Barcelona - A barreira para o avanço da digitalização no Brasil não está na cobertura. O problema maior está na acessibilidade. O governo federal e o Congresso precisam se debruçar imediatamente sobre o alto custo tributário dos aparelhos, que barra a expansão da tecnologia 5G.

O recado direto foi dado pelo CEO da Vivo, Christian Gebara, durante apresentação a empresários, parlamentares e integrantes do governo brasileiro, no Congresso Mundial de Telefonia Móvel (MWC, em inglês), em Barcelona, na Espanha.

“Essa é a tríade do país que deveria ter uma aposta em digitalização: infraestrutura, acesso a dispositivos e serviços, e letramento digital. É preciso uma confluência de política pública com o esforço privado. As empresas fazem sua parte”, diz Christian Gebara, CEO da Vivo, em entrevista ao NeoFeed, logo após sua apresentação.

“Existe boa vontade do governo, mas a gente precisa correr. O Brasil tem uma possibilidade de progresso interessante, mas que está, de alguma forma, bloqueada”, explica.

Neste sentido, Gebara enxerga que a alta carga tributária nos aparelhos com 5G é um problema real para o avanço da tecnologia no país. Ele ainda cita o exemplo do pagamento da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), mesmo sem ser produtora de conteúdo. Na prática, isso onera o consumidor na ponta final.

“Se a gente não tirar a carga tributária sobre o aparelho, como uma pessoa pode usufruir das vantagens do 5G, mesmo tendo cobertura? Enquanto o preço dos aparelhos for elevado, a acessibilidade deste tipo de serviço estará limitada. No Brasil, não falta 5G. Falta aparelho 5G. E porque ele é caro”, afirma.

Enquanto avança nestas discussões, a companhia, que registrou receita líquida de R$ 59,6 bilhões (alta de 6,7%) e lucro líquido de R$ 6,17 bilhões (crescimento de 11,2%) em 2025, tem avançado no segmento de novos serviços digitais B2B e B2C. Hoje, a fatia já representa 12,1% do faturamento. No ano passado, era 10,1%.

Segundo ele, somente o Vivo Pay, serviço de fintech, gerou perto de R$ 500 milhões de receita em 2025. Na plataforma de saúde, foram R$ 100 milhões. E na distribuição de serviços de streaming, a Vivo já alcançou R$ 900 milhões.

Para o CEO, o mercado hoje já enxerga a companhia como um ecossistema completo de tecnologia e não apenas como uma operadora de telefonia móvel, o que vem influenciando positivamente o resultado das ações na B3.

“Em 2026, o Ibovespa sobe 16% e o papel da Vivo já valorizou 29%. Atingimos o auge da capitalização da empresa. Isso vem dessa visão que o mercado enxerga da Vivo como uma empresa que cresce no móvel, na fibra, mas também nos novos serviços”, afirma.

O valor de mercado da Vivo é de R$ 136 bilhões. A companhia é controlada pela espanhola Telefônica.

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Em seu painel no MWC, você conclamou o governo a endereçar de vez problemas estruturais que atrapalham o desenvolvimento da digitalização no Brasil. Quais são essas barreiras?
Quando a gente discute digitalização, aparentemente a leitura é que o problema é cobertura. Esse é um dos eixos da digitalização de um país, mas, no caso do Brasil, não é o maior problema. Se olharmos a cobertura móvel 4G, chegamos a 98% da população. O 5G hoje chega a 70%. Só a Vivo chega a 67,7% de cobertura. No mercado de fibra, a Vivo passa por 31 milhões de domicílios, com 7,8 milhões de clientes e 19% do mercado. Isso mostra que o problema maior não é a disponibilidade do serviço, mas sim a acessibilidade. Existe um grande número de pessoas que não navega no serviço móvel, ou porque não tem poder aquisitivo para comprar um dispositivo ou um serviço, ou porque não tem letramento digital suficiente para usar a internet de maneira efetiva.

A carga tributária hoje afeta o crescimento do setor?
Sim. Hoje ainda há muito fundo setorial, que ainda não foi discutido na reforma tributária. A gente paga quatro pontos percentuais sobre os nossos serviços, que não há uma justificativa para ser cobrado. Um exemplo é que a gente paga a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine), mesmo sem ser produtora de conteúdo. São R$ 4 cobrados de cada linha. E só a Vivo tem mais de 100 milhões de acessos de telefonia móvel. Por ano, são mais de R$ 1,12 bilhão arrecadados de todas as operadoras, que deveriam ser pagos por geradores de conteúdo. São impostos que oneram as empresas, mas que no final oneram o consumidor. Hoje, com todos os impostos sobre serviço que a gente paga, chega, em média, a 29%. A média dos países desenvolvidos é de 11,8%.

E isso afeta o acesso da população à tecnologia 5G?
Por isso que não dá para falar que o dado no Brasil é caro. Ele é bem barato, mas fica caro por causa do imposto. O mesmo ocorre em relação ao smartphone. Mesmo a Vivo tendo quase 70% de cobertura 5G, a gente só tem 27% da base com um celular 5G. Isso porque o mais barato no Brasil não custa menos que R$ 1 mil. E custa isso porque há muitos impostos. Se a gente não tirar a carga tributária sobre o aparelho, como uma pessoa pode usufruir das vantagens do 5G, mesmo tendo cobertura? A gente só revende os aparelhos. A gente vende serviço. Isso mostra que, enquanto o preço dos aparelhos for elevado, a acessibilidade deste tipo de serviço estará limitada. No Brasil, não falta 5G. Falta aparelho 5G. E porque ele é caro.

Mas há muita gente que não sabe sequer mexer no aparelho e acessar a internet.
Esse é outro problema. Falta letramento digital. As pessoas precisam saber usar os aparelhos. O Brasil tem carência disso porque não está na base da nossa educação. A Vivo investe em formação de professores e alunos. Então, essa é a tríade do país que deveria ter uma aposta em digitalização: infraestrutura, acesso a dispositivos e serviços, e letramento digital. Cobertura é parte da nossa obrigação e a Vivo investe R$ 9,2 bilhões por ano no Brasil. E imposto é uma discussão muito importante. Por isso que digo que é preciso haver uma confluência de política pública com o esforço privado. As empresas fazem sua parte, mas é difícil ter retorno de capital. O capex sobre receita é muito alto no Brasil.

"Imposto é uma discussão muito importante. As empresas fazem sua parte, mas é difícil ter retorno de capital. O capex sobre receita é muito alto no Brasil"

E o que o governo precisa fazer para mudar este cenário?
É uma questão que envolve governo federal e o poder Legislativo. A gente tem discutido várias pautas. O país, que tem carências básicas, como acesso à educação e saúde, tem uma grande oportunidade para manter a digitalização como motor de inclusão. O Pix é um exemplo de inclusão financeira por meio da conexão. E isso é transformador. E o mesmo deveria acontecer em outras áreas. Se existir uma consciência e foco maior na digitalização, a gente poderia dar um salto em produtividade e inclusão. China e Coreia são exemplos de países que têm uma base de infraestrutura de conectividade por trás do conhecimento e desenvolvimento.

E por que essa mensagem não chega ao poder público?
A mensagem chega. O problema é que há fragmentação grande na decisão. Além disso, a velocidade com que a tecnologia vem se desenvolvendo é mais rápida do que nosso poder de decisão e estruturação. Existe boa vontade, mas a gente precisa correr. O Brasil tem uma possibilidade de progresso interessante, mas que está, de alguma forma, bloqueada. E a gente trabalha conjuntamente com o executivo e o legislativo para conseguir fazer isso acontecer mais rápido.

O avanço da digitalização no Brasil poderia ser mais rápido?
Se a gente fosse menos tributado, seria possível alcançar um retorno muito maior. E geraria mais investimentos. A Vivo nunca deixou de investir, mesmo em momentos econômicos difíceis. Quanto mais retorno a gente traz para este investimento, mais nosso acionista [a espanhola Telefônica] investiria no Brasil.

Você apontou a falta de um controle sobre os postes de energia elétrica. O quanto isso afeta as operadoras de telefonia?
Nós pagamos mais de R$ 3 bilhões pelo custo de passagem e os postes estão muito desordenados. Existe uma necessidade dessa ordenação e isso é uma responsabilidade das distribuidoras de energia elétrica, que são donas. Elas recebem muito para isso e deveriam eliminar cabos daqueles que não pagam e fazem esse uso de maneira ilegal. Todo mundo tem que pagar. Eu defendo uma simetria e não uma assimetria. Aquele que não paga cobra mais barato do cliente e ainda afeta o trabalho de quem paga. Temos necessidade de expandir a rede de fibra e ela vai muito por poste. Chegamos a 31 milhões de domicílios e quero chegar a 45 milhões. Mas isso precisa ser resolvido para a gente ter um custo controlado. A Câmara está atuando nesse assunto.

Enquanto essas discussões ocorrem, a Vivo vem avançando em novos serviços digitais. Quais têm sido essas principais alavancas?
A Vivo tem sido parceira de novos negócios, como habilitador de serviços. O nosso serviço de fintech, o Vivo Pay, faz empréstimos, Pix parcelado, e começamos agora o crediário para financiar a compra de smartphones. Isso me gerou no ano passado quase R$ 500 milhões de receita. Em saúde, criamos uma plataforma chamada Vale-saúde, que liga meu cliente a descontos em clínicas, médicos e farmácias. Isso me gerou R$ 100 milhões em 2025. Somos a maior plataforma de distribuição de entretenimento, a partir das OTTs (serviços de streaming). Tenho 4,4 milhões de clientes que compram estes serviços pela Vivo, que já geram R$ 900 milhões ao ano. Todos estes negócios, incluindo B2B e B2C, já representam 12,1% da receita total da Vivo [que, em 2025, foi de R$ 59,6 bilhões].

"Cada vez mais o cliente vai querer comprar a maior quantidade de serviços em uma única empresa"

E quais as ferramentas que a companhia tem hoje para isso?
Temos hoje 60 milhões de clientes, 1,8 mil lojas, cinco mil vendedores B2B, um app com 28 milhões de usuários únicos. Sou uma potência de relacionamento com o cliente. E, deste relacionamento, posso vender mais serviços do que apenas a conexão. Cada vez mais o cliente vai querer comprar a maior quantidade de serviços em uma única empresa.

Na sua avaliação, a Vivo já é vista como um ecossistema tecnológico e não mais como uma operadora de celular?
Pelo mercado, sim. No ano passado, as ações da Vivo valorizaram mais de 50%, enquanto o Ibovespa subiu 34%. Em 2026, o Ibovespa sobe 16% e o papel da Vivo já valorizou 29%. Atingimos o auge da capitalização da empresa. Isso vem dessa visão que o mercado enxerga da Vivo como uma empresa que cresce no móvel, na fibra, mas também nos novos serviços.

Na semana passada, a Vivo começou a trocar os hidrômetros da Sabesp para um modelo digital, em um projeto de IoT. Esse é um exemplo do avanço no modelo B2B?
Serão trocados 4,4 milhões de hidrômetros. Uma solução inovadora que ainda vai trazer impacto ambiental, evitando perda de água. Os hidrômetros vão trazer informações, também via inteligência artificial (IA), para entender onde há consumo exagerado por vazamento e oportunidades de melhora. É um grande exemplo em que a tecnologia IoT, conectada ao 5G, pode gerar economia para o consumidor e para a Sabesp.

Onde mais esse modelo pode ser aplicado?
No agro, indústria, carros autônomos, varejo. O 5G vai trazer muitas outras oportunidades.

Com 19% de participação no mercado de fibra e um segmento fragmentado, qual é a avenida da Vivo para crescer neste serviço?
Estou construindo rede própria, mas se eu encontrar uma empresa com potencial de consolidação para comprar seria um caminho para acelerar este crescimento. Para isso, a empresa não pode ter muita sobreposição sobre minha rede, qualidade técnica parecida e um preço razoável. Até agora, não conseguimos comprar. Se surgir, é um caminho.

O jornalista viajou a Barcelona a convite da Vivo.