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Insiders

“Zuckerberg é o que há de pior no Vale do Silício”

O indiano Vivek Wadhwa é considerado uma das mentes mais brilhantes do setor de tecnologia. Aclamado pela revista Time e pelo jornal Financial Times, ele não poupa críticas às big tech nesta entrevista exclusiva ao NeoFeed

 

Vivek Wadhwa, autor, professor e empreendedor indiano radicado nos EUA

Califórnia – O inimigo mora ao lado: para Vivek Wadhwa, autor, professor e empreendedor indiano radicado nos EUA, não tem essa de fogo amigo. Com morada fixa no Vale do Silício há dez anos, Wadhwa foi uma das primeiras vozes a alertar o mundo sobre os perigos das big tech e das redes sociais.

Formado em direito por Harvard e em engenharia pela Universidade de Carnegie Mellon, Wadhwa publicou diversos livros, entre eles “Felicidade Hackeada”, lançado em meados de 2018.

Interessado nos mais variados assuntos tecnológicos, como robótica, realidade virtual e inteligência artificial, o professor ganhou, em 2012, o prêmio de “cidadão americano exemplar por escolha” do próprio governo dos EUA e foi elencado como um dos principais pensadores do mundo pela revista Foreign Policy, em 2013.

No mesmo ano, foi a vez de a revista americana Time escolher Wadhwa como uma das mentes mais influentes do setor de tecnologia. Em 2015, o jornal britânico The Financial Times  reconheceu o seu talento. Ele ficou em segundo lugar em uma lista de “dez homens que vale a pena emular”.

Todas as suas conquistas foram amparadas na coragem de falar contra as empresas mais poderosas do mundo, como fez novamente ao NeoFeed, quando atacou Amazon e Facebook: “Essas empresas precisam ser regulamentadas. Zuckerberg é um garoto mimado, desconectado da realidade.”

Confira a entrevista exclusiva.

Você se diz o maior crítico e fã do Vale do Silício, região onde escolheu morar cerca de dez anos atrás. Como a vivência aqui o mudou?
Vim pra cá com o objetivo de estudar, queria entender esse que é considerado o polo da inovação mundial. No começo eles não eram nada abertos ou receptivos a imigrantes e eu entendi rapidamente que no Vale do Silício o bem e o mal andam lado a lado. Tem gente maravilhosa aqui, mas também há quem só pense em dinheiro e faça tudo pelo lucro. Essas pessoas corrompem o sistema.

E o que você faz para mudar isso que enxerga de uma posição tão privilegiada?
Eu escrevo e falo sobre esses problemas o tempo todo. As pessoas no poder, aqui, são homens desconectados do mundo. Eles não vêem pobreza, miséria e não têm a menor ideia do que seja o mercado emergente. Nunca poupei crítica a ninguém e a nenhuma empresa. Ao mesmo tempo faço o possível para apoiar empreendedores com projetos éticos.

“Eu entendi rapidamente que no Vale do Silício o bem e o mal andam lado a lado”

Já tentaram lhe silenciar?
É óbvio que muita gente não gosta de mim e não gostam do que eu falo, mas ninguém deixa de me responder. Não porque sejam bons, mas porque sabem que, quanto mais calarem, mais alto eu falo.

Você condensou muitas dessas críticas no livro “Felicidade Hackeada”, lançado no ano passado. Muita coisa mudou de lá pra cá. Faria hoje alguma atualização na obra?
Eu fui um dos primeiros a abordar esse tema e a jogar luz nos problemas trazidos pelas redes sociais e pelas big tech. O discurso da sociedade mudou bastante ao longo desse tempo. Mark Zuckerberg, por exemplo, era muito bem quisto em quase todas as camadas da sociedade e ele não conta mais com esse prestígio.

Então estamos no caminho certo?
Nós mudamos o discurso e aceitamos a perversidade das grandes empresas de tecnologia, mas não estamos fazendo o suficiente.

Quais seriam os problemas trazidos pelas gigantes do Vale do Silício?
Em poucos anos teremos robôs fazendo virtualmente tudo o que até hoje apenas os humanos são capazes de fazer com as mãos. Estamos falando de milhares de motoristas desempregados por carros autônomos e linhas de produção controladas inteiramente por robôs. Estamos brincando com o genoma humano, “editando” bebês, sem entender as implicações que vêm com tudo isso. Ao meu ver, não estamos dimensionando o problema.

Partindo desse raciocínio, existe algo que a tecnologia não pode replicar?
A empatia. O amor e o cuidado que temos uns com os outros, isso máquina nenhuma jamais seria capaz de reproduzir.

E não seria essa empatia, portanto, a nossa salvação diante desse mundo tecnológico?
Gosto de acreditar que sim, mas é tudo uma questão de escolhas. Podemos acabar num mundo parecido com aquele do filme Mad Max, onde matamos uns aos outros por recursos básicos, ou então viver numa sociedade como a de Star Trek, onde exploraremos as estrelas sem nos preocupar com o mínimo.

Mas uma sociedade sem trabalho não seria também preocupante?
Por que temos que associar trabalhos apenas a fábricas e escritórios? Por que não podemos pensar em buscar conhecimento, iluminação e arte? Em servir ao próximo? Vivemos num mundo que admira milionários que esbanjam suas posses nas redes sociais, mas por que não admiramos intelectuais, pessoas engajadas em fazer o bem? É, de novo, uma questão de escolha.

Então o próximo “Vale do Silício” não vai ser sobre tecnologia e dinheiro, mas sobre humanidade e fazer o bem?
É o que espero, e isso pode acontecer em qualquer lugar, não apenas na Califórnia. Espero, mesmo, que vivamos em um mundo onde ajudemos uns aos outros.

“Zuckerberg é o que há de pior no Vale do Silício. Ele se acha um Deus. É um garoto mimado que ganhou dinheiro e poder demais”

Acha que a regulamentação dessas gigantes é um primeiro passo?
Com certeza. O Facebook e a Amazon não podem ter tanto valor e tanto poder. O Facebook chegou ao ponto de influenciar eleições e ele é liderado por uma pessoa alienada. Zuckerberg é o que há de pior no Vale do Silício. Ele se acha um Deus. É um garoto mimado que ganhou dinheiro e poder demais.

Você está no Facebook?
Tenho uma conta na rede social, sim, mas não acesso faz anos.

Há quem defenda a autorregulação…
Eles não vão se autorregular. Os governos precisam liderar essa mudança. Esse extremismo de esquerda e de direita, por exemplo, só existe por conta das mídias sociais, que criam bolhas e escolhem o que você lê e com quem interage. O que deveria nos unir, tem apenas nos distanciado. Não deveria ser permitido ao Facebook compartilhar notícias nem coletar os seus dados.

Mas não acha que as pessoas podem considerar a interferência governamental como um ato de autoritarismo? No Brasil, o WhatsApp chegou a ser momentaneamente bloqueado por decisão judicial em algumas oportunidades e isso causou uma certa revolta…
Claro, porque você tirou do povo algo que os pertencia. Agora, se em vez de bloquear o sistema, vocês tivessem apreendido os executivos da empresa. Acha que alguém se importaria? O alvo tem que ser as corporações, nunca os usuários – e eles sabem que é para o próprio bem da sociedade. Ninguém se importa com as multas e penas aplicadas a essas gigantes. Mas acho que a regulamentação tem que ser diferente em cada país…

Como assim, professor?
Por que o uso dessas empresas é diferente em cada lugar. No Brasil, por exemplo, o uso do WhatsApp é muito significativo, como você mesma falou. Mas aqui nos Estados Unidos, são poucas as pessoas que fazem uso da rede. Então essa história dos grupos no WhatsApp tem de ser moderados no Brasil, mas não necessariamente nos EUA.

Se acabarmos com o monopólio das gigantes, como Amazon, Apple e Google, abriremos espaço para outras empresas menores – e isso estimula a inovação

Mas tanta regulamentação não pode minar a inovação?
Sim e não. Pode limitar certas tecnologias, mas vai pedir ainda mais inovação para que as empresas consigam criar algo relevante dentro das diretrizes. Olha, o Facebook é a empresa menos inovadora de todas, porque não tem concorrente. Se acabarmos com o monopólio das gigantes, como Amazon, Apple e Google, abriremos espaço para outras empresas menores – e isso estimula a inovação.

Essas empresas estão colocando bastante energia em trazer a diversidade para seu quadro de funcionários…
Mas já é tarde demais. Eles deveriam ter colocado mulheres, imigrantes e negros em posições de liderança anos atrás. Agora essas empresas já são poderosas demais.

Dito isso, você ainda está esperançoso com o futuro?
Estou esperançoso e preocupado ao mesmo tempo, na mesma medida. Os próximos três anos serão difíceis, e veremos as escolhas que faremos como sociedade…

Você tem falado, palestrado e escrito muito sobre todas essas questão. Existe alguma pergunta-chave que gostaria que lhe tivessem feito?
Nesse tempo todo me fizeram as perguntas certas e eu acredito ter dado as respostas certas, mas ninguém está ouvindo.

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