Negócios

As estrelas da carteira global do Opportunity

Uma das maiores gestoras de renda variável do Brasil, com R$ 45 bilhões sob gestão, o Opportunity criou uma estratégia voltada exclusivamente para companhias internacionais. O sócio Vinicius Ferreira explica a tese por trás de cinco empresas investidas

 

Quando Jeff Bezos, fundador da Amazon, anunciou que deixaria o cargo de CEO da companhia, em fevereiro deste ano, os investidores da empresa reagiram mal, resultando em um movimento de venda das ações. No dia seguinte, os papéis negociados na Nasdaq caíram 1,9%.

Aqui no Brasil, o gestor Vinicius Ferreira, sócio do Opportunity e responsável pela estratégia de ações internacionais da gestora, também não ficou tão satisfeito com a notícia, mas concluiu que a saída de Bezos do cargo de CEO da Amazon não alterava as boas perspectivas que tinha para a empresa, uma das suas investidas.

“Bezos é o maior gênio empresarial da sua época. Quanto mais ele estiver envolvido no negócio, melhor”, afirma Ferreira, ao NeoFeed. “Mas ele seguirá como presidente do conselho e as pessoas que permanecerão na empresa também são fantásticas e foram formadas na Amazon desde o início.”

Por essa e outras razões, Ferreira mantém a Amazon como parte da sua carteira de cerca de R$ 5 bilhões investidos no exterior. Em 12 meses, os papéis da companhia sobem 11% na Nasdaq.

Fundado em 1994 no Rio de Janeiro e com um total de R$ 45 bilhões sob gestão, o Opportunity passou a contar com uma estratégia dedicada a ações de empresas estrangeiras só em 2015. Atualmente, a gestora conta com dois fundos, o Global Equity USD, em dólar, criado em 2016, e uma versão ‘hedgeada’ em real que surgiu dois anos depois.

Na hora de escolher as empresas que entram e as que saem da carteira, o time de Ferreira analisa cada companhia no detalhe, para entender com profundidade os seus indicadores microeconômicos, em detrimento do contexto macroeconômico, uma filosofia que o mercado chama de “bottom-up” (de baixo para cima).

“Procuramos empresas de qualidade, que tem bom posicionamento competitivo, crescimento estrutural e são bem administradas”, afirma Ferreira.

Por enquanto, não dá para reclamar do desempenho. O Global Equity acumula rentabilidade de 154,39% em dólar desde o seu início, quase seis vezes o resultado do seu benchmark, a Libor +3, uma taxa de juros média calculada pelos principais bancos de Londres, para depósitos em dólar e períodos de três meses. Em 12 meses, o avanço é de 16,3%, contra 3,25% para a Libor +3.

Para manter a carteira equilibrada, algumas regras básicas precisam ser respeitadas. O número de companhias investidas, por exemplo, deve girar em torno de 20. Além disso, a maior posição não pode passar de 15% do total. A menor, por sua vez, não pode ser inferior a 3%.

A companhia que conta com a maior convicção por parte do time de Ferreira é o Google, com algo próximo de 15% de participação na carteira. “É uma empresa com qualidade inegável e que se beneficia de uma tendência estrutural na qual tudo está migrando para a internet e sendo digitalizado”, afirma o gestor. Em um ano, as ações do Google na Nasdaq subiram 65,10%.

Outras apostas do time de analistas do Opportunity são o Facebook, que acumula rentabilidade de 37% em 12 meses na Nasdaq, e a DoorDash, aplicativo de delivery que abriu capital na Bolsa de Nova York em dezembro do ano passado e desde então tem queda de 7,39%.

Sim, a maior parte da carteira global do Opportunity está nos EUA. E de propósito. Um dos objetivos da estratégia é manter cerca de 80% da sua posição nos mercados americano e europeu – atualmente, não há nenhuma empresa da Europa na carteira.

Vinicius Ferreira, do Opportunity

Em outras regiões, uma das investidas da gestora é a Mercari, um marketplace japonês de produtos usados que tem 60% de participação no país asiático. Em 12 meses, os papéis da companhia sobem 26,7%.

Confira um resumo da tese de investimento de cada uma dessas cinco empresas citadas, nas palavras de Vinicius Ferreira:

Amazon

A Amazon é uma empresa dominante em sua atuação no e-commerce. Embora tenha perdido um pouco de market share durante a pandemia, com o avanço de outros competidores, não houve uma mudança significativa. A empresa não cresceu mais por uma questão de capacidade para aguentar o aumento da demanda durante a pandemia, mas tem feito investimentos em logística para ampliá-la.

O plano da empresa é elevar em 50% a infraestrutura de entrega nos próximos dois anos. Além disso, a Amazon continua oferecendo a melhor experiência para o cliente, com a entrega em um dia e de graça. São 10 milhões de itens entregues por dia, enquanto o Walmart entrega 200 mil itens por dia.

No segmento de computação em nuvem, a Amazon também é líder e está em um setor que passa por uma adoção estrutural. Há, portanto, uma avenida de crescimento. Sobre a saída de Jeff Bezos do cargo de CEO, não dá para negar que, quanto mais ele estiver envolvido, melhor, mas ele seguirá como presidente do Conselho de Administração, sem falar que as pessoas que seguem na liderança da companhia foram criadas lá desde o início e são fantásticas.

DoorDash

O DoorDash é um aplicativo de entrega de comida dos Estados Unidos que tem uma posição bastante dominante por lá, com 60% de participação. Trata-se de um mercado que ainda está se definindo, com apenas dois competidores relevantes, o DoorDash e a Uber. O DoorDash surgiu depois, tendo começado pelos subúrbios e focado em entregas para grandes cadeias, como McDonald’s.

Gostamos da empresa porque ainda há muito crescimento estrutural pela frente, uma vez que as pessoas cada vez mais pedem comida em casa, em vez de cozinhar, por falta de tempo. Além disso, também tem crescido o conceito de restaurantes que são criados apenas para entrega, o que reduz o seu custo e torna o frete mais barato.

Como o frete ainda é uma barreira para a entrega de comida, o seu barateamento aumenta a possibilidade de adesão. Outra iniciativa deles é a entrega para lojas de conveniência, um novo mercado, em que eles têm ganhado mais participação.

Facebook

O Facebook, assim como o Google, é uma empresa que monetiza o tempo de atenção das pessoas para as empresas. Além de vender anúncios de sites de e-commerce, o Facebook começa também a oferecer o e-commerce dentro da própria plataforma, principalmente, no Instagram. O consumidor não precisa sair do aplicativo para fechar a compra, o que aumenta o valor do anúncio e a chance de conversão em venda, pois é um processo que reduz fricções. O resultado é que a potencial receita do Facebook se eleva.

Soma-se a isso a recente iniciativa do Facebook em pagamentos, com um botão similar ao do PayPal, por meio do qual o consumidor pode clicar para pagar com o Facebook, aumentando a utilidade da plataforma. Quando há mais utilidades, o Facebook se torna mais forte e ataca uma preocupação quanto à perenidade da plataforma, em meio a uma discussão de até quando as pessoas vão usar o Facebook ou migrar para outra plataforma.

Atualmente, o Facebook atravessa um desafio quanto às mudanças das políticas de privacidade da Apple, que colocou limitações para que os aplicativos colham informações dos usuários. Isso deve afetar a receita da empresa, mas acredito que o mercado superestima esse ponto. Quem vai sofrer esse impacto são os anunciantes, que terão de pagar mais caro.

Google

O Google é uma empresa com qualidade inegável e que se beneficia de uma tendência estrutural de que tudo está migrando para a internet e sendo digitalizado. As pessoas estão passando cada vez mais tempo no ambiente online e o Google é a porta de entrada, sendo a empresa mais lembrada para buscas.

A transição do varejo para a internet já está acontecendo há algum tempo e foi acelerada pela pandemia, mas não está próximo da saturação, pois, nos EUA, por exemplo, o e-commerce só representa 25% do varejo total. Além disso, o Google é o principal canal de aquisição de clientes para as empresas que vendem pela internet e deve se beneficiar da recuperação de setores prejudicados pela pandemia, como o turismo.

O Google conta ainda com o chamado efeito em rede: quanto mais as pessoas pesquisam, mais dados são gerados e melhores ficam os resultados, consolidando a sua posição de liderança. A Microsoft, que tinha recursos para investir e criar um competidor à altura, lançou o Bing, que não conseguiu fazer frente ao Google.

Mercari

O Mercari é um marketplace japonês de produtos usados que tem 60% de participação de mercado no Japão. A compra de produtos usados tem ganhado cada vez mais adoção, pois é uma oportunidade de as pessoas barganharem, sem falar na consciência ambiental por trás, com a ideia da reutilização de produtos.

Na primeira fase da internet, as pessoas se acostumaram a comprar tudo pela internet. A próxima fase é as pessoas se sentirem confortáveis para vender alguma coisa pela internet. Percebemos que ainda está no início, mas há uma forte adoção. Além disso, a Mercari tem uma presença relevante nos EUA.

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