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Os patinetes elétricos, quem diria, não são tão ecológicos como se pensava

Pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte levaram em consideração todo o ecossistema envolvendo as e-scooters, um negócio bilionário disputado por gigantes do Vale do Silício

 

Modelo de patinete elétrico da Lime

As principais capitais do mundo foram invadidas, nos últimos tempos, pelos patinetes elétricos. De São Francisco, passando por Nova York, São Paulo e Paris, as e-scooters passaram a dominar a paisagem de algumas ruas.

Em São Paulo, os patinetes elétricos disputam espaço com as bicicletas na Av. Faria Lima, endereço dos principais bancos do Brasil, sinalizando um estilo de vida ecologicamente correto à metrópole dominada por carros e ruas congestionadas.

Mas um estudo da Universidade da Carolina do Norte tem questionado o quão realmente sustentável é essa alternativa oferecida por startups como Bird, Lyft, Lime e Grow (dona das marcas Yellow e Grin), um mercado avaliado em US$ 17 bilhões, segundo a consultoria Global View Research.

Embora as e-scooters sejam mesmo mais sustentáveis que automóveis, os pesquisadores descobriram que eleger essa forma de locomoção produz mais gases poluentes por quilômetro do que viajar de ônibus, de bicicleta e, obviamente, a pé.

A questão, vale salientar, não é exatamente o patinete, mas o ecossistema que o envolve. Os materiais usados em sua fabricação, as rodas, as baterias e a jornada diária de recolher os aparelhos, recarregá-los e devolvê-los para a rua é que são os vilões desta equação. Pesa também na conta o fato de que muitos dos patinetes são vandalizados, precisando ser repostos ou reparados.

Para se ter uma ideia da gravidade deste problema, a conta no instagram Bird Graveyard (@birdgraveyard), dedicada apenas a postar fotos e vídeos de e-scooters sendo danificadas, já acumula mais de 100 mil seguidores em pouco mais de um ano desde o seu lançamento, com atualização quase diária.

Isso é particularmente preocupante porque a pesquisa mostra que os materiais e a fabricação dos patinetes são responsáveis por quase a metade do impacto ambiental provocado pelo mercado.

O problema se aprofunda diante da redução do ciclo de vida dos aparelhos. A primeira leva de e-scooters da Bird a ganhar as ruas aguentou de três a quatro meses. Quando os modelos Bird Zero chegaram, meses atrás, a expectativa é de que sua durabilidade atingisse a marca dos dez meses, mas uma análise conduzida pela site Quartz no Kentucky mostrou que as peças duravam, em média, 29 dias.

A Bird, fundada em 2017 por Travis VanderZanden, ex-executivo da Uber, já levantou mais de US$ 273 milhões em investimentos, e tem como um de seus principais apoiadores a Sequoia Capital, conhecida pelas apostas certeiras no Vale do Silício. Foi ela, por exemplo, uma das primeiras a investir no Facebook.

Para entender a questão ecológica dos patinetes, os pesquisadores consideraram uma série de variáveis que poderiam melhorar ou piorar o cenário, mas chegaram a conclusão de que em 65% das vezes as e-scooters eram piores do que o meio de transporte que elas substituíam.

E-scooters produzem mais gases poluentes por quilômetro do que viajar de ônibus, de bicicleta e, obviamente, a pé

Andar uma milha (1,6 quilômetro) em um patinete produziu o equivalente a 202 gramas de dióxido de carbono. Isso é muito menos do que um carro, que emite 414 g de CO2 por milha, mas mais do que pegar um ônibus (82 g), andar de bicicleta (8 g) ou caminhar (0 g).

Em 2018, os patinetes foram usados em 38,5 milhões de passeios nos Estados Unidos, de acordo com o National Association of City Transportation Officials.

Caso não contassem com as scooters, parte dos usuários relataram que optariam por uma mistura dessas alternativas: metade disse que caminharia ou pedalaria, e 11% teriam pegado um ônibus. Um terço teria ido de carro – seja próprio ou usando um serviço de carona. Os outros 7% disseram que não teriam feito a viagem.

Essa mistura de alternativas produziria emissões de cerca de 150 g de CO2 por milha, patamar ainda inferior ao da locomoção com o patinete.

Em nota divulgada à imprensa americana, a Lime, avaliada em US$ 1,1 bilhão, disse que o estudo foi baseado “em presunções e dados incompletos que promovem resultados altamente variados”, mas que ainda assim a empresa estava se empenhando em desenhar novas soluções para algumas das questões levantadas.

A Lyft, que além das scooters ainda oferece serviço de carona, concorrendo com o Uber, não se pronunciou. A empresa, ativa desde 2002, é avaliada em US$ 17 bilhões e divulgou, em março de 2019, receita de US$ 776 milhões.

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