A startup que transforma fãs em investidores de influencers

A Divi hub chega ao mercado brasileiro com uma plataforma que vai abrir a possibilidade de fãs e seguidores se tornarem sócios de youtubers, gamers, músicos e projetos de economia criativa, com cotas a partir de R$ 10

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Com um crescimento de 50,2% na comparação anual, o volume de investidores pessoa física na B3 chegou ao patamar de 3,7 milhões em maio. Esse é também o número de inscritos no canal do YouTube de Douglas Mesquita, mais conhecido por seu séquito de seguidores como Rato Borrachudo.

Apesar da coincidência, há uma enorme distância entre esses dois universos. Mas a disposição para conectá-los é justamente o objetivo de uma plataforma que está sendo lançada oficialmente no mercado brasileiro na manhã desta quinta-feira, 1º de julho.

A Divi hub quer ser mais uma via de acesso de novos CPFs ao mundo dos investimentos. Mas no lugar de ativos tradicionais, vai negociar projetos de influencers, youtubers, gamers e afins com o plano de levar o engajamento com suas respectivas audiências para muito além dos likes, comentários e visualizações.

“Seja por conhecimento ou recursos, o mundo dos investimentos ainda é muito restrito”, diz Ricardo Wendel, cofundador da Divi hub, ao NeoFeed. “É mais fácil uma pessoa investir em um game que ela joga, um influencer ou canal que ela segue do que entender de produção de aço e investir na Gerdau.”

O modelo da Divi hub foi desenvolvido, ajustado e validado junto à Comissão de Valores Mobiliários (CMV), em um processo que levou mais de um ano. E tem como base as premissas do formato de equity crowdfunding.

Para cada oferta disponível na plataforma, a Divi hub vai constituir uma Sociedade de Propósito Específico. Com essas estruturas, os investidores tornarão-se, na prática, acionistas dos projetos. O limite imposto a cada investidor pela CVM é de até R$ 10 mil por ano.

A plataforma permite investir em cotas de uma propriedade de entretenimento e ser remunerado pelas receitas desse ativo, de acordo com o volume de “ações” ou “divis” adquiridos. Entre outras opções, o leque pode incluir um canal no YouTube, uma música ou outro projeto da chamada economia criativa.

“Esse formato cria uma máquina de retroalimentação. A pessoa investe no conteúdo que ela consome, se torna parte do negócio e pode ser remunerada por isso”, diz Wendel. “E o produtor do conteúdo, por sua vez, tem acesso a uma nova fonte de recursos para bancar seus projetos.”

Ricardo Wendel, cofundador da Divi hub

A partir de métricas como o histórico de monetização de uma música no Spotify ou de um canal no YouTube, o produtor do conteúdo pode colocar à disposição dos investidores uma fração desse ativo equivalente a até R$ 5 milhões, em linha com as regras do equity crowdfunding.

As parcelas de cada projeto são fragmentadas em ações ou divis. E nesse ponto reside outro apelo do formato. Cada uma das cotas será “vendida” por R$ 10. Para investir, basta o usuário baixar o aplicativo e carregar um saldo na carteira digital da Divi hub, ofertada a partir de uma parceria com o FitBank.

Ao mesmo tempo, esse investidor terá à disposição uma plataforma secundária, por meio da qual poderá vender seus divis e cotas a outros investidores desse ecossistema. Uma das fontes de receita da empresa virá justamente dessa ferramenta.

Todo investidor terá direito a duas transações gratuitas por mês nesse ambiente. A partir desse volume, a Divi hub cobrará assinaturas de R$ 8,99 e R$ 14,99, com benefícios como número de vendas ilimitado e acesso antecipado às ofertas, com prioridade de compra.

A startup vai gerar recursos ainda com as taxas sobre as captações e sobre a manutenção desses ativos na plataforma. Isso inclui a distribuição dos “dividendos” ou da remuneração de cada investidor, cuja periodicidade irá variar de acordo com cada projeto.

No balcão

Com um projeto de um campeonato brasileiro de guerra de robôs, o youtuber Rato Borrachudo é uma das opções disponíveis no lançamento da Divi hub. O campeonato abrirá vagas para torneios internacionais e todas as receitas geradas serão compartilhadas com os investidores.

Outras alternativas envolvem reality e game shows com influencers como Bibi Tatto, que tem 8,7 milhões de inscritos em seu canal no YouTube e 4,5 milhões de seguidores no Instagram; Vitor Santos, do canal Metaforando, que tem 5 milhões de inscritos no YouTube; e o humorista Fabio Rabin.

Em música, a primeira oferta ainda em negociação envolve ativos de uma cantora, cujo nome não foi revelado, que já tem um clipe com 174 milhões de visualizações no YouTube, entre outros números.

Outro segmento em negociação é o de galerias e obras de arte. Com a mesma abordagem, a ideia é dividir em cotas uma parcela de ativos de olho na receita no caso de venda dessas peças.

A projeção da Divi hub é chegar a uma base de 160 mil usuários em seu primeiro ano de operação, com um tíquete médio mensal de R$ 50 por investidor. Para concretizar essa meta, a principal aposta da plataforma é a relação entre os influencers e seus seguidores.

A projeção da Divi hub é chegar a uma base de 160 mil usuários em seu primeiro ano de operação

“Nosso custo de aquisição de clientes é reduzido, pois os próprios influenciadores vão apelar para suas bases de fãs”, diz Wendel. “E a comunicação e o engajamento que eles têm com os seguidores é muito forte. A Divi hub vai ser quase uma coadjuvante nessa relação.”

Para Bruno Diniz, sócio da consultoria Spiralem, a Divi hub reforça uma nova onda de plataformas de investimentos alternativos, que, no mercado brasileiro, inclui nomes como Hurst Capital, Blox e CapTable. Com o diferencial, justamente, de contar com o motor desse engajamento.

“Abrir o modelo para essas comunidades é um bom caminho para dialogar com essas gerações mais novas”, afirma Diniz. “E é uma proposta bastante promissora, pois joga com o efeito de rede que é extremamente forte nesses ambientes, e com um tíquete extremamente acessível.”

Rodada à vista

Fundada por Wendel e pelo americano David Farron, a Divi hub começou a ser gestada no programa de empreendedorismo da San Jose State University, na Califórnia, em 2018. Desde então, a dupla já investiu cerca de US$ 2 milhões do próprio bolso no projeto.

No momento, a startup negocia um aporte de cerca de R$ 10 milhões com um grupo de comunicação brasileiro, ligado a esse universo de influenciadores e cujo nome não foi revelado. A rodada deve envolver uma fatia de 10% da operação.

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