Trisul entra em novos terrenos com “strip malls” e home equity

A construtora e incorporadora abre novas frentes com a aposta em centros comerciais e na oferta de crédito com garantia em imóveis. O CEO Jorge Cury explica esses projetos com exclusividade ao NeoFeed

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Jorge Cury, sócio, cofundador e CEO da Trisul

Prestes a completar 40 anos de carreira no mercado de construção e incorporação, Jorge Cury Neto ainda se lembra do conselho que ele e o irmão José Roberto ouviram do pai, Jorge, logo no início dessa trajetória, dado o histórico de instabilidade do País.

“Ele disse que a gente deveria ter sempre um pé no mercado financeiro e outro no mercado imobiliário”, conta Cury, ao NeoFeed. “Quando os juros estivessem altos, o lado financeiro navegaria com vento de popa, e quando estivessem baixos, o lado imobiliário navegaria com vento de popa.”

A dupla seguiu o ensinamento à risca. Cury é sócio, cofundador e CEO da Trisul, fruto da fusão das construtoras e incorporadoras Tricury e Incosul, fechada em 2007, dois meses antes do IPO da empresa. E José Roberto toca o banco Tricury, braço financeiro da operação. A dupla, juntamente com Michel Saad, forma o grupo de controle da Trisul.

Agora, em um cenário de taxa de juros novamente em viés de alta, pressão inflacionária e poder de compra reduzido, essa mesma lição está inspirando a estratégia da Trisul. A construtora e incorporadora paulista tem novidades nas duas frentes destacadas, lá atrás, pelo patriarca da família e os detalhes foram revelados com exclusividade ao NeoFeed.

A primeira das novidades envolve a Trisul Malls&Properties, nova operação dedicada à construção e à locação de centros comerciais. Já o segundo projeto é a T-cash, operação voltada à concessão de empréstimos na modalidade de home equity, com imóveis como garantia.

“Paralelamente ao nosso core business, que é comprar terreno, fazer empreendimentos, construir e vender, estamos com essas frentes novas para tentar agregar receitas à operação”, afirma Cury.

Na Malls&Properties, o foco da Trisul é o conceito de strip mall. Bastante difundido nos Estados Unidos e também chamado de open mall, o modelo envolve centros comerciais em áreas abertas, de fácil acesso e com estacionamentos. O mix tem poucas lojas e é focado em segmentos como mercados, drogarias, academias, fast food e serviços.

Em outubro, a empresa lançou seu primeiro empreendimento sob esse conceito, em Ribeirão Preto (SP). Batizado de Mall Ribeirão Preto, o centro tem lojas como Burger King, BlueFit, Domino’s e EspaçoLaser, e já está com 95% do seu espaço locado.

O Mall Ribeirão Preto, primeiro projeto da Trisul Malls&Properties

“Alguns fundos nos procuraram querendo comprar o empreendimento, mas ainda não decidimos se vamos seguir esse caminho”, afirma Cury. “Nós entendemos que existem cerca de 50 redes de conveniência no País, em vários ramos, e queremos buscar essas parcerias para colocar os strip malls de pé.”

Além do Mall Ribeirão Preto, a nova marca já tem projetos em andamento na capital paulista, em bairros como Pompeia, Paraíso, Vila Madalena e Vila Clementino. E tem outras iniciativas no radar no interior de São Paulo. “Já estamos olhando cidades como Itu, São José dos Campos e Sorocaba.”

Já na T-cash, braço de empréstimos de home equity que está em testes há cerca de três meses, a oferta está totalmente desvinculada do banco Tricury. Nessa área, a Trisul tem uma parceria com a LendMe, fintech que responde pela análise de crédito das operações.

A Trisul está concedendo créditos a partir de R$ 100 mil, com taxas a partir de 0,81% ao mês, mais o IPCA, e prazos de até 240 meses. O cliente pode financiar até 60% do valor do imóvel e tem até seis meses de carência para começar a quitar as parcelas do empréstimo.

“Nós criamos essa plataforma interna olhando o fluxo de caixa da Trisul para os próximos anos”, explica Cury. “É uma maneira de a empresa remunerar suas sobras de caixa, acima do CDI, e nós sabemos como avaliar um imóvel.”

A Trisul não é a única companhia do setor olhando para essa área. A Cyrela, por exemplo, criou a CashMe, que atua justamente nesse espaço. Fundada em 2017, a fintech ainda tem o grupo do empresário Elie Horn como controlador, mas já ganhou vida própria e hoje opera de forma independente.

Enquanto desenvolve essas frentes, a Trisul tenta lidar com os desafios em seu negócio tradicional, alimentados pelas perspectivas macroeconômicas pouco animadoras para o setor. No terceiro trimestre, o lucro líquido da empresa recuou 31% na comparação anual, para R$ 33,1 milhões.

A receita líquida teve uma queda de 25%, para R$ 190,2 milhões, e as vendas líquidas caíram 33%, para R$ 164,8 milhões. Em relatório recente, a XP ressaltou o recuo nesse indicador e os “resultados fracos” da empresa no trimestre. Mas manteve o rating de compra e o preço-alvo de R$ 14 para a ação.

Em linha com o desempenho de outros nomes do setor no ano, as ações da Trisul acumulam uma desvalorização de mais de 55%. Os papéis da companhia, avaliada em R$ 997 milhões, fecharam o pregão da quarta-feira, 24 de novembro, cotados a R$ 5,43, com alta de 0,7%.

Mesmo diante de um cenário mais restrito, a empresa lançou seis empreendimentos em 2021 e tem outros três projetos previstos para esse trimestre. “Estamos praticamente com R$ 1 bilhão em lançamentos e devemos fechar o ano com R$ 1,7 bilhão, dentro do nosso guidance”, diz Cury.

Para driblar esse contexto menos favorável, a Trisul tem se concentrado em empreendimentos nas zonas Sul e Oeste de São Paulo, voltados à alta renda.

“Hoje, nosso preço mínimo de venda é R$ 12 mil o metro quadrado, que é um mercado consumidor resiliente”, afirma. “Mas eu gostaria muito de voltar a fazer empreendimentos com preços entre R$ 6 mil e R$ 10 mil o metro quadrado, que são o carro-chefe do nosso mercado.”

Com um estoque de terrenos de R$ 5,5 bilhões, suficiente, segundo ele, para garantir bons produtos até 2024, Cury enxerga, no entanto, um horizonte ainda bem complicado para o setor nos próximos meses, com o agravante adicional das eleições presidenciais.

“Em 2022, em função desse cenário tumultuado, não sei se teremos chance de lançar o mesmo volume que fizemos nesse ano”, afirma. “Provavelmente, nossos lançamentos vão se concentrar mais no segundo semestre e esperamos que, em 2023, possamos ter um novo ciclo de crescimento.”

Nesta entrevista ao Conexão CEO, do NeoFeed, Cury traz mais perspectivas e tendências do setor, e fala sobre temas como as mudanças que vem sendo implantadas nos empreendimentos a partir de tendências trazidas pela pandemia, o braço de inovação aberta Trisul Lab e a nova geração da família que começa a ganhar espaço na empresa.

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