Vida, morte e renascimento: a emergência na obra de Frans Krajcberg

Um ano após seu centenário, o artista e ativista é homenageado em exposição no MuBE, em que acende alerta sobre temas urgentes para a salvação do planeta

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Pelas mãos de Krajcberg, os resquícios das queimadas viram esculturas batizadas de “gordinhos”, “bailarinas” e “coqueiros”

Quem entra no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia pela avenida Europa se depara com duas carcaças de baleias que ficaram encalhadas na praia em Nova Viçosa, na Bahia. A ossada faz parte do acervo do artista polonês-brasileiro Frans Krajcberg, homenageado na mostra “Frans Krajcberg: por uma arquitetura da natureza”, que reúne cerca de 160 obras.

“Ele trabalhava com a ideia de resquícios de vida ou, a partir da morte, perceber uma nova motivação para a vida, para uma existência. A exposição reflete esse pensamento”, explica o curador da exposição, Diego Matos, ao NeoFeed.

Matos assumiu a curadoria do MuBE em janeiro deste ano e logo recebeu a missão de organizar a exposição sobre o artista, que já estava prevista no calendário do museu. Em 2021, comemorou-se o centenário de Krajcberg, mas a celebração no Brasil foi adiada devido à pandemia de Covid-19. No entanto, em Paris, o Espaço Krajcberg, dedicado à preservação e difusão da obra do artista, apresentou a mostra “PARIS 50-75 – Frans Krajcberg, um brasileiro em Montparnasse”, com obras produzidas na época em que o artista morou na capital francesa.

A exposição brasileira é mais abrangente. Há desde telas figurativas do início da carreira do artista, em que já demonstra um interesse pela paisagem e pelas formas da natureza, passando por relevos feitos em papel japonês, até as esculturas de madeira calcinada – parte mais conhecida da sua produção.

Em vez de retrospectiva, o curador prefere chamar a seleção de obras de antologia poética. “Porque tem uma prática discursiva da curadoria associada a uma leitura da obra sobre a arquitetura da natureza, que eu vejo na obra dele”, pontua Matos.

O curador teve apenas três meses para preparar a exposição. Sua primeira ação foi procurar trabalhos, principalmente das décadas de 1950 e 1960, pouco vistos no país, assim como suas pinturas figurativas. “Conforme o tempo passa, ele vai abandonando a figuração humana. Esse entendimento, de que ele quer se distanciar desse tema, tem a ver com a constituição de trauma do próprio artista”, afirma.

Logo na entrada do MuBE, a recepção de duas carcaças de baleias que ficaram encalhadas na praia em Nova Viçosa e que fazem parte do acervo do artista

Das armas aos pincéis
O exercício de usar a morte para pensar na vida não era apenas um processo criativo, mas de sobrevivência. Nascido na Polônia, em 1921, Krajcberg perdeu toda a família no genocídio contra os judeus na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sua mãe foi líder de um partido trotskista polonês e morreu enforcada pelos nazistas. Com ela, Krajcberg aprendeu que valia a pena viver e morrer por uma ideia. Foi a pé até a Rússia e lutou no exército soviético contra as tropas de Adolf Hitler na Batalha de Leningrado (1941-1942).

Quando a guerra terminou, em 1945, o artista foi estudar artes plásticas na Academia de Belas Artes de Stuttgart. Um dos professores recomendou que ele se mudasse para Paris, onde quem o recebeu foi o artista russo Marc Chagall. Na França, Krajcberg teve aulas com Fernand Léger. Entre o fim dos anos 1940 e começo dos 1950, mudou-se para o Brasil. Sem falar português, chegou a passar fome e morar na rua até ser acolhido pelo mecenas e industrial italiano Ciccillo Matarazzo.

Sabendo de seu conhecimento de arte, o fundador da Bienal Internacional de Arte de São Paulo o contratou para ser montador na primeira edição do evento, em 1951. Na 4ª Bienal, em 1957, Krajcberg voltou a participar da exposição, dessa vez como artista, recebendo do júri o prêmio de melhor pintura nacional. Depois voltou a morar na Europa, vivendo entre Paris e Ibiza, no litoral da Espanha.

Decidido em se fixar em Ibiza, recebeu a visita do arquiteto baiano José Zanine Caldas. O amigo disse a ele que precisava conhecer Nova Viçosa, no litoral da Bahia. Ali, no extremo sul baiano, Krajcberg encontrou seu pouso. Zanine Caldas desenhou para o artista a sua casa-ateliê sobre o tronco de um pequizeiro, chamada pelo morador de “Casa do Tarzan”.

Em favor da natureza
No fim dos anos 1970, junto com o artista iugoslavo Sepp Baendereck, Krajcberg navegou pelo Rio Negro, no Amazonas, e lá não viu apenas as belezas da floresta, mas se deparou com situações de desmatamento e crise ambiental. Desde os anos 1960, o artista se apropriava de elementos da natureza para criar seus trabalhos. A partir de pedras, terra e moldes de gesso das marcas do mar na areia, Krajcberg criava baixos relevos tachistas.

“Krajcberg trabalha esse material, que é recolhido em situações de devastação, e dá a ele condição de arte”

Após sua fixação em Nova Viçosa, no sítio Natura, os trabalhos começam a crescer. O artista recolhia troncos de árvores calcinadas em queimadas, que testemunhava nas matas, para dar à matéria orgânica novos significados – por que não uma nova vida? Pelas mãos de Krajcberg, os resquícios das queimadas viram esculturas batizadas de “gordinhos”, “bailarinas” e “coqueiros”.

“Ele não quer empobrecer a discussão da arte para dizer: ‘olha, isso aqui é uma denúncia'”, alerta o curador. “Enquanto artista, Krajcberg trabalha esse material, que é recolhido em situações de devastação, e dá a ele condição de arte. A denúncia vem porque, de fato, ele foi um ativista.”

Após ter contato com os trabalhos bidimensionais, o visitante pode passear pela “floresta Krajcberg” para ver as esculturas bem de perto. A maioria dessas obras tridimensionais presentes na exposição vieram do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), para onde o artista doou a maior parte de suas obras.

De acordo com o curador, Krajcberg tinha um controle muito rigoroso de suas obras e não as vendia para qualquer um. Boa parte do que está na exposição, que não é do governo baiano, vem dos acervos de galerias de mercado secundário como a Frente e a de Paulo Kuczynski , que passou mais de uma década garimpando obras do artista em leilões e coleções particulares.

As emergências atuais
O último momento da mostra reúne um expressivo conjunto de obras muito pouco vistas pelo público: esculturas feitas com cipó trançado. Os trabalhos foram desenvolvidos a partir de uma viagem feita ao Pará, onde ele conheceu uma comunidade popular, que não se sabe ao certo a origem, mas provavelmente vinculada a algum agrupamento indígena. As obras de grande escala lembram cestos usados para carregar crianças e para pescas.

A atenção e o respeito de Krajcberg aos povos originários também podem ser notados nas pinturas das esculturas feitas sempre com pigmento natural e usando padrões muito parecidos com os utilizados pelas tribos nas pinturas de pele. Respeito que parece ter desaparecido da nossa sociedade.

Só no primeiro trimestre deste ano, o INPE registrou o maior índice de alertas de queimadas em dez anos na Amazonia Legal. No ano passado, o Imazon já havia registrado um número de queimadas recorde na região. Este mês, Yanomamis denunciaram o estupro de uma menina de 12 anos, que teria sido violentada e morta por garimpeiros que exploram ilegalmente a região. Além disso, outras três crianças desapareceram.

“A arte reverbera, no seu tempo, as questões emergenciais com as quais convivemos. Seja na vida sociopolítica, seja numa questão cultural de um determinado momento”, afirma o curador. “Um dos nomes mais citados com ojeriza pelo presidente é o de Chico Mendes. Chico Mendes é homenageado por Krajcberg, em uma das obras presentes. É uma discussão da qual não temos como fugir. E claro que não podemos perder de vista que estamos em um ano eleitoral. A arte precisa estar no debate público, é necessário.”

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