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“Os banqueiros do futuro serão programadores”, diz especialista em fintechs

Henri Arslanian é considerado uma das maiores autoridades em fintechs e criptomoedas do mundo. Em entrevista ao NeoFeed, ele diz que a inovação financeira acontece nos países emergentes e elogia a iniciativa Libra, do Facebook

 

Para Henri Arslanian, a China está liderando a corrida das fintechs

Mudar é uma questão de sobrevivência – um aprendizado que Henri Arslanian traz no sangue. O advogado, especialista em serviços financeiros e criptomoedas, reconta cinco gerações de mudanças: o bisavô nasceu na Turquia, o avô, na Síria, o pai, no Líbano, ele, no Canadá, e sua filha, em Hong Kong.  

Enquanto seus ascendentes fugiam de um passado, sua mudança teve mais a ver com o futuro. Depois de ler o livro “China for Dummies” (algo como “China para imbecis”), decidiu deixar de lado a ideia de ir para a Europa para fixar residência em Hong Kong, o provável berço de uma nova era.

Ali, concluiu seu mestrado em direito e, por anos, atuou na área. Mas sua afinidade (e curiosidade) com o mercado financeiro o levou, mais uma vez, a mudar. 

Inserido no sistema bancário, se decepcionou com a distância daqueles serviços com a realidade que o cercava, sem reconhecer sinais de mudanças por uma questão técnica: não havia discussões ou cursos sobre fintechs.

Por conta disso, criou a Associação de Fintechs de Hong Kong, que nasceu, acredite se quiser, a partir de uma combustão espontânea de um grupo de WhatsApp. Hoje, a associação conta com mais de 1,5 mil pessoas e tem mais de 400 empresas como membros. 

Acumulando ainda a função de professor adjunto da Universidade de Hong Kong, Arslanian reuniu todo o seu conhecimento no recém-lançado livro “The Future of Finance”, apontado como um dos mais completos do mercado.

Em entrevista exclusiva, o autor e professor falou sobre sua especialidade ao NeoFeed. Acompanhe a seguir.

Cerca de dois anos atrás, você participou de um TEDx com uma apresentação intitulada “Como as fintechs estão moldando o sistema bancário”, e agora lançou o livro “O Futuro das Finanças”. Quando esse “futuro” vai chegar?
Bem, o futuro das finanças já está acontecendo, mas nos mercados emergentes. A China, que está uns dois ou três anos à frente dos demais países, é o melhor exemplo disso. Se não me engano, em 2017, as transações feitas com dinheiro em espécie chegavam a 86%, mas agora mais de 90% dos pagamentos são feitos por celular.

“O futuro das finanças já está acontecendo, mas nos mercados emergentes”

E o que pavimentou essa mudança em tão pouco tempo?
Uma combinação de fatores levou a isso. A primeira tem a ver com o gap do mercado: havia a oportunidade. Outro fator importante é que a população chinesa é conhecida pela afinidade com a tecnologia e por ter acesso a ela. Por fim, as pessoas estavam abertas a testar novas alternativas e, com isso, as grandes empresas de tecnologia e entraram para o mercado financeiro. 

Nada disso foi surpreendente para você…
Quando palestrei no TEDx, em 2017, fui duramente criticado. Muitas pessoas diziam que minhas ideias e apostas eram estúpidas e que minhas previsões eram malucas. Uma das minhas apostas era de que minha filha teria uma probabilidade muito maior de abrir uma conta com o Facebook ou com a Apple do que com um banco tradicional. Hoje, essa afirmação já não soa como uma loucura. Também disse que muitos empregos ligados ao sistema bancário seriam extintos e estamos vendo isso acontecer. 

Arriscaria mais uma previsão?
Os banqueiros do futuro não serão executivos com MBA, mas programadores, designers e criativos – pessoas que pensam fora da caixa. 

Nos Estados Unidos, o Venmo, do PayPal, parece ter agradado muito os usuários e está mexendo no mercado de fintech com o seu approach social, com emojis e afins…
Se eu fosse CEO de um banco, hoje, não me preocuparia com a proliferação de startups ligadas ao mundo financeiro. Me preocuparia com as grandes empresas de tecnologia, sobretudo as que trabalham com plataforma de mídias sociais.

Por quê?
Porque elas já operam sob o preceito de “tecnologia em primeiro lugar”, já têm uma sólida base de usuários e, honestamente, estão anos luz à frente dos bancos na questão da experiência do usuário. 

Por que tanta demora para essas mudanças?
Porque os bancos nunca tiveram uma concorrência inovadora, como agora. Ninguém era melhor em nada: o serviço de um banco era muito similar ao da concorrência. Então, ninguém se preocupava em migrar de uma bandeira para a outra.

“Os bancos nunca tiveram uma concorrência inovadora como agora”

E agora que a essa concorrência inovadora chegou, qual o maior desafio dos bancos nessa briga?
Eu diria que a estrutura herdada, que deixa tudo muito parecido com aquele jogo dos palitinhos, sabe? O objetivo é tirar um dos palitos do emaranhado sem mexer os demais. Você pode até conseguir fazer alguns movimentos, mas, em algum momento, será obrigado a mexer na estrutura inteira, que “desaba”. Para você ter uma ideia, um a cada dois bancos usa uma linguagem de programação criada entre as décadas de 1950 e 1960, antes do homem pisar na lua. E 95% das transações em caixas automáticos se apoiam no mesmo programa. Essa estrutura é uma herança maldita. 

Com tantas mudanças, é provável que a nossa relação com o dinheiro mude também.
Com certeza. A forma como nossos avós lidavam com o dinheiro é totalmente diferente da forma como os jovens lidam. Aliás, a percepção dos bancos, para os millennials, está associada à crise financeira. Paralelo a isso, temos que lembrar que 49% dos americanos não têm US$ 400 em suas contas para emergências. Agora é a hora que vamos nos perguntar: os bancos estão aqui por mim?

Como assim?
Um cliente que constantemente precisa pegar dinheiro emprestado, que atrasa pagamento do cartão de crédito e vive para pagar taxas e multas é um ótimo cliente para o banco. Talvez seja a hora de os bancos assumirem um papel de “plano de saúde financeiro”.

Poderia explicar melhor?
Claro: você vai para a academia para cuidar da sua saúde física; vai para a igreja para cuidar da sua saúde espiritual; você medita para cuidar da sua saúde mental; e por que não recorre a uma fintech para cuidar da sua saúde financeira? É hora deste segmento ter mais transparência e passar confiança aos clientes. A Libra, criptomoeda do Facebook, talvez seja um marco na história por isso…

Mas ela ainda não saiu do papel. Com o “desembarque” de algumas gigantes parceiras, muita gente duvide que a Libra chegue a ver a luz do dia…
Mesmo que ela não se concretize, a reação que gerou já é poderosa o suficiente para ser divisora de águas. Pela primeira vez, estamos vendo políticos escrevendo cartas abertas a CEOs de companhias e bancos centrais acordarem para uma nova realidade. Achei uma investida muito corajosa do Facebook, embora faça sentido…

Sentido?
Sim, porque eu consigo mandar um e-mail de graça, podemos nos falar de graça, mas se eu quiser fazer uma simples transferência, há inúmeras barreiras e taxas. Não é fácil. E o pior: afeta justamente quem mais precisa. Uma transação entre fronteiras custa algo entre 5% e 7% do valor enviado, mas, em mercados emergentes, as tarifas podem chegar a 20%, o que é demais. A Libra seria uma alternativa muito mais viável e, de novo, mesmo que ela nunca se concretize, ela já desempenhou um papel fundamental na revolução financeira. 

“Eu consigo mandar um e-mail de graça, podemos nos falar de graça, mas se eu quiser fazer uma simples transferência, há inúmeras barreiras e taxas”

Ao meu ver, a grande dúvida em relação a essa e outras criptomoedas é sobre a volatilidade. Hoje, se eu te enviar uma quantia X de bitcoins, amanhã elas podem valer uma fração disso, sem que haja controle.
Essa questão é muito pertinente, sobretudo porque o bitcoin é realmente instável. Mas já temos acesso a diversas “stable coins”, como são chamadas as moedas digitais operadas numa taxa 1 por 1 em relação ao dólar. Esse sistema, aliás, deve ganhar mais força e espaço nos próximos anos.

Muitos, inclusive o senhor, apostam que esse novo sistema bancário seja mais democrático. Mas, pelo menos até hoje, para fazer parte dessa revolução é preciso ter um celular, acesso à internet, saber ler. Não acredita que, em vez de agregar, essas novas fintechs vão acabar excluindo ainda mais?
Olha, nos Estados Unidos, 22% das famílias não são atendidas por bancos. E não estamos falando apenas de lugares remotos, porque áreas em Miami e Detroit estão sem serviço bancário. E o motivo para essa falta de atendimento é simples: custo. Atender uma clientela pouco numerosa não é economicamente vantajoso para um banco, que precisaria de estrutura e equipe na região. As soluções online reduzem o custo do cliente, além de cobrir uma área muito maior: onde há internet, há serviço bancário.

E isso pode combater também o abismo social?
Eu acredito que sim, porque, além das pessoas sem acesso a serviços bancários, temos uma outra parcela expressiva que chamamos de “underbankes” – ou seja, que é mal servida. Esses clientes, na maioria dos casos, não têm acesso a empréstimos e financiamentos, sem conseguir realizar a compra da casa própria ou outros bens de valores mais elevados. Com as fintechs oferecendo essas opções, as pessoas passam a ter acesso mais facilitado aos bens, e a economia gira com mais vigor. 

Você acredita que discursos e plataformas políticas como a de Elizabeth Warren, que defende a quebra das big tech, possa atrapalhar o desenvolvimento das fintechs?
Sei dessa proposta de separar as empresas de tecnologia, mas não acompanho os discursos dela. Precisaria analisar melhor sua fala para comentar. Apesar disso, acredito que não temos que ter medo dessas discussões. Ao contrário, devemos incentivar os debates e as propostas que surgem a cada dia. 

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