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O desabafo do fundador do Softbank: “estou frustrado e impaciente”

Em entrevista à revista japonesa Nikkei Business, Masayoshi Son, o fundador e CEO do Softbank, reconhece os recentes insucessos, como o fracasso do IPO do WeWork e os maus resultados da Uber

 

O fundador e CEO do Softbank, Masayoshi Son

O fundador e CEO do Softbank, Masayoshi Son, está “frustrado e impaciente” pelo seu histórico de investimentos, segundo entrevista à revista japonesa Nikkei Business, publicada nesta segunda-feira, 7 de outubro. “Quando olho para o crescimento de empresas americanas e chinesas, sinto fortemente que não é bom o suficiente”, disse Son.

O desabafo de Massa, como é conhecido o fundador do Softbank, acontece depois que o WeWork cancelou sua abertura de capital sob fortes críticas dos investidores em relação à gestão da companhia e às práticas de governança corporativa da startup de escritórios compartilhados.

O fundador e CEO do WeWork, Adam Neumann, teve de renunciar e, desde o fracasso do IPO, cerca de 25% de seus 12,5 mil funcionários podem ser demitidos.

Não bastasse isso, os investidores questionaram a avaliação privada do WeWork, que era de US$ 47 bilhões. O IPO, caso fosse adiante, sairia por menos de US$ 20 bilhões.

“O fracasso do IPO do WeWork muda todo o cenário”, disse um empreendedor ao NeoFeed. “Agora, as empresas vão ser pressionadas pelos investidores a dar resultado. Não adianta despejar um caminhão de dinheiro e crescer, crescer, crescer a todo custo.”

Na América Latina, o Softbank lançou um fundo de US$ 5 bilhões e acelerou a criação de unicórnios na região, como são chamadas as empresas que valem mais de US$ 1 bilhão.

Com seus recursos, tornaram-se startups bilionárias a colombiana Rappi e as brasileiras Gympass, QuintoAndar e Loggi.

Incertezas

O Vision Fund, do Softbank, captou US$ 100 bilhões, no maior fundo de venture capital do mundo, em 2017, e investiu em mais de 80 startups de crescimento acelerado ao redor do mundo.

Cerca de três desses investimentos representam aproximadamente 30% do valor do portfólio do Vision Fund: Uber, WeWork e Didi, segundo a consultoria Astris Advisory Japan.

Tanto WeWork, como a Uber, não podem ser ainda considerados exemplos bem-sucedidos de investimentos do Softbank. Ao contrário. O WeWork, como citado, enfrenta diversos problemas. E os papéis da Uber, desde sua abertura de capital, em maio deste ano, estão sendo negociados com uma desvalorização de 30%.

O aplicativo de transporte, que teve um prejuízo de US$ 5 bilhões no segundo trimestre deste ano, chegou a ser avaliado em mais de US$ 70 bilhões por fundos de venture capital. A meta era abrir o capital debaixo de uma avaliação de US$ 120 bilhões. Hoje, a Uber vale US$ 50 bilhões na Bolsa de Nova York (Nyse).

Adam Neumann, fundador e ex-CEO da WeWork, que foi demitido depois do fracasso do IPO

“Elas estão apenas no começo. Sinto que há um tremendo potencial nelas”, disse Son, na entrevista ao Nikkei Business, referindo a Uber e ao WeWork.

Outras apostas do Softbank também não estão indo bem. O aplicativo corporativo Slack, que abriu o capital em junho deste ano, chegou a valorizar-se 48% no primeiro dia de negociação na Nyse. Hoje, as ações são negociadas com valor na casa de US$ 26, o mesmo do IPO.

Esses fracassos têm colocado também intensa pressão sob o segundo fundo do Softbank. O Vision Fund 2, anunciado em julho, quer captar US$ 108 bilhões.

Mas Massa está lutando para conseguir levantar esses recursos, segundo uma reportagem da Reuters. Até agora nenhum investidor assinou os compromissos de investimentos. Os únicos recursos, de US$ 38 bilhões, são do próprio Softbank.

“A radiação está se espalhando para todos os lugares”, disse Scott Galloway, escritor e professor da Universidade de Nova York, que está acompanhando de perto o debacle do WeWork, em entrevista à Reuters.

Remuneração

A situação do Softbank fica mais complicada devido a estrutura da captação do Vision Fund. Segundo uma reportagem do The Wall Street Journal, cerca de 40% do fundo, ou US$ 40 bilhões, é na forma de ações preferenciais (preferred stock), que promete um retorno de 7% ao ano.

Isso significa que, anualmente, o fundo precisa gerar US$ 2,8 bilhões para pagar essa rentabilidade. Até agora, não houve problema. Algumas saídas, como a indiana Flipkart, vendida para o Walmart, ou da Nvidia, garantiram os recursos.

Mas agora, com seu modelo em xeque, os especialistas se perguntam se haverá recursos suficientes para manter esse modelo de remuneração.

Masayoshi Son havia dito que estava contando com cinco ou seis IPOs de seu portfólio durante o ano fiscal que termina em março de 2020. E outros dez no ano seguinte.

Mas essa janela pode estar se fechando depois do colapso do IPO do WeWork. Além disso, muitos dos negócios do Softbank ainda queimam caixa e estão longe de serem lucrativos.

Jack Ma, fundador do Alibaba

O fundador do Softbank fez fama e fortuna por investir, em 2000, US$ 20 milhões no Alibaba, naquela época uma pequena empresa que viria a se transformar num gigante do comércio eletrônico chinês. Hoje, essa fatia vale mais de US$ 100 bilhões.

Son também chegou a ser o homem mais rico do mundo, com uma fortuna avaliada em US$ 90 bilhões por três dias, no começo dos anos 2000, auge das empresas pontocom. O estouro da bolha reduziu sua fortuna para US$ 1 bilhão. Correr risco parece ser a adrenalina do fundador do Softbank.

Massa diz com frequência que tem um plano de 30 anos para o Softbank e que sua visão se estende por mais de 300 anos. Mas, para chegar lá, terá de lidar com os problemas mais imediatos e presentes. E eles não são poucos.

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