A lata de vinho que atraiu mais de 300 investidores em apenas 19 horas

A startup de vinhos em lata Lovin’ Wine levantou R$ 2 milhões via equity crowdfunding com centenas de investidores do varejo em tempo recorde. Os recursos serão usados para acelerar sua produção e aumentar as opções de rótulos em seu portfólio

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Nos primeiros seis meses, a Lovin’ Wine vendeu 50 mil latas

Em sua breve história, a startup de vinhos em lata Lovin’ Wine vem superando rapidamente suas próprias metas. O primeiro lote produzido em julho de 2020, de 15 mil latinhas, foi pensado para durar seis meses. Mas se esgotou em menos de 30 dias.

Nesta semana, a empresa buscou uma captação de R$ 2 milhões via equity crowdfunding. O objetivo era fechar a rodada em poucos dias. Mas em 19 horas, a meta estabelecida foi alcançada.

A captação foi feita na plataforma CapTable, da StartSe, que permite que investidores de varejo comprem ações da empresa. Os lotes foram vendidos a um valor mínimo de R$ 1 mil e a rodada contou com mais de 300 participantes, além de investidores estratégicos que ancoraram a captação. A velocidade da captação foi recorde na plataforma.

“Esse é o resultado da construção de uma marca 100% digital que hoje já é muito relevante para bastante gente”, afirma o empreendedor Eduardo Glitz, um dos fundadores da startup, ao NeoFeed. De acordo com Glitz, o valuation da Lovin’ Wine após a captação é de R$ 20 milhões.

Nos primeiros seis meses, a empresa vendeu 50 mil latas, bateu R$ 1 milhão em faturamento e construiu uma marca sólida nas redes sociais. No Instagram, a Lovin’ tem mais de 44 mil seguidores, resultado de uma campanha que contou com influenciadores do setor de lifestyle.

Com os recursos, a startup vai expandir o portfólio e acelerar sua produção. “Temos que comprar os insumos antecipados por conta da safra, por exemplo. A rodada nos permite expandir em volume com tranquilidade”, diz Glitz, que já investiu cerca de R$ 1,5 milhão na operação – ele não participou dessa nova captação.

Atualmente, o portfólio tem duas opções de vinhos: um rosé, feito com as uvas moscato branco, moscato giallo e moscato de hamburgo; e um branco, com moscato branco e prosecco. Ambos são levemente frisantes.

Nas próximas semanas, a Lovin’ vai lançar uma terceira opção, um rosé seco. Será uma edição limitada, pensada para testar o formato de rótulos sazonais. Outro lançamento está previsto para o segundo semestre de 2021.

Eduardo Glitz (da esq. à dir., o quinto sentado de camisa preta), um dos fundadores da startup com a equipe da Lovi´’ Wine

A startup compra o vinho da Perini, vinícola localizada na região do Vale Trentino, no Rio Grande do Sul, principal região produtora de vinhos do Brasil. O blend foi desenvolvido por Fernando Kwitko, enólogo responsável, em parceria com a Perini, e a Lovin’ tem outro parceiro que faz o envase.

Criada sob o conceito de DNVB (Digitally Native Vertical Brand), a Lovin’ oferece seus produtos principalmente em seu site, em pacotes com quatro unidades, vendidos a R$ 79,60. O vinho também está disponível na Amazon e em outras plataformas de e-commerce.

Desde janeiro deste ano, no entanto, as latas da Lovin’ podem ser encontradas em alguns pontos de venda, como as unidades da rede St. Marché e no Sam’s Club do bairro do Morumbi, em São Paulo. “Invertemos a lógica do varejo. Primeiro fizemos o lançamento digital, depois fomos para os pontos físicos”, afirma João Paulo Sattamini, fundador da empresa de bebidas saudáveis Brasilbev e CEO da Lovin’.

O foco dos vinhos em lata é o público jovem, pouco acostumado a tomar vinhos em garrafa. Hoje, o perfil dos consumidores da Lovin’ é majoritariamente feminino: as mulheres representam 92% do total, com idade entre 25 e 45 anos.

Além de porta de entrada para o mundo do vinho, as opções em lata são vistas como concorrentes de outras bebidas, como a cerveja. “São vinhos desenhados para atender a um público específico. Não é uma questão de qualidade: os vinhos em lata são muito bem feitos”, diz Valdiney Ferreira, coordenador do curso de Negócios do Vinho na Fundação Getulio Vargas (FGV).

Ferreira aponta alguns elementos importantes que podem ser identificados, como o açúcar residual mais alto, o que torna a bebida mais doce, e o teor alcoólico menor, raramente superando os 12%.

Nesse setor, os Estados Unidos são a principal referência e o país detém 35% do mercado global de vinhos em lata, de acordo com a consultoria Grand View Research. Nesse ano, as vendas no mercado americano superaram os US$ 70 milhões, segundo a Nielsen.

É um número tímido se comparado ao mercado americano de vinhos em garrafa: foram quase US$ 50 bilhões em receita no ano passado, de acordo com a consultoria Statista.”Não dá para chamar de tendência, mas é um nicho extremamente importante”, afirma Ferreira.

O Brasil não tem dados consolidados sobre o mercado de vinho em lata, mas o aumento na concorrência desse setor, especialmente no último ano, dá uma ideia de sua aceleração.

A Vivant, pioneira no mercado brasileiro, é a maior. Em 2020, vendeu 700 mil latas e faturou R$ 6 milhões. O e-commerce de vinhos Evino lançou também sua marca própria, a Vibra, no ano passado, que conta inclusive com opções de drinques feitos com vinho no portfólio de latas e é produzida pela vinícola Góes, de São Roque (SP). A Wine, em parceria com a chilena Viñedos Y Frutales, também colocou no mercado a linha It’s Wine o’Clock.

O consumidor brasileiro encontra ainda opções internacionais, como a chilena Rita, marca da vinícola Santa Rita, e a australiana Barokes. Ou linhas desenvolvidas por vinícolas tradicionais brasileiras, como a Guatambu, da Campanha Gaúcha, que lançou a linha Mysterius em fevereiro deste ano.

O executivo Guilherme Mendes, que foi um dos investidores estratégicos que participaram da captação, também vê uma oportunidade da Lovin’ se tornar referência no ainda incipiente mercado brasileiro de outras bebidas fermentadas, como a sidra, explorado de maneira tímida por cervejarias artesanais.

“Ele muda um pouco os conceitos do que significa beber vinho. É uma bebida mais cool, que permite que você brinque com ela”, diz Mendes, que foi convidado a fazer parte do conselho executivo da Lovin’.

Com 20 anos de experiência no setor e passagens por pelas cervejarias AB Inbev, dona da Ambev no Brasil, e Heineken, Mendes vai ajudar na expansão da marca para os pontos de venda, de mercados a lojas de conveniência.

Além do objetivo de se consolidar no mercado brasileiro, a Lovin’ mira também na internacionalização. Nesse ponto, a experiência de Sattamini será determinante para levar as latas para fora do país. À frente da Brasilbev, ele distribui o energético orgânico Organique em países como Estados Unidos, Chile, Espanha, Austrália e Japão.

Paulo Sattamini, CEO da Lovin’ Wine

“O caminho está aberto. Aumentamos em 50% nossas exportações no ano passado”, afirma Sattamini. Ele conta que mesmo sem participar de feiras internacionais por conta da pandemia, os contatos por Zoom facilitaram a realização de negociações. “Queremos ser relevantes em nível global, e não estamos falando em longo prazo, coisa de 10 anos.”

Assim como Sattamini tem experiência no mercado de bebidas, Glitz é um profundo conhecedor do mercado digital. Ex-sócio da XP Investimentos, ele investe e é sócio de fintechs, como a plataforma de investimento Warren, o FitBank, de pagamentos eletrônicos, e a Monkey Exchange, um marketplace de antecipação de recebíveis.

Ele é sócio também da plataforma de educação StartSe, desde 2015, ao lado de Pedro Englert, Marcelo Maisonnave e Maurício Bevenutti, todos ex-XP, e da Yuool, marca de calçados de lã de merino.

Para montar a Lovin’ Wine, Glitz reuniu um time diversificado de empreendedores. Além de Sattamini e Kwitko, a ‘equipe’ conta com Regis Montagna e Daniel Skowronsky, cofundadores da agência Nirin, que são advisors de marketing. Rudimar Pascoal dos Santos, consultor de gestão empresarial, é responsável pelo setor financeiro. E Andre Piccoli, fundador e CEO da SafePark Estacionamentos, atua como advisor de operações.

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