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Uma foto por minuto: o big brother do home office

Em tempos de coronavírus, com milhões de pessoas trabalhando em casa, a plataforma Sneek tem sido usada como uma ferramenta de vigilância para fiscalizar se os funcionários não estão “tirando um cochilo”. Qual é o limite da privacidade?

 

Sneek viu sua base de usuários crescer 250% em tempos de distanciamento social

Trabalhar remotamente é a única opção possível para milhões de pessoas que cumprem medidas de isolamento social como forma de achatar a curva de contágio do coronavírus. Mas o chamado home office, que soa como um grito de liberdade e privacidade para uns, pode se tornar uma verdadeira prisão com o abuso de determinadas ferramentas. 

Um dos melhores exemplos talvez seja o da plataforma Sneek, que foi desenvolvida para ser uma espécie de escritório virtual, mas que, “nas mãos erradas”, tem sido um instrumento de controle quase totalitário, tirando fotos dos usuários de minuto em minuto.

Essa atmosfera de vigilância à la “big brother” embora esteja ativa, nunca foi e ainda não é o objetivo da empresa, conforme explicou ao NeoFeed o cofundador do negócio, o inglês Del Currie, de 51 anos. 

De acordo com o empreendedor, que também é desenvolvedor, o negócio surgiu de uma necessidade interna. “Eu trabalhava numa empresa de software em que cada colaborador fazia sua parte de casa, que não necessariamente ficava na mesma cidade ou país, e precisávamos de uma solução para ficarmos conectados”, diz Currie.

Como não encontraram disponível nada que atendia à necessidade da equipe, criaram eles mesmo sua própria estrutura de trabalho virtual. O bom resultado interno impulsionou a vontade de compartilhar a ferramenta, que se tornou uma companhia em 2016, disponível a todos os usuários, em diferentes partes do mundo.

O grande diferencial da Sneek é que a câmera dos usuários fica constantemente ligada enquanto os usuários estiverem na plataforma. E ela pode ser configurada para tirar foto dos participantes a cada um ou cinco minutos.

Na versão paga, que custa cerca de US$ 83/ano ou US$ 8/mês, basta clicar sobre a foto para iniciar instantaneamente uma vídeo-chamada com aquele usuário. “É uma maneira de interagir com os colegas e enfrentar os sintomas de solidão e isolamento que às vezes acompanham o trabalho remoto”, reafirmou Currie.

Minimizando as críticas de vigilância, o fundador da empresa pontua ainda que os usuários têm total domínio de seus perfis, de modo que as ferramentas de fotos e vídeos podem ser desativadas quando bem desejarem. “Além disso, também permitimos que as fotos sejam pixeladas, caso alguém queira mais privacidade. São três níveis possíveis”, disse.

Embora soe invasivo para muita gente, a Sneek viu sua base de usuários semanais crescer 250% desde que a pandemia do coronavírus foi decretada, e já sonha em crescer mais. “Chegamos até aqui sem nenhum tipo de marketing, e esperamos que quando essa situação toda se acalmar, as empresas e empresários estejam mais abertos a adotar o home office como um modelo de trabalho real”, completou.

Currie também disse estar disposto e preparado para levantar investimentos com fundos de venture capital, e que é de seu interesse fazer a empresa crescer – atualmente são 15 funcionários trabalhando na companhia, mas nem todos full time. 

O que pode – e deve – ajudar na expansão do negócio é também a possível redução do preço da versão paga, o que já está em estudo pela companhia. Independentemente da cifra, a avaliação de profissionais segue a mesma.

O psicólogo canadense Colin Ellard acredita que essa possibilidade de ver e ser visto o tempo todo pode ser efetiva na parte de ajudar a criar uma rotina. “O que soa fácil, mas na verdade é um baita desafio”, disse ao NeoFeed.

Para ele, que é PhD em psicologia e professor da Universidade de Waterloo, a vigilância nos “coloca na linha”, mas pode ser opressora se for desmedida, e aí ir contra todo o propósito da coisa toda. 

Ciente de que o usuário tem o controle da ferramenta em suas mãos, o psicólogo rebate dizendo que, se um grupo, geralmente liderado por um indivíduo, estabelece determinadas regras, seria difícil algum dos membros “mais fracos” descumprir essas determinações.

“Se pensarmos que uma empresa está usando esse escritório virtual e o chefe estabelece que cada um deve configurar seu perfil para que tire uma foto a cada um minuto, acho pouco provável que um dos subordinados tenha coragem de ir contra a determinação, mesmo que o ambiente proposto se pareça democrático. As hierarquias das corporações se replicam no ambiente virtual”, afirmou ao Ellard. 

“As hierarquias das corporações se replicam no ambiente virtual”, diz Colin Ellard, professor da Universidade de Waterloo 

O estudioso canadense pondera ainda que é importante não demonizar essa ou aquela ferramenta, e entender como cada uma delas pode ser efetiva no auxílio da produtividade doméstica, mas sem que imponha um estresse desnecessário aos envolvidos. 

Também adepto ao home office, Ellard confessa que também teve dificuldade de se adaptar a esse sistema de trabalho e reconhece que ele não é o mais indicado para todo mundo.

“Há quem tenha necessidade do convívio social. Para essas pessoas, o Sneek pode ser uma ótima solução momentânea, mas não vejo funcionando a longo prazo, sobretudo para quem precisa de um ambiente ‘profissional’ e não dispõe desse luxo em casa”. 

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