Sem o Assaí, a vida do GPA não está fácil

Em seu primeiro trimestre depois da cisão do atacarejo, o Grupo Pão de Açúcar sofre com a pandemia e entrega resultados que decepcionam os investidores. Para reverter o cenário, a empresa está investindo em frentes como o reposicionamento do Extra Hiper e em parcerias no e-commerce

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Em março deste ano, quando concluiu a cisão do atacarejo Assaí dos seus negócios de multivarejo, a expectativa do Grupo Pão de Açúcar (GPA) era de que essa última frente pudesse, enfim, destravar seu valor e conquistar a confiança dos investidores.

Com novas restrições e impactos gerados pela Covid-19, o primeiro trimestre da carreira solo trouxe, porém, um desafio adicional à operação, que, entre abril e junho, registrou um recuo de 95,9% em seu lucro líquido, para R$ 4 milhões, e de 5,3% na receita líquida, para R$ 11,8 bilhões.

Diante desse cenário, o GPA está se movimentando para driblar esses efeitos negativos e engatar uma trajetória mais positiva. Entre outras vias, esse caminho passa por alguns de seus principais formatos e bandeiras.

Uma delas, os hipermercados da marca Extra, nos quais o GPA começou a investir na consolidação do reposicionamento da bandeira. Em um resgate da assinatura “Mais barato Extra”, a estratégia é orientada pela redução dos preços e começou a ganhar mais velocidade há dois meses.

“Leva cerca de três a quatro meses para que o consumidor entenda que está mais barato, mas estamos convictos desse novo posicionamento”, afirmou Jorge Faiçal, CEO do GPA, em teleconferência com analistas. “Hipermercado caro hoje no País é hipermercado morto.”

Nesse processo, 58 das 103 lojas já estão integralmente reposicionadas e a expectativa é de que toda rede esteja coberta até o fim do terceiro trimestre deste ano. Faiçal também ressaltou que há uma confusão no mercado a respeito dessa guinada, que envolve, inclusive, uma eventual competição com o Assaí.

“Isso não significa, necessariamente, que o Extra quer ser um atacarejo”, afirmou. “Queremos ter essa percepção de preço barato, atrelada à experiência e que satisfaça a necessidade do consumidor em todas as categorias.”

Entre abril e junho, o formato registrou vendas de R$ 2,8 bilhões, com queda de 4,9% nas vendas de mesmas lojas. O grupo atribuiu o desempenho inferior às restrições mais severas geradas pela nova onda da pandemia e a comparação com a base forte registrada em igual período de 2020.

“Tivemos um pico excepcional no ano passado e, agora, um vale excepcional”, disse o executivo sobre a queda nas vendas. “Mas as lojas que já estão reposicionadas há mais tempo estão ganhando market share em suas regiões.”

Classificado pelo executivo como a joia da coroa do grupo, o Pão de Açúcar também sofreu com esse cenário no segundo trimestre. Mas sob uma perspectiva diferente. Com 181 unidades e vendas totais de R$ 1,9 bilhão, a bandeira registrou uma retração de 1,2% em mesmas lojas no período.

“O Pão de Açúcar tem um espírito de loja mais premium e sofreu um pouco com a evasão dos consumidores para outras lojas e formatos mais baratos”, observou Faiçal. “Mas essa é uma questão pontual. À medida que houver uma recuperação de renda e de emprego, vemos uma recuperação gradual nos próximos trimestres.”

Além da retomada do plano de expansão da marca, com a previsão de 50 novas lojas nos próximos três anos, um dos focos para a bandeira é a aposta da ampliação do conceito G7, baseado em recursos como a integração com os canais digitais do grupo, para mais 25 lojas até o fim de 2021.

À parte desses segmentos, o GPA conseguiu entregar números mais positivos justamente em sua estratégia digital. No trimestre, a área registrou um volume bruto de mercadorias (GMV) recorde de R$ 428 milhões, um salto de 32% na comparação anual. Nos últimos 12 meses, o GMV foi de R$ 1,4 bilhão.

Um dos destaques foi o e-commerce alimentar, com um crescimento de 32% e uma participação de 8,2% nas vendas totais da operação na categoria. Faiçal observou que reforçar a oferta de não-perecíveis é um dos próximos focos nesse segmento.

O executivo também destacou que um dos fatores por trás desses resultados foram as parcerias iniciadas no trimestre, especialmente na última milha das entregas. Esse leque envolveu acordos com Rappi, iFood, Cornershop, Supermercado Now, da B2W, e Mercado Livre.

“Estamos evoluindo em outras negociações e chegando em municípios onde não tínhamos operação”, afirmou. “Do incremento que tivemos de R$ 120 milhões do primeiro para o segundo trimestre, essas novas parcerias responderam por cerca de R$ 90 milhões.”

Ao mesmo tempo, esses acordos geraram dúvidas no mercado sobre o futuro da James Delivery, startup de entregas na última milha comprada pelo grupo no fim de 2018. Questionado, Faiçal disse que a empresa segue exercendo um papel importante na operação, mas com uma mudança estratégica.

“À medida que quebramos essa exclusividade, a James também pode fazer parcerias com outros varejistas”, ressaltou. “E ela manteve o seu faturamento e continua nos trazendo muito aprendizado nesse segmento.”

Em relatório, a XP destacou a fraca performance de vendas registrada pelo grupo no trimestre, mas ressaltou a rentabilidade acima da estimativa da operação brasileira do grupo.

“Apesar de termos uma visão positiva em relação às iniciativas do GPA e vermos riscos positivos para o papel, acreditamos que parte disso já está refletido no nível de valuation atual”, escreveram os analistas Danniela Eiger, Thiago Suedt e Gustavo Senday, que mantiveram recomendação neutra para o papel e preço-alvo de R$ 39 para as ações.

A reação do mercado ao balanço realçou, porém, o desafio à frente do GPA. As ações da companhia, avaliada em R$ 8,6 bilhões, estavam sendo negociadas a R$ 32,08 por volta das 13h, com queda de 5,45%.

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