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Primeiro foi o J.P. Morgan. Agora, a CSU. Por que o FitBank atraiu essas empresas?

Após receber um aporte do J.P. Morgan, em julho de 2020, a startup de infraestrutura de pagamentos e de Banking as a Service capta mais R$ 30 milhões atraindo sócios que devem abrir mais portas e alavancar o negócio da companhia

 

Otavio Farah, cofundador e CEO do FitBank

Dono da infraestrutura de pagamentos por trás de fintechs, contas e bancos digitais no País, o FitBank saiu da “toca” em julho de 2020. Na época, a empresa brasileira viu seu nome em destaque ao anunciar um aporte do J.P. Morgan, de valor não revelado.

Nesta segunda-feira, a fintech volta a entrar em cena para dar mais um recado ao mercado: a captação de um investimento de R$ 30 milhões, com a participação da brasileira CSU, empresa que atua nas áreas de cartões, meios de pagamento e de soluções para fidelização e incentivo de clientes.

Na rodada, a CSU responderá pelo montante de R$ 10 milhões, em troca de uma fatia minoritária na operação. Os R$ 20 milhões restantes serão aportados pela FitBank Holdings, veículo que reúne os sócios pessoas físicas que já investiram na startup desde a sua fundação, em 2015.

Esse time reúne nomes como Marcelo Maisonnave, Pedro Englert e Eduardo Glitz, ex-sócios da XP; e Alejandro Vollbrechthausen e João Chacha, ex-executivos do Goldman Sachs. Com o investimento, o FitBank está sendo avaliado em R$ 280 milhões.

“Tivemos uma primeira etapa, com esses sócios, em que era importante ter espaço para bater cabeça e encontrar nosso caminho”, diz Otavio Farah, cofundador e CEO do FitBank, ao NeoFeed. “Agora, com o J.P. Morgan e a CSU, estamos fechando um segundo ciclo, de sócios estratégicos, para acelerar nosso crescimento.”

Questionado sobre o que tanto atraiu essa relação de sócios e investidores de renome, Farah não titubeia. “Desde a nossa primeira linha de código, somos extremamente voltados ao produto e fomos mostrando que entregamos o que prometemos”, destaca. “Com isso, nós conseguimos trazer sócios que completam nossas capacidades, mas que, ao mesmo tempo, precisam do produto que criamos.”

A tal entrega a qual o empreendedor se refere pôde ser comprovada pela CSU. “Nós percebemos isso ao vivo e a cores”, afirma Ricardo Leite, diretor de RI e M&A da CSU, que passa a ocupar um assento no board da fintech, ao lado dos demais sócios.

Durante as negociações para o investimento, a CSU solicitou uma conversa com algumas empresas atendidas pelo FitBank. “Eles fizeram a ponte e falamos com alguns dos grandes clientes”, diz o diretor da CSU. “E todas as manifestações foram absolutamente positivas.”

Do lado da CSU, o aporte também inaugura uma nova fase. “Há uma revolução tecnológica e regulatória no mercado”, observa Leite. “E, nesse cenário, nós nos debruçamos para avaliar oportunidades de crescimento inorgânico.”

O início da busca da CSU por esses ativos coincidiu justamente com o aporte do J.P. Morgan no FitBank. “Quando soubemos, entramos em contato para apresentar outra oportunidade”, afirma Leite. “Nós provocamos o FitBank e fomos bem acolhidos desde o primeiro momento.”

Entre as primeiras conversas e a conclusão do investimento, as duas empresas identificaram uma série de sinergias. O que, a partir de agora, irá se traduzir em uma relação que vai muito além do investimento realizado.

“Essa relação que nós construímos tem um peso muito maior do que o aporte”, observa João Chacha, sócio do FitBank. “O acordo envolve parceria comercial, desenvolvimento de produtos e uma oferta ampla e complementar para os clientes das duas casas.”

Nessa combinação, o FitBank entra com um modelo de Banking as a Service, no qual atua como provedor da infraestrutura para empresas – financeiras ou não – dispostas a atuar como fintechs. Entre outras ofertas, o portfólio inclui toda a gestão de pagamentos, tesouraria e liquidação.

A empresa atende cerca de 130 clientes, em 19 segmentos da economia. Essa carteira se conecta, na ponta, a 35 milhões de usuários. Atualmente, por meio dessa base, a plataforma do FitBank está por trás de uma movimentação mensal de R$ 2,3 bilhões.

Ricardo Leite, diretor de RI e M&A da CSU

Listada na B3, avaliada em R$ 664,7 milhões e dona de uma receita líquida de R$ 456,9 milhões em 2020, a CSU tem uma base de aproximadamente 80 clientes. Além de serviços de terceirização de tecnologia, a empresa fornece ferramentas para segmentos como programas de fidelidade. Seu negócio principal, no entanto, é o processamento de cartões.

É nessa última área que o FitBank enxerga mais ganhos com a nova sócia. “A indústria de cartões é briga de cachorro grande”, diz Farah. “Por isso, nós começamos no que pouca gente fazia, com operações satélites ao cartão. A ideia era explorar essa área quando já tivéssemos mais porte.”

Em contrapartida, a CSU entende que o FitBank traz a possibilidade de encurtar o caminho para o desenvolvimento da sua oferta própria de Banking as a Service, fruto de um direcionamento recente da companhia.

Novas fronteiras

As possibilidades com a nova rodada não se esgotam na ampliação do portfólio e na exploração de uma nova base de clientes. Com a injeção de recursos, o FitBank planeja aumentar sua equipe, hoje formada por 150 pessoas, sendo 80% desse time dedicado à tecnologia.

“Vamos dobrar esse quadro até o fim do ano”, conta Rener Menezes, cofundador e CTO do FitBank. “O que temos feito para encontrar esses profissionais é sair da Faria Lima e ir para o interior, para o Nordeste, estabelecendo parcerias com universidades.”

Os novos roteiros também incluem outras fronteiras. Com o aporte, o plano é dar mais velocidade a uma estratégia que já vinha em curso desde o segundo semestre do ano passado: a expansão internacional.

“Pelos nossos cálculos, 80% do que temos hoje na nossa plataforma é replicável em qualquer lugar do mundo”, afirma Farah. “O que falta agora é amarrar as pontas com parceiros regulatórios e de pagamento local.”

Com o apoio do J.P. Morgan, o FitBank já está ativo nessa busca. Ainda nesse semestre, a fintech vai abrir um escritório nos Estados Unidos. México e outros países na América Latina estão em avaliação e a decisão do próximo passo virá dos mercados nos quais a empresa conseguir captar os primeiros clientes.

Com cerca de 130 clientes, em 19 segmentos da economia, a plataforma do FitBank está por trás de uma movimentação mensal de R$ 2,3 bilhões

O fato de estar perto de carimbar seu passaporte não significa que o Brasil ficará em segundo plano. Por aqui, a concorrência no segmento de Banking as a Service promete ser cada vez mais intensa, diante da onda crescente de empresas buscando parceiros para criarem suas ofertas financeiras.

Nos bastidores dessa tendência, outras fintechs também estão atraindo investidores de peso. É o caso da Iugu que, em setembro, captou R$ 120 milhões em uma rodada liderada pelo Goldman Sachs Merchant Banking, braço de private equity do Goldman Sachs.

A Conductor é mais uma empresa que une cheques e nomes relevantes do mercado. No fim de 2020, a startup atraiu US$ 170 milhões junto a investidores como Temasek e Viking Global Investors. A fintech já tinha entre seus acionistas o Riverwood Capital e a Visa.

Outra prova do aquecimento do mercado de Banking as a Service foi a aquisição, no apagar das luzes de 2020, da Hub Fintech, pelo Magazine Luiza. No acordo, a varejista desembolsou R$ 290 milhões.

Além dos chamados “pure players”, há outras companhias explorando esse segmento. Entre os que se destacam nesse modelo estão o BV, que oferece serviços para sua investida Neon, e o Banco Original.

Em sua oferta de infraestrutura para terceiros, o Banco Original já tem 30 parcerias rodando e a expectativa é dobrar essa base até o fim do ano. A carteira de Banking as a Service da empresa inclui companhias como PicPay e GuiaBolso.

“Existem, ao menos, duas dezenas de empresas de Banking as a Service”, afirma Edson Santos, especialista em meios de pagamento. “É uma febre, mas nem todas resistirão. É a mesma coisa com os bancos digitais. Só os mais preparados e com ofertas mais amplas vão sobreviver.”

Com a entrada dos dois novos sócios estratégicos, o FitBank entende que tem agora a oportunidade de engatar o que classifica como o terceiro ciclo da sua trajetória e se consolidar como uma das empresas de destaque nesse espaço.

“Temos meses pela frente para fazer com que essa relação se traduza em mais clientes, produtos e faturamento”, observa Chacha. “Consolidando todas essas frentes, estaremos prontos para ir ao mercado e abrir captações com perfil mais financeiro.” Nesse horizonte, a fintech enxerga cheques superiores a US$ 30 milhões.

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