“Vamos ter um show de horrores se a inflação seguir acelerando”, diz economista do Goldman Sachs

Em entrevista ao NeoFeed, Alberto Ramos, chefe de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs para América Latina, diz que não há alternativa para combater inflação a não ser aumentar os juros e que será muito difícil economia brasileira crescer em 2023

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Alberto Ramos, chefe de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs para América Latina

A diferença entre o remédio e o veneno é a dose, diz um velho ditado popular. Mas, no caso do combate à inflação, subir os juros, como acontece na maioria das economias do mundo, é um remédio amargo, mas a melhor opção. É o que defende o economista Alberto Ramos, chefe de pesquisa macroeconômica do Goldman Sachs para América Latina, em entrevista ao NeoFeed.

“O melhor caminho para se proteger o crescimento de médio e longo prazo é apertar a política monetária agora para baixar a inflação. Infelizmente, isso poderá ter um custo em emprego e atividade, mas não dá para deixar a inflação solta. Não se pode imaginar que não subir o juro nos levará ao nirvana do crescimento”, diz ele. “Vamos ter um show de horrores se a inflação seguir acelerando, porque é a inflação que vai corroer os pilares do crescimento no médio e longo prazo.”

Ramos avalia ainda que “será muito difícil a economia brasileira crescer em 2023” e que o melhor candidato para o mercado é aquele que tenha uma política macroeconômica que “dê incentivo e conforto ao investimento para que a economia possa crescer e com paz social.”

Mas Ramos pondera que os dois candidatos favoritos a vencer o pleito deste ano – o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – não têm sido transparentes em articular qual será a política macro caso sejam eleitos.

O Goldman projeta que desempenho da economia brasileira será influenciado pela desaceleração da economia global, pela estabilização dos preços das commodities, pelas condições financeiras domésticas altamente restritivas e pelo juro real acima de 7%.

E o cenário internacional não vai colaborar. É de 50% a probabilidade de a economia americana entrar em recessão em 24 meses. Para a Europa, o risco de retração está muito próximo de 50% no segundo semestre de 2022. O economista alerta ainda que se a inflação correr solta, a probabilidade de a economia mundial entrar em contração sobe a 80%.

Acompanhe os principais trechos da entrevista ao NeoFeed:

O mundo está em um trânsito sem fim entre inflação e atividade. Tem recessão a caminho?
A probabilidade de que a economia mundial entre em um período de contração continua aumentando. Se isso vier a acontecer, a recessão será relativamente curta e não muito profunda. Mas a probabilidade é alta. Hoje vivemos um período de incertezas extraordinariamente elevadas, com inflação muito alta em todas as regiões, todos os bancos centrais em processo acelerado de normalização da política monetária e com a tendência ao viés restritivo para desinflacionar a economia. Temos nos EUA um impulso fiscal negativo e, na Europa, o impacto direto e significativo da guerra na Ucrânia que afeta o suprimento e o preço do gás.

Qual é a probabilidade de a economia americana entrar em recessão?
A probabilidade nos EUA é de aproximadamente 30% nos próximos 12 meses. Em 24 meses, a probabilidade é de 50%. No caso da Europa, acreditamos que Alemanha e Itália vão, sim, entrar em um período recessivo. Para a Europa, vemos risco de retração muito próximo de 50% no segundo semestre de 2022. Mas o ritmo de desaquecimento vai depender do suprimento de gás para a região. Se o fornecimento de gás – através do gasoduto Nord Stream 1 – paralisar completamente, a probabilidade de recessão é muito maior. A considerar também que a China está em desaceleração e deve crescer 3,3% este ano, uma vez que a política de Covid Zero vem impondo várias restrições à atividade e à circulação de pessoas.

Os bancos centrais serão bem-sucedidos na batalha contra a inflação?
Certamente. Esse é o foco principal da ação dos bancos centrais. Inclusive, porque a contribuição que eles podem dar ao crescimento sustentado das economias é exatamente manter a inflação baixa.

A consequência é a retração da atividade…
Sim. Este é o canal pelo qual a política monetária reduz a inflação. Mas é preciso ficar claro que não é a política monetária que vai derrubar a economia. É a inflação que está derrubando a economia. A inflação está corroendo a renda real. Se deixar a inflação solta, a probabilidade de a economia mundial entrar em contração não é de 50%, mas de 80%. Infelizmente, subir o juro e praticar política monetária restritiva é uma receita que já se provou que funciona no Brasil e em todo o resto do mundo. É por aí que se desinflaciona a economia para, mais tarde, ter uma inflação baixa e estável e um juro mais baixo.

“É preciso ficar claro que não é a política monetária que vai derrubar a economia. É a inflação que está derrubando a economia”

Há um dilema entre combater a inflação e proteger o crescimento?
O melhor caminho para se proteger o crescimento de médio e longo prazo é apertar a política monetária agora para baixar a inflação. Infelizmente, isso poderá ter um custo em emprego e atividade, mas não dá para deixar a inflação solta. Não se pode imaginar que não subir o juro nos levará ao nirvana do crescimento. Vamos ter um show de horrores se a inflação seguir acelerando, porque é a inflação que vai corroer os pilares do crescimento no médio e longo prazo. Política monetária não tem impacto sobre o crescimento de médio e longo prazo. Inflação tem e é negativo.

Até onde o Federal Reserve (Fed), o BC dos EUA, deve elevar o juro? Será um ciclo curto?
A incerteza é muito grande em relação à inflação e à postura do Fed que se atrasou muito nesse processo. Hoje, os EUA estão com inflação de 9,1% e o juro real ainda é altamente negativo. A política monetária ainda não está mordendo a atividade. É muito acomodativa. O Fed deve elevar sua taxa básica a 3,25%/3,50% e para por aí, assumindo que veremos sinais crescentes de que a inflação está arrefecendo. A desaceleração da economia contribuirá para puxar a inflação para baixo, assim como a normalização da cadeia global de suprimentos. Mas há muita incerteza porque o banco central e o mercado erraram bastante na projeção de inflação.

A inflação pode surpreender para pior?
É possível que a inflação surpreenda tornando-se altamente inercial. Caracterizada por ampla disseminação com impacto nas expectativas de inflação e contaminando a formação de salários. E controlar uma inflação inercial toma algum tempo. Nessa circunstância, um banco central precisa acreditar que tem o instrumento certo para lidar com a inflação, assumir o juro como instrumento e, ao mesmo tempo, ser paciente porque leva tempo para trazer a inflação a um nível mais baixo. [Referindo-se aos EUA] provavelmente, uma inflação mais moderada e próxima da meta, só em 2024.

O que esperar para a inflação no Brasil?
Trabalhamos com 7,5% para este ano, considerando as medidas recentes de redução da tributação sobre combustíveis, energia e telecomunicações. As medidas têm impacto de 1,5 a 2,0 pontos percentuais para menos no índice deste ano. Se as medidas forem revertidas [como previsto], a inflação sobe um pouco em 2023. Projetamos 5,5%, ainda significativamente acima da meta. A inflação será um problema macro e um desafio para o Banco Central provavelmente até 2024.

“A inflação será um problema macro e um desafio para o Banco Central provavelmente até 2024”

Teremos mais um ano difícil pela frente…
A economia vai desacelerar bastante para o final de 2022 e o primeiro semestre de 2013 será muito difícil. Esse cenário é contratado pela inflação alta e condições financeiras bastante restritivas. Essas condições são validadas não só pela atuação do BC, mas pelo prêmio de risco em função da incerteza política e institucional que estamos vivendo. A economia surpreendeu positivamente no primeiro semestre deste ano, mas também houve um grau elevado de estímulos fiscais adicionais. Inclusive, as medidas aprovadas há duas semanas [PEC das Bondades] equivalem a 0,7% do PIB para ser descarregado na economia neste segundo semestre. Então, algum impacto as medidas vão ter, embora prejudiquem a dinâmica da política fiscal de médio e longo prazo. Claramente, se as medidas forem revertidas, em 2023 o impacto será o oposto. Mas acredito que parte dessas medidas não serão revertidas no ano que vem e isso traz mais preocupação fiscal.

E o crescimento econômico?
Desaceleração da economia global, estabilização dos preços das commodities, condições financeiras domésticas altamente restritivas, juro real acima de 7%, impulso fiscal menos positivo do que será neste ano e inflação ainda alta produzem um coquetel que tem um resultado: será difícil a economia brasileira crescer em 2023. Trabalhamos com algo entre 0% e 0,5% para a expansão do PIB no ano que vem. O crescimento será muito ruim. Para 2022 projetamos expansão de 2,1%.

Essa desaceleração era esperada?
Chegamos a avaliar que essa desaceleração ocorreria no segundo e no terceiro trimestre deste ano. Mas os preços de commodities deram um impulso à economia e houve contribuição da política fiscal. Há também uma mudança de comportamento do consumidor que nem captamos muito bem, mas que é um fato não só no Brasil, mas no mundo, e favorece o resultado deste ano. O consumidor típico, após quase dois anos de pandemia, passou a encarar a vida de outra forma. Hoje, com a questão da Covid-19 menos relevante, o consumidor vê o futuro muito incerto e decidiu aproveitar mais o presente. E mesmo que os preços de passagens aéreas tenham subido, as pessoas viajam, retomam hábitos. Isso significa que, no curto prazo, as pessoas estão gastando mais, talvez mais do que deveriam, mas esse gasto vai morder a renda. Portanto, depois desse momento de crescimento, a desaceleração do consumo virá.

No Brasil, o juro segue em alta? A reversão está no horizonte?
Esperamos alta de mais 0,50 ponto percentual na Selic em agosto, para 13,75%. Mas com o dólar sob pressão, a inflação mais resistente e os bancos centrais globais acelerando a normalização de suas políticas, o ciclo pode não terminar em agosto. A Selic pode subir um pouco mais, mas deve parar em torno de 14%. Na verdade, Selic a 13,75%, 14,0% ou 14,25% não vai fazer muita diferença. Será mais uma sinalização do BC para ancorar o câmbio. A grande interrogação não é quão mais longe o BC irá, mas qual será o orçamento de corte a partir do segundo semestre de 2023. Calculamos que haverá espaço para cortar uns 300 pontos-base (3 pontos percentuais), mas não dá para apostar.

É possível cravar em que momento o BC iniciará a redução do juro em 2023?
A incerteza é muito grande. Temos uma eleição pela frente. Se eu soubesse quem vai ganhar a eleição, certamente não saberia que tipo de política econômica será implementada. É uma grande interrogação. Os dois principais candidatos não têm sido particularmente transparentes em articular qual será a política econômica a ser adotada. Temos também a dinâmica da economia global, a própria guerra da Ucrânia e suas consequências e a inflação pressionada no mundo.

“Os dois principais candidatos não têm sido particularmente transparentes em articular qual será a política econômica a ser adotada”

Quais são os riscos a monitorar às vésperas da eleição no Brasil que embica para disputa entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
O mercado tem uma expectativa sobre o desfecho da eleição. O candidato Luiz Inácio Lula da Silva é o favorito [nas pesquisas de opinião] neste momento e é isso o que o mercado está precificando. As indicações são de que caminhamos para a volta de Lula à presidência da República. Seria uma surpresa se isso não se materializasse, se a eleição se tornasse bem mais competitiva nas próximas semanas e bastante polarizada e um desfecho diferente no pleito faria preço nos mercados. Mas o mercado deverá precificar também a dinâmica da campanha, dos debates, atento ao que seria o programa de governo dos candidatos. Pode ser que o mercado goste ou não goste do que for apresentado. Mas os dois candidatos sabem bem o que o mercado financeiro gostaria.

O mercado tem preferência?
O mercado não tem preferência pessoal por um ou outro candidato. O mercado quer uma política macroeconômica que dê incentivo e conforto ao investimento para que a economia possa crescer e com paz social. É disso o que o mercado gosta. O candidato que mais se aproximar desse ideal é o candidato do mercado. Não é uma relação de amigos. O mercado quer uma política econômica que melhore o futuro do país. O mercado vai fazer, sim, uma avaliação exaustiva dos programas de governo.

Voltando ao cenário global, quando aos investimentos financeiros qual é o impacto da atual turbulência econômica?
Os drivers não são favoráveis ao investidor. O risco de recessão global aumenta a aversão ao risco. O fato de os bancos centrais do G7 aumentarem suas taxas de juros torna mais atrativo investir em Treasuries a 3% a tomar risco em mercados emergentes e particularmente na América Latina. Na região, temos inflação alta, política monetária muito restritiva, crescimento desacelerando forte e com possibilidade de termos até alguma retração. O nível extremamente elevado de incerteza política e macro não constituem um ambiente conveniente para alocação de capital em mercado. Veja, o cenário bom é que não entra muita grana. O cenário ruim é que sai alguma.

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