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Inovação

Entrevista: João Doria explica como pretende erguer um Vale do Silício na capital paulista

O governador de São Paulo detalha o plano para transformar o Ceasa, maior entreposto de alimentos da América Latina, em um hub de inovação

 

João Doria, governador de São Paulo, planeja criar um hub de inovação onde hoje funciona o entreposto de alimentos Ceasa

O Vale do Silício, na Califórnia, é o berço de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo: Apple, Google, Facebook, Uber, entre outras gigantes. Austin, no Texas, virou sinônimo da economia criativa nos Estados Unidos. Tel-Aviv, em Israel, tem o maior número de startups por metro quadrado. Shenzen, na China, se tornou o centro das inovações que surgem na Ásia.

Na América Latina, ainda falta um local que assuma esse papel. Se depender, dos planos do governador de São Paulo, João Doria, a capital paulista poderá assumir esse protagonismo. “Embora tenhamos duas regiões muito avançadas nesse sentido como São Carlos e São José dos Campos”, diz Doria ao NeoFeed.

Além dos planos de digitalizar todos os processos da máquina pública e agilizar a abertura de empresas para que floresçam cada vez mais startups no Estado, ele pretende transformar o atual espaço ocupado pelo Ceasa, maior entreposto de alimentos da América Latina, em um grande hub de inovação.

“Ali teremos um Vale do Silício urbano, verticalizado e totalmente focado para um mundo digital”, afirma. Batizado de Centro Internacional de Tecnologia e Inovação (Citi), ele ocupará uma área de 650 mil metros quadrados e, de acordo com o governador, já despertou o interesse de empresas como Google, IBM e Microsoft. “O nosso objetivo é que a implantação dessa área possa começar em 2021, parte dela já esteja pronta em 2022 e a conclusão aconteça em 2024.”

Doria recebeu o NeoFeed no Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista, e atacou a burocracia que impera no poder público, explicou como pretende incentivar o empreendedorismo e fez questão de falar da Reforma da Previdência. “A meu ver, ainda em uma estimativa inicial, acredito que, em quatro anos, o Brasil possa ter R$ 3 trilhões de novos investimentos.” Acompanhe a entrevista:

Tanto nas campanhas eleitorais e no dia a dia dos governos brasileiros, temas como inovação e transformação digital não são tratados como motores propulsores para o crescimento do País. Por quê?

É um tema importante, mas passa ao largo dado aos temas mais emergentes da política pública, saúde, educação, economia, projetos de lei e Reforma da Previdência. Então, a indústria 4.0 acaba não surgindo. Mas vale uma lembrança aqui. Esse foi o tema do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Toda a estruturação do fórum, que aconteceu em janeiro, com os líderes mundiais, tanto da política como do setor privado, foi 4.0. Aqui em São Paulo estamos sintonizados, linkados e estimulando bastante para que essa progressão digital seja acelerada. Sobretudo, tomando como base preferencial o empreendedorismo.

Por que o empreendedorismo?

Há que se eleger prioridades. Num País, num estado e em governos com pouco dinheiro, tem que se eleger prioridades para poder fazer bem feito. Caso contrário, vai ter muitas áreas de atuação e nenhuma delas com bom foco e condições de investimentos adequados. Então aqui, a prioridade da nossa Secretaria de Desenvolvimento Econômico, liderada pela Patricia Ellen, que é uma entusiasta da indústria 4.0, é trazer o foco para a indústria do empreendedorismo.

Em quais áreas?

Serviços, comércio e, obviamente, no plano industrial. E nesses campos há que se acrescentar também a inovação tecnológica a serviço da população. É o Poupatempo tecnológico. É aquilo que o governo de São Paulo já fez, e bem, nos últimos 15 anos, e que agora começa a implantar para o empreendedor, para facilitar a sua vida o acesso à tecnologia. E para facilitar também o ingresso desse empreendedor no mundo dos negócios.

Como isso vai funcionar?

Reduzindo burocracia, digitalizando processos, facilitando a abertura de empresas.

Mas diminuir a burocracia não é fácil. O Estado tem muitas amarras… Como fará isso?

Com mãos de ferro. Senão a burocracia engole você. Porque ela coloca tanto medo e ela tem tanta paúra de Ministério Público, da Justiça, de ativistas, de jornalistas, que é melhor não fazer. Crie dificuldade para garantir sua identidade ou, principalmente, para poder vender facilidades. Você tem os dois campos. A maioria são pessoas honestas que atuam no setor público. Mas morrem de medo de sofrerem penalidades de Ministério Público, da Justiça ou serem acusados de estarem fazendo coisas erradas. Nesse caso é melhor você se proteger com a burocracia. E tem os sem-vergonhas que, lamentavelmente, usam isso para vender facilidades.

E como combater esse sistema?

Tem que colocar o mundo digital a serviço das pessoas com transparência, eficiência e velocidade. E com determinação também. Aí é posição de governo. Se você tem um governador, um secretário de Estado, um dirigente público, um prefeito, um presidente da República que toma decisão de combater a burocracia, aí sim você consegue vencê-la. Caso contrário, ela vai vencer.

“Tem que colocar o mundo digital a serviço das pessoas com transparência, eficiência e velocidade”

Mas o que será, efetivamente, feito nesse sentido?

Todos os processos serão digitais a curto e médio prazo. Os programas de abertura de empresas vão seguir o mesmo ritmo do que fizemos na prefeitura de São Paulo, reduzindo a burocracia e eliminando a documentação. Em São Paulo, na capital, a maior cidade da América Latina, quando assumi como prefeito, em janeiro de 2017, eram necessários 126 dias para abrir uma empresa. Hoje, em três dias você abre uma empresa, é um padrão mundial. Não estamos felizes, queremos que isso seja reduzido para um dia. Essa é a nossa meta, não só na capital, mas em todas as cidades do Estado.

Voltando à inovação, o governo de São Paulo fez um vídeo para mostrar no Fórum Econômico de Davos que retrata um Estado moderno e pujante. Mas ainda falta um protagonismo para ser reconhecido como o Vale do Silício brasileiro. O que será feito para isso?

Você tem razão nessa observação, embora tenhamos duas regiões muito avançadas nesse sentido como São Carlos e São José dos Campos. São duas cidades muito preparadas tecnologicamente falando. O que vamos fazer na capital de São Paulo é criar o Centro Internacional de Tecnologia e Inovação (Citi). Será implantado onde hoje é o Ceasa. Ele sairá de lá, a área é federal, e num entendimento com o governo federal e com o governo municipal, vamos transferir o Ceasa para uma área seis vezes maior do que ocupa hoje, com mais condições logísticas e com menos transtornos para a vida dos habitantes do seu entorno. A começar pelo volume de caminhões que entram e saem do Ceasa diariamente e ocupam vias públicas e as Marginais Tietê e Pinheiros quando podem estar próximos do Rodoanel e com isso teriam acesso ao porto de Santos e o novo Ferroanel que será implantado em São Paulo.

Como seria o Citi?

Essa é uma área de 650 mil metros quadrados, de fácil acesso, rica do ponto de vista da geografia da cidade. Ali será o Citi. Bancado pelo setor privado, os governos federal e estadual entrarão com o terreno, o espaço físico, e o governo municipal com a força regulatória. Ali teremos um Vale do Silício urbano, verticalizado e totalmente focado para um mundo digital.

Quando isso sairá do papel?

O nosso objetivo é que a implantação dessa área possa começar em 2021, parte dela já esteja pronta em 2022 e a conclusão aconteça em 2024. Leva um pouco de tempo porque são obras caras que serão financiadas pelo setor privado, mas, em três anos, teremos a primeira fase pronta e, na sequência, uma segunda e última fase igualmente pronta. Ali teremos também a Fatesp; o Centro de Tecnologia do governo do Estado de São Paulo através da USP; a Embrapa, que também tem um fator muito importante no agribusiness. São Paulo tem uma produção expressiva, 22% de toda a produção agrícola do País está em São Paulo e vem crescendo graças à tecnologia. É a tecnologia no campo que vem permitindo aos agricultores, em suas diferentes áreas de atuação, evoluir tecnologicamente reduzindo custos e melhorando a produtividade, mesmo com as dificuldades logísticas, funcionais e de legislação no País. Então a Embrapa, que é uma instituição de grande seriedade e respeitabilidade internacional, terá seu espaço lá.

Alguma empresa se mostrou interessada pelo espaço?

Várias. Já conversamos com todas as empresas de tecnologia que estão no Brasil e 99% delas estão em São Paulo. De IBM a HP, de Google a Microsoft, o interesse manifestado por todos é estarem presentes nessa área. Por isso, é um projeto de médio prazo, mudanças e consolidações não se fazem da noite para o dia. Ao passo que teremos essa fase um já com a presença dessas marcas internacionais e na fase dois, certamente, a maior parte delas. E não excluo aqui empresas brasileiras e de outras fontes, além das americanas, como as chinesas, europeias e japonesas.

Em abril passado, na conferência Brazil at Silicon Valley, realizada em Stanford, o gestor do fundo Sequoia, um dos maiores venture capital do mundo, afirmou que investe pouco no Brasil porque faltam engenheiros de software por aqui. Como resolver esse problema?

Criando um ambiente adequado, oportunidades de emprego e condições salariais adequadas. A maioria dos engenheiros brasileiros, com excelente formação, foi trabalhar fora do Brasil. Estão nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia, no Oriente Médio. São grandes valores de inteligência brasileira, mas que, infelizmente, não encontraram aqui uma oportunidade remuneratória adequada e um ambiente adequado para a produção de seus trabalhos. À medida que o País melhorar a sua condição sócio-econômica e, por isso, mais uma vez aqui registro o nosso apoio a Reforma da Previdência para que possamos ter novos investimentos, destravar o Brasil, garantir uma política fiscal melhor e trazer investimentos internacionais poderosos, aí sim o País ganha uma dimensão relativamente rápida para a retomada do crescimento e para voltar a ser atraente aos talentos nacionais e internacionais.

Mas o que será feito para desenvolver esses profissionais?

São Paulo já está fazendo através do Centro Paula Souza, das Fatecs, das Etecs e da Universidade de São Paulo. A USP é um centro de excelência que tem o nosso apoio e tem a respeitabilidade acadêmica internacional. E é bem desenvolvida no plano tecnológico. Nós temos valores de inteligência tecnológica na pesquisa e na ciência que podem representar esse fator de atratividade desde que o País destrave para novos investimentos. Talentos custam e talentos querem perspectiva. E perspectiva se traduz em desenvolvimento econômico. Havendo perspectiva para isso, os talentos voltarão.

O senhor tem ideia de quanto investimento poderá vir para o Brasil, caso a Reforma da Previdência seja aprovada?

A meu ver, ainda em uma estimativa inicial, acredito que, em quatro anos, o Brasil possa ter R$ 3 trilhões de novos investimentos. É uma visão otimista, eu reconheço, mas é realista se considerarmos que o mundo está saudável, o mundo financeiro tem disponibilidade para investimentos, tem poucas opções no plano mundial e o Brasil é uma majestosa opção desde que ofereça confiabilidade, segurança jurídica e boas oportunidades. Sobretudo, diante de um País que pode ter o crescimento como a sua pauta e não a recessão e uma visão pequena e equivocada como infelizmente ocorreu nos últimos 14 anos.

Muita gente critica o senhor e outros políticos por usarem muito as redes sociais. Qual é a opinião do senhor sobre isso?

Eu respeito, mas estão mais para equivocadas do que acertadas. O mundo hoje é digital, dar transparência aos seus atos, dialogar, comunicar, não significa que essas pessoas que recebem essas mensagens são necessariamente obrigadas a concordar com você. Mas elas estão informadas sobre o que você está fazendo, é justo e é direito. E elas podem também deletar. A crítica não me parece com fundamento nesse sentido. Prefiro a crítica daqueles que, ao receberem as comunicações que fazemos, possam concordar ou discordar. Ou possam aprimorar oferecendo sugestões e contribuições para melhorar a qualidade do nosso governo. Aí sim a crítica é construtiva. Simplesmente criticar um dirigente público como eu, que tenho 5 milhões de seguidores nas redes sociais e faço uso delas, não me parece uma situação amparável. Parece mais uma crítica daqueles que, num outro extremo, a extrema esquerda critica alguém que, na visão de centro, quer produzir qualidade e quer dar transparência aos seus atos de governo.

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