Negócios

Uma trama de sabotagens nos bastidores do Softbank

O indiano Rajeev Misra, CEO do Vision Fund, do Softbank, teria orquestrado uma campanha para minar dois executivos que dificultavam sua ascensão na companhia, segundo o The Wall Street Journal

 

Antes mais conhecido por estar à frente do Vision Fund, maior fundo de tecnologia do mundo, com recursos de US$ 100 bilhões, o Softbank se acostumou, recentemente, a uma exposição bem menos positiva.

Nesse contexto, um dos estopins foi a abertura de capital fracassada da WeWork, uma de suas investidas, no segundo semestre de 2019.

Na sequência, vieram a desvalorização substancial da startup de escritórios compartilhados, o que só reforçou as dificuldades de outras empresas do portfólio do Softbank em Wall Street, como a Uber.

Essa situação trouxe reflexos não só para o grupo, mas também para a indústria de venture capital, que passou a ter suas estratégias de investimentos questionadas.

Nesta semana, o grupo japonês ficou novamente em evidência. E, mais uma vez, por ser citado em um caso polêmico.

Uma reportagem publicada pelo The Wall Street Journal traz uma suposta trama construída por Rajeev Misra, CEO do Vision Fund, para sabotar dois executivos que ele julgava serem empecilhos à sua ascensão no Softbank.

O material publicado pelo jornal americano é todo baseado em documentos e depoimentos de pessoas familiarizadas com a estratégia que teria sido adotada por Misra.

Os alvos das investidas do indiano eram Nikesh Arora, que, entre outras posições, ocupou a posição de presidente do Softbank, entre setembro de 2014 e junho de 2016. E Alok Sama, executivo com passagens no alto escalão da operação do grupo em Londres.

A dupla teria entrado na mira de Misra a partir de janeiro de 2015. Segundo um e-mail do executivo na época, citado pelo The Wall Street Journal, ele contratou o empresário italiano Alessandro Benedetti para ajudá-lo a orquestrar uma estratégia para minar seus adversários dentro do grupo.

Pelo serviço, Benedetti teria recebido, inicialmente, US$ 500 mil. Além da promessa de um bom cargo relacionado ao Vision Fund. O que não aconteceu e que estaria no centro agora dos questionamentos do empresário italiano.

O foco inicial foi Arora, que se opôs a um investimento do Softbank em uma empresa de entretenimento indiana, proposto por Misra.

Um dos episódios iniciais desse roteiro aconteceu em abril daquele ano, quando Benedetti teria montado uma armadilha na qual, uma ou mais mulheres atrairiam Arora para um quarto de hotel em Tóquio, equipado com câmeras. A ideia era obter imagens comprometedoras do executivo para, posteriormente, chantageá-lo. A tentativa, no entanto, fracassou.

Rajeev Misra, CEO do Vision Fund

Na mesma época, Benedetti contratou a K2 Intelligence LLC, uma empresa privada de inteligência, e um profissional particular, o suíço Nicolas Giannakopoulos, para investigar Arora e Sama.

O objetivo era divulgar qualquer descoberta constrangedora para a mídia. Para impulsionar essa campanha, foram contratados ainda os serviços da Powerscourt, uma agência britânica de relações públicas.

Entre outros resultados, essa “força-tarefa” conseguiu a publicação de um artigo no jornal britânico The Independent, em outubro de 2015. O texto tratava de negócios problemáticos de Arora no setor de telecomunicações.

Ao mesmo tempo, a estratégia também envolveu uma campanha junto a acionistas e investidores do Softbank, por meio de cartas públicas, que questionavam, entre outros temas, os investimentos de Arora em startups indianas e pediam uma investigação sobre eventuais conflitos de interesse.

Com o tempo, as cartas passaram a se concentrar também em Sama e a ter como destinatários investidores do Vision Fund. Especialmente quando o executivo passou a questionar as estratégias de Misra na captação de recursos para o fundo de US$ 100 bilhões.

Fruto dessa trama ou não, o fato é que Arora deixou o Softbank em junho de 2016. Três anos mais tarde, foi a vez de Sama se desligar do grupo.

“Essas são velhas alegações que contêm uma série de falsidades”, disse um porta-voz de Misra ao The Wall Street Journal. “O sr. Misra não orquestrou uma campanha contra seus ex-colegas”.

Um porta-voz do Softbank afirmou, por sua vez, que o banco investigou, durante vários anos, uma campanha de falsidades contra o banco e alguns de seus ex-funcionários. E acrescentou que a empresa irá analisar o conteúdo divulgado pelo jornal.

De Wall Street a Londres

Aos 58 anos, o indiano Rajeev Misra é formado em engenharia mecânica e computação pela Universidade da Pensilvânia, com um MBA em administração pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Antes de se tornar o braço direito de Masayoshi Son, CEO e fundador do Softbank, Misra cumpriu uma trajetória de mais de 20 anos em Wall Street, com passagens por bancos como Deutsche Bank, Merrill Lynch e UBS Group. Seu currículo inclui ainda empresas como o fundo britânico de hedge TCI e a gestora americana Fortress Investment Group.

Masayoshi Son, CEO e fundador do Softbank

O executivo chegou ao Softbank em 2014, como head de finanças. E passou a liderar o Vision Fund a partir de seu lançamento, em 2017. Misra comanda os destinos do fundo a partir de Londres, operação para a qual contratou muitas pessoas com quem trabalhou em Wall Street. Entre os funcionários mais antigos do Softbank, o grupo em questão é conhecido como a “Máfia do Deutsche Bank”.

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