O bilionário Elon Musk já sente no bolso os efeitos de seu posicionamento político e sua participação ativa no governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No primeiro trimestre, as entregas globais de veículos da Tesla tiveram queda de 13% sobre o mesmo período do ano anterior, registrando seu pior trimestre desde 2022.

A montadora fundada por Musk entregou, entre janeiro e março deste ano, 336.681 carros, contra os 387 mil reportados no primeiro trimestre de 2023. O número também é bem abaixo do que previam os analistas, de que a Tesla entregaria 390 mil unidades.

Até por conta dessa turbulência econômica e política, a partir de sua ligação com Trump, já há rumores nos Estados Unidos que indicam que Musk deverá deixar, em pouco tempo, o comando do departamento de eficiência governamental (Doge), na Casa Branca. O próprio presidente teria informado a aliados sobre a saída do bilionário, segundo o site Politico. Na sua rede social X, Musk chamou a notícia de falsa.

Mas o comportamento das ações da Tesla deixou claro o que pensam os acionistas sobre a atuação de Musk no governo. As ações da montadora estavam caindo 6,3% no início do pregão em Nova York desta quarta-feira, 2 de março, mas subiram depois que passou a circular a informação da possível saída de Musk do governo - elas fecharam com alta de 5,33%.

O apoio público de Musk a políticos de extrema direita em vários locais do mundo, em especial na Europa, também tem gerado protestos e causado boicote aos produtos da empresa.

Nos Estados Unidos, pesquisas divulgadas recentemente mostram que o apelo à marca automotiva diminuiu, principalmente entre os simpatizantes do Partido Democrata. Por causa do aumento desse clima hostil, analista de Wall Street já chegaram a rebaixar as ações da Tesla.

“Musk precisa parar essa tempestade política e equilibrar ser CEO da Tesla com Doge”, disse Dan Ives, analista da empresa de serviços financeiros Wedbush, ao Financial Times. “O futuro é tão brilhante, mas esta é uma crise total que a Tesla está navegando agora e é principalmente autoinfligida.”

Além da queda, a Tesla ainda viu a sua principal rival, a chinesa BYD, confirmar sua liderança global como fabricantes de veículos elétricos, ao reportar vendas de 416.338 automóveis também nos primeiros três meses de 2025.

E justamente na China as vendas da montadora americana caíram 49% em fevereiro, mas ensaiaram uma recuperação em março, quando a redução foi de 11%. Com isso, a participação de mercado da Tesla em solo chinês somente com carros elétricos caiu para 7%, distante dos 12% que tinha em 2024, segundo dados da consultoria Automobility.

Na Alemanha, onde fica a sede europeia da fábrica da Tesla, a queda na venda de veículos novos alcançou 76,3% em fevereiro, comparado com o mesmo mês do ano anterior.

Até mesmo em seu país de origem, a montadora de Musk vem patinando. Segundo a empresa de pesquisa Wards Intelligence, as vendas da Tesla em território americano recuaram 2% nos dois primeiros meses do ano.

Tom Narayan, analista da RBC Capital Markets, esperava aumento nas vendas da Tesla nos Estados Unidos, já que os consumidores buscaram se antecipar à implementação da tarifa automotiva de Trump. “Em vez disso, parece que o número de entrega da Tesla nos EUA em março pode ter sido semelhante a janeiro e fevereiro”, afirmou ao FT.

As ações da Tesla dispararam após a vitória eleitoral de Trump, e deram à empresa a capitalização de mercado de US$ 1,5 trilhão em dezembro. Desde então, os papeis registram queda de mais de 40%. Hoje, a companhia de Elon Musk vale US$ 886,5 bilhões.

A própria ausência do empresário na operação da empresa tem atraído críticas de investidores e analistas, justamente pelo fato de ele priorizar o ativismo político. Nos últimos dias, ele esteve em Wisconsin para tentar influenciar o resultado da eleição da Suprema Corte do estado. Ainda assim, seu candidato perdeu.

No ano passado, a Tesla registrou declínio nas vendas de carros pela primeira vez em mais de uma década, com entregas globais de 1,79 milhão de veículos, o que representou uma queda de 1% em relação ao ano anterior.