Os setores que mais ganharam e perderam na temporada de balanços do 1º tri

Em relatório sobre as prévias da temporada de resultados do 1º trimestre, a XP destaca a recuperação da bolsa brasileira e ressalta os setores financeiro e de shopping centers como os que ganharam. Por outro lado, varejistas enfrentaram dificuldades

0
83
Leia em 6 min

Um período marcado pelo início da guerra entre Rússia e Ucrânia, com todos os seus desdobramentos para a economia global, e impactado por questões como o recrudescimento da Covid-19, a partir do avanço da variante ômicron, e pela manutenção do ambiente macroeconômico instável no País.

Os reflexos desse calendário nos resultados das empresas listadas na B3 começaram a ser conhecidos no último dia 20 de abril, com a abertura da temporada de balanços do primeiro trimestre de 2022. E é essa agenda que está no centro de um relatório da XP, antecipado ao NeoFeed.

Apesar dos desafios e preocupações inerentes a esse contexto, o relatório parte de uma perspectiva mais otimista para a bolsa brasileira, em um contraponto ao cenário de 2021, quando o Ibovespa acumulou uma perda de 11,93%, sua primeira queda anual desde 2015.

“O ano passado, especialmente o segundo semestre, foi bem negativo para a bolsa brasileira, que teve o segundo pior desempenho global”, afirma Jennie Li, estrategista de ações da XP, ao NeoFeed. “Nesse primeiro trimestre, porém, houve uma virada e a B3 esteve entre as melhores do mundo.”

Esse desempenho se traduz justamente no Ibovespa. O índice fechou o trimestre com alta de 14,5%, em reais. Em dólares, o salto foi ainda mais acentuado, de 34,5%. O que contrasta com a queda, por exemplo, de 4,9% no S&P 500, que reúne as 500 maiores empresas das bolsas americanas.

“Nós já vínhamos com uma visão mais cautelosa em relação ao cenário macroeconômico doméstico, que segue bastante desafiador”, diz Li. “O que mudou foi o cenário externo, muito em função da guerra, e o Brasil, por mais contraintuitivo que possa parecer, foi muito favorecido por esse cenário.”

Alguns elementos estão por trás dessa equação. De um lado, os investidores deixaram de destinar boa parte dos seus recursos a ações de alto crescimento, como as do setor de tecnologia, mais sensíveis à elevação em curso das taxas de juros em todo mundo.

Em contrapartida, eles passaram a concentrar suas alocações em segmentos que se beneficiam desse contexto, como bancos, e também em empresas ligadas a commodities, a partir da alta nos preços desses ativos, em função dos conflitos entre russos e ucranianos.

“A bolsa brasileira é formada, em boa parte, justamente pelo tipo de empresa que os investidores globais estavam procurando naquele momento”, observa Li. “Os bancos são um quarto do Ibovespa e cerca de 40% do índice são ativos de commodities, enquanto lá fora, essa fatia é de, no máximo, 20%.”

Essa migração dos investidores também foi favorecida pelo fato de a guerra ter tirado a Rússia do mapa dos investidores de mercados emergentes. Dono de um mercado grande e com grande liquidez entre esses países, o Brasil acabou sendo o destino favorito desses recursos.

Na visão da XP, outro ingrediente que contribuiu para esse panorama foi o fato de o Brasil estar chegando ao fim do seu ciclo de alta de juros, enquanto outros países, entre eles os Estados Unidos, estão apenas iniciando esse percurso.

Desempenho misto

Sob esse quadro e a partir de dados compilados de analistas da própria XP e da Bloomberg, o relatório projeta um salto de 113% no lucro por ação das empresas listadas na B3 no primeiro trimestre, em comparação a igual período do ano passado.

Nessa mesma base, a prévia aponta para crescimentos de 28,5%, no lucro operacional, e de 30,6%, em receita. Entretanto, se no plano geral as estimativas apontam para um trimestre de bons indicadores, no detalhe, o entendimento é de que, naturalmente, nem todos surfaram essa onda.

“Se olharmos como um todo, na comparação anual, o trimestre foi muito forte, mesmo mostrando uma desaceleração ou mesmo uma estabilidade em relação aos trimestres anteriores”, observa Li. “Mas, analisando por setor, o desempenho foi misto. Alguns segmentos foram mais resilientes e outros não.”

Os bancos figuram entre aqueles que devem traduzir esse cenário em bons indicadores. Além dos benefícios da elevação da taxa de juros, a XP destaca questões como um mix de crédito mais favorável, a recuperação contínua da receita de serviços no trimestre e a retomada da atividade econômica.

“Nessa mesma linha de retomada, os shopping centers também foram beneficiados”, diz Li, que cita questões como o avanço da vacinação e o fim das restrições de mobilidade como componentes que embasam a perspectiva otimista para os ativos do setor.

Um dos exemplos do segmento citados no relatório – que traz mais detalhes sobre empresas que já anunciaram suas prévias do trimestre – é a Multiplan. A XP tem recomendação de compra para a companhia que, entre outros números, divulgou uma projeção de vendas de R$ 4 bilhões no período, alta de 74,7% sobre igual período de 2021, e de 13,4%, sobre o primeiro trimestre de 2019, antes da pandemia.

Mesmo nos setores da economia nos quais o cenário externo trouxe boas notícias, há diferenças quando a análise leva em conta a divisão em subsegmentos. É o caso dos papéis ligados a commodities. A alta nos preços do trimestre favoreceu, por exemplo, as empresas de mineração e siderurgia.

Nesse campo, a XP tem recomendações de compra e prevê bons números para companhias como Vale e CSN, especialmente em função dos preços do minério de ferro. Há ressalvas, porém, sobre a continuidade desse quadro favorável, dada as incertezas sobre uma possível desaceleração da economia na China, em virtude dos lockdowns adotados recentemente no país.

“Ao mesmo tempo, em setores de commodities como papel e celulose, os preços cresceram, mas o custo de energia também subiu”, alerta Li. “Essa vai ser uma grande questão para todos os setores: quem irá conseguir repassar esses custos. E nem todos os ativos de commodities terão sucesso.”

Em papel e celulose, a XP tem recomendação de compra para a Klabin. Apesar de fatores como a pressão das margens, por conta do aumento dos custos de produção, os analistas destacam questões como a estratégia de redução de exposição ao mercado chinês.

Outro segmento que traz expectativas mistas é o varejo. Em um contraponto às projeções pouco animadoras para ativos mais ligados ao consumo doméstico, a XP vê resultados sólidos para ações ligadas ao varejo de alta renda, mais resiliente ao ambiente macro, como o Grupo Soma.

“As redes de farmácias também tiveram um impulso com a onda da variante de ômicron e o surto de influenza no trimestre”, diz Li. “Em contrapartida, os ativos de e-commerce vão apresentar um desempenho mais fraco, em virtude da forte base de comparação da pandemia.”

Apesar de observar que ainda é cedo para fazer qualquer projeção além dos resultados do primeiro trimestre, Li ressalta que alguns pontos de atenção no horizonte das empresas da B3. Em especial, aquelas ligadas às commoodities, a partir dos sinais enviados pelas restrições e quarentenas na China.

“Esse cenário está ficando cada vez mais preocupante”, afirma. “Se houver alguma flexibilização, poderemos ver alívio nos preços das commodities, mas, por enquanto, o que estamos vendo é muita volatilidade por conta dessas medidas.”

Leia também

Brand Stories