Turismo de isolamento faz surgir uma nova geração de “construtores”

Empreendedores e até hotéis investem em casas elegantes e confortáveis para atender viajantes em busca de privacidade e conexão com a natureza, uma tendência que deve se manter no pós-pandemia

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Na Casa Floresta é possível avistar o verde de todos os cômodos

Uma casa isolada, com paredes de vidro e muito verde à vista a partir de qualquer cômodo, da cama aos banheiros. Espaços confortáveis e elegantes minuciosamente pensados para que a sensação de conexão com a natureza seja constante. A Casa Floresta, construída e inaugurada pelo casal Bárbara Vaz e Raphael Hennies nos arredores de Bragança Paulista (SP), tem sido um case de sucesso desde sua abertura, no ano passado.

Destinada a viajantes de alto padrão que desejam manter o distanciamento social e aproveitar o máximo a integração com o verde, o imóvel dos sonhos do casal teve o “start” que precisava graças à pandemia. E está muito longe de ser exceção.

Nos últimos anos, a busca por chalés, casas-barco, yurts e até ryokans japoneses chegou a aumentar impressionantes 700% em alguns destinos internacionais. A popularização do termo “turismo de isolamento”, desde 2020, gerou crescimento sem precedentes nas buscas e reservas em sites e plataformas de aluguel de temporada também no Brasil.

Plataformas como Airbnb, VRBO e Booking divulgaram aumento de até 150% na busca por imóveis isolados para aluguel de temporada por período de curta e longa duração em 2020.

“A pandemia potencializou essa alternativa de hospedagem e é uma tendência que veio para ficar. Oferecer comodidades e serviços, além do aluguel em si, é cada vez mais importante para o consumidor final”, diz Eduardo Peluzo, diretor-executivo da Mérola, agência de viagem focada em imóveis de luxo.

Com esse boom na hospitalidade não convencional, empreendedores viram nas necessidades impostas e no novo estilo de vida e viagem trazidos pela chegada da Covid-19 uma oportunidade significativa de novos negócios.

A Casa Floresta nasceu no segundo semestre de 2021 pensada para atender este público. Rodeada por mata nativa, bosques, trilhas e cachoeiras foi construída de maneira sustentável, com o mínimo possível de impacto no terreno e contando com o próprio projeto de reflorestamento (10% da renda do imóvel é inteiramente destinada para isso).

A varanda da Casa Floresta

A casa conta com uma dispensa onde é possível comprar vários itens como chocolate, fondue e vinhos e tem uma cozinha equipada para o mais “gourmet” dos viajantes. A diárias custam a partir de R$1.021.

É a primeira empreitada do casal no setor da hospitalidade. “Nós nos encantamos com a ideia de ter um lugar que pudéssemos disponibilizar para outras pessoas. O início da pandemia foi o catalisador do processo, pois enxergamos ali uma grande oportunidade de acelerar o plano e construir a casa”, explica Bárbara que aluga a casa por meio das plataformas Airbnb e Holmy.

O sucesso do primeiro empreendimento já levou o casal a planejar a construção de um novo loft, também sustentável e na mesma área, que deve começar ainda este ano. Mais adiante, a ideia será expandir o modelo da Casa Floresta construindo novos imóveis em outros destinos no interior e no litoral de São Paulo. “O turismo de isolamento ainda vai ganhar muito terreno nos próximos anos, e estamos felizes de ser parte desse movimento”, afirmam.

Bárbara Vaz e Raphael Hennies caminham nos arredores da Casa Floresta

Um dos casos mais bem-sucedidos deste movimento no Brasil é a Nomad Place. O empreendimento de Halmer Marques. em São Bento do Sapucaí, nos arredores de Campos do Jordão, foi um dos primeiros do gênero a ser inaugurado em 2020 e vem crescendo desde então.

Quando a pandemia começou, ele construía com a mulher uma bela cabana de madeira com vista panorâmica para a serra da Mantiqueira, inicialmente pensada para uso próprio. Com a mudança de comportamento dos turistas e as restrições geradas pela pandemia, ainda em 2020, entenderam que destinar o imóvel para aluguel de temporada representaria um nova possibilidade de negócio importante para a família.

Assim começou a Nomad Place que foi se expandindo em uma dezena de imóveis similares para aluguel de alto padrão. Mesmo sem qualquer experiência prévia na indústria da hospitalidade, Halmer criou uma conta no Instagram enquanto ainda finalizava a obra. Hospedou influenciadores digitais quando lançou a primeira cabana e a rede social rapidamente se encarregou de espalhar a boa nova.

A Nomad Place é um case do turismo de isolamento com suas cabanas com vista para a Serra da Mantiqueira

Em 2021, o empresário inaugurou uma segunda cabana em modelo A-frame, uma casa cubo e diferentes acomodações em estilo domo, todos bem distantes entre si para manter o máximo de privacidade e distanciamento social possível.

As unidades todas contam com vistas panorâmicas para a serra da Mantiqueira, check-in e check-out sem contato, cozinha equipada, roupas de cama e banho sofisticadas e um providencial empório self-service para compras de última hora. O terreno de 50 mil m² ganhou também hortas, oliveiras e vinhedos. As diárias custam a partir de R$ 1.190.

Agora em 2022, Halmer inicia a construção de duas cabanas na árvore, um lounge em parceria com a cerveja Patagônia para hóspedes que chegarem antes do horário de check-in e deve lançar até o final do ano um projeto de restaurante na mesma área. Está negociando ainda terrenos em outras cidades da região para construir novas cabanas em outros destinos. Em abril, o empresário lançará novas unidades em São Roque (SP), com serviços de hotelaria agregados.

Da hotelaria tradicional para os imóveis de aluguel

Em 2019, pesquisa conduzida pela American Express Global Business Travel já revelava a tendência de propriedades hoteleiras investirem em novos formatos de acomodação menos tradicionais.

A casa de barcos virou loft com acesso apenas pelo mar na Pousada do Sandi

As inovações se deram tanto em hotéis que inauguraram chalés, acomodações-casulo e cabanas em suas propriedades originais, como também em hoteleiros que decidiram investir em separado no segmento de imóveis de temporada. Caso, por exemplo, da família proprietária da histórica Pousada do Sandi, em Paraty (RJ) que em 2021 lançou o complexo Villa Bom Jardim.

Eles viram nas mudanças de comportamento dos viajantes de 2020 para cá uma oportunidade de transformar seus imóveis de férias na Baía de Paraty em uma nova frente de negócios. Focado no público que preza o distanciamento social, mas não abre mão dos serviços de hospitalidade completos, o complexo transformou dois imóveis da família em villas para aluguel de temporada.

A suíte principal da Villa Jardim: hotelaria ganhando novas formas

A Villa Bom Jardim dispõe de uma estrutura completa com sete quartos. O Loft Bom Jardim tem três suítes, paredes de vidro e vista para o mar a partir de qualquer cômodo. O charmoso loft é a antiga casa de barcos, hoje totalmente convertida em uma luxuosa casa debruçada sobre o mar, a apenas dez minutos de barco do centro histórico de Paraty.

Os dois imóveis, com diárias a partir de R$ 9 mil, são acessíveis apenas por via marítima, isolados e completamente independentes. Localizados à beira-mar, estão espalhados por uma área de mata nativa de mais de 30 mil m² com direito a prainha privativa, trilhas e ruínas históricas de um forte.

As diárias incluem serviço de arrumadeira, cozinheira, governanta, caseiro e marinheiro. O hóspede define previamente o menu da estadia e a equipe se encarrega de fazer as compras, abastecer a despensa, preparar e servir todas as refeições – em louças Hermés, é claro, como gosta a família proprietária.

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