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A privacidade em tempos de pandemia: EUA querem dados de localização da população

Casa Branca discute com as grandes empresas de tecnologia sobre a possibilidade de coletar informações de deslocamento dos usuários em um esforço para mapear regiões de contágio

 

O governo americano quer que grandes empresas de tecnologia compartilhem os dados de localização de seus usuários para que seja possível mapear regiões de contágio e possíveis áreas de surto de doenças virulentas.

A intenção, trazida à tona pelo jornal americano The Washington Post, não foi confirmada pela Casa Branca. Da mesma maneira, empresas como Google e Facebook, que estariam envolvidas na discussão, tampouco comentaram o assunto. 

O cuidado com as palavras é diretamente proporcional à sensibilidade do tema: debates sobre privacidade têm inflamado tribunais mundo afora e detalhes de localização podem dizer muito sobre uma pessoa.

Em uma extensa reportagem sobre o tema, o The New York Times analisou os dados comprados de uma empresa não identificada e, apenas com as informações de deslocamento, conseguiu identificar o usuário em questão: uma professora nova iorquina.

De acordo com o jornal, ao longo dos quatro meses de material revisados, a localização da mulher foi registrada 8,6 mil vezes. 

Justamente por permitir uma rica construção da vida e hábitos das pessoas, a Suprema Corte dos Estados Unidos estipulou, em 2018, que seria necessário obter uma procuração especial para requerer os dados de localização do celular de um cidadão americano. 

Em fevereiro deste ano, a Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), também acenou para a possível penalização das operadoras americanas de celulares sob acusação de venda de informações de deslocamento de seus clientes. 

Neste sentido, a reportagem do The Washington Post deixa claro que a intenção do governo não é obter a localização de um grupo ou indivíduo específico, mas sim dados coletivos, que tornariam difícil, e talvez até impossível, a identificação de um usuário. 

O jornal acrescenta ainda que é possível que o governo sequer tenha acesso aos dados brutos, mas apenas insights de informações agregadas – material já comercializável por grandes empresas de tecnologia.

O Facebook, por exemplo, oferece essas informações através de seu programa Data for Good, que, entre outras coisas, é responsável pelo Mapa de Prevenção de Doenças, algo bastante similar com a proposta estatal. 

À reportagem, um porta-voz da rede social afirmou que essa ferramenta é usada por universidades e organizações ligadas à saúde, mas não mencionou ter realizado nenhum trabalho direto com o governo. 

Mesmo sem sair do papel, a investida da Casa Branca é suficiente para suscitar novas discussões. E preocupações. Em um extenso artigo publicado no jornal britânico Financial Times, o autor israelense Yuval Harari, autor dos best sellers Sapiens e Homo Deus, discorreu sobre o assunto.

No artigo, ele diz que a tecnologia pode ser usada tando de forma positiva, como negativa, no que ele chamou de vigilância totalitária e empoderamento do cidadão.

Ele citou o governo chinês como exemplo. Para lutar contra o novo coronavírus, o país asiático tem monitorado de perto sua população. “Ao usar centenas de milhões de câmeras que reconhecem o rosto e obrigar as pessoas a verificar e relatar sua temperatura corporal e condição médica, as autoridades chinesas podem não apenas identificar rapidamente os portadores suspeitos de coronavírus, mas também rastrear seus movimentos”, escreveu o professor de história israelense.

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