinham um relacionamento aberto e que ele já tivera um caso apaixonado com Victoria James. Mais: afirmou que era comum o sexo entre master sommeliers e candidatas.

Depois do jantar, já no hotel, Ivy se viu encurralada. “Não posso rejeitar essa pessoa”, pensou. E concluiu. “Está muito frio, não conheço ninguém em Nova York e ele vai me jogar na rua.”

Depois das denúncias, a Corte realizou mudança em seu estatuto para evitar que novos casos venham a acontecer. Geoff Kruth, um dos principais acusados, renunciou ao cargo depois da divulgação. Ele também tirou sua página no Instagram do ar.

“A agressão sexual é uma constante para as mulheres. Não podemos escapar, então aprendemos a conviver com isso”, afirmou Madeleine Thompson ao The New York Times. Atualmente diretora de vinhos em Dallas, Madeleine optou por sair do processo de qualificação para o MS por causa do assédio de vários sommeliers. “É um compromisso que não deveríamos ter que fazer”, acrescenta.

Mario Telles, diretor da Associação Brasileira de Sommeliers – SP (ABS-SP), diz que denúncias como estas, além de inaceitáveis, levam a ABS a investir mais na formação do profissional. “Assim como temos a medicina defensiva, precisamos ter a sommelierie defensiva”, afirma ele, que é médico de formação.

Isso porque o sommelier é a parte mais fraca na balança no mundo do vinho. “Os clientes acreditam que sempre têm razão para os assédios sexuais e morais, então é preciso proteger os sommeliers e, principalmente, as sommelières”, acrescenta Telles.

Entre os cuidados no salão, está o de perguntar ao cliente se ele quer que o profissional deguste o vinho antes de servi-lo (o que deveria ser a praxe, mas há clientes que acham que o profissional está bebendo o seu vinho, e não avaliando se a bebida tem ou não tem defeitos).

Outra atenção é provar o vinho sempre em taças menores, para que o cliente não pense que o sommelier está bebendo o seu vinho. Apesar de não ser o chefe direto da profissional, assédios morais e sexuais de clientes prejudicam a ascensão das profissionais no salão. “Vale lembrar que assédio sexual é caso de polícia”, acrescenta Telles.

A sommelière brasileira Adriana Cardoso (o nome foi modificado) com quase duas décadas de profissão, conta que já foi vítima de assédio moral, mas não dá detalhes da história. “Pedi demissão, precisei de ajuda profissional, de terapia, e até hoje não me recuperei”, conta ela.

A história, que ela não denuncia, aconteceu em um passado recente quando ela liderava o serviço de vinhos de um grupo de restaurantes gastronômicos. “Se eu denunciar, não terei emprego em nenhum outro lugar”, conta ela, que optou por abrir mão do emprego bem remunerado (uma das casas, principalmente, vendia rótulos caros e ela tinha uma comissão nas vendas) e se calar.

É o medo de como a denúncia será recebida e, principalmente, o receio de não ter mais oportunidades, é o que gera o silêncio no Brasil. Para esta reportagem, o NeoFeed ouviu oito sommelières que atuam, ou já atuaram, em salão de restaurantes em São Paulo. Todas contaram conhecer casos de assédios, não necessariamente com elas, mas com amigas de profissão.

Não contam nomes das vítimas nem dos estabelecimentos, mas dizem que o assédio acontece. Entre os assediadores estão desde os seus superiores, sejam profissionais de vinho ou de cozinha, responsáveis pela compra de vinhos em restaurantes, supermercados e empórios, e, principalmente, clientes dos restaurantes. São homens que usam o seu poder para forçar uma relação sexual que, quando não concedida, atrapalha a carreira da sommelière.

“Já precisei levar meu chefe em reuniões porque a pessoa não entendia as minhas negativas e podia me prejudicar profissionalmente”, conta uma sommelière paulistana, que trabalha com a venda de vinhos para restaurantes. “Já tinha falado não claramente, mas a pessoa parecia não querer ouvir”, conta ela.

Mais grave é a história que aconteceu com a americana Alexandra Fox. Depois de recusar os convites sexuais de Matthew Citriglia, membro do conselho da Corte of Master Sommeliers Americas entre 2005 e 2017, inclusive jantares que ele dizia que eram para todos os alunos e ela descobria que era só com ela, ela aceitou assistir uma aula dele, em Cleveland. Na noite anterior, ela dormiu com um colega. Na manhã seguinte, quando Citriglia descobriu, ele fechou a porta da sala na cara dela enquanto a classe assistia.

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