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No PIX, a Visa quer ir além dos pagamentos

Com a chegada da plataforma de pagamentos instantâneos do Banco Central, a bandeira de cartão de crédito e débito aposta em soluções de segurança. Em entrevista ao NeoFeed, Fernando Teles, presidente da Visa, conta a estratégia

 

Fernando Teles, presidente da Visa no Brasil

O PIX, plataforma de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central, deve provocar mudanças no setor, aumentar a concorrência entre bancos, fintechs e cooperativas de crédito, trazer novos competidores e incluir milhões de pessoas que estão fora do sistema financeiro.

Mas a bandeira de cartão de crédito e débito Visa, que deve ser uma das afetadas pelo PIX, não quer ficar se lamentando. Ao contrário, a companhia vai aproveitar o novo sistema para ir além dos pagamentos.

“Enxergamos o PIX como uma oportunidade”, disse Fernando Teles, presidente da Visa no Brasil, ao NeoFeed. “Ele não é uma ameaça. Na economia hoje todo mundo é parceiro e concorrente ao mesmo tempo.”

Apesar do discurso, a Visa se preparou para a chegada do PIX de duas formas. A principal aposta são as soluções de segurança, um negócio que já existe na linha de cartões de crédito e débito, mas que deve ganhar um novo impulso agora com o novo sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central.

A ideia da Visa é estender as soluções de segurança da Cybersource, uma empresa comprada há 10 anos, para o PIX. “É preciso dar segurança às transações”, diz Fernando Pantaleão, vice-presidente de vendas e soluções para o comércio da Visa no Brasil. “Analisamos mais de 260 variáveis diferentes para garantir a integridade da transação.”

No momento, a Visa negocia o serviço com grandes empresas e espera anunciar os primeiros clientes em breve. O modelo de negócio é baseado em transações. A cada consulta, a Visa ganha um valor. “Essa é uma área que vem ganhando cada vez mais importância”, diz Teles, que não divulga os dados.

Mas a Visa não vai deixar de proteger o seu ganha-pão: as soluções de pagamento. O plano da bandeira de cartão de crédito é aumentar a conveniência de seus produtos, em especial o cartão de débito.

A Visa está apostando em parcerias com empresas de transporte público para a aceitação de seu cartão de débito com a tecnologia de aproximação. No Rio de Janeiro, os cartões Visa são aceitos em metrô, ônibus, barcas e trens urbanos. Em São Paulo, há teste em 12 linhas de ônibus com o produto por aproximação da Visa.

O próximo passo é levar esse modelo para os pedágios. A Visa já está em negociações avançadas com diversas concessionárias e deve anunciar acordos em breve. O cartão não irá substituir as tags automáticas de empresas como Sem Parar, ConectCar e Veloe. Mas vai agilizar o atendimento. “Ele vai retirar também toda a necessidade de troco e dinheiro”, afirma Teles.

Competição

Mas será que esses pontos serão suficientes para a Visa não perder terreno com a chegada do PIX? “Eles precisam entender que o mundo mudou. E não adianta ficar apegado ao passado e manter uma certa arrogância”, diz uma fonte do setor de pagamentos. “Eles vão ter que se reinventar.”

Uma análise realizada pela consultoria Boanerges & Cia avalia que as bandeiras de cartões de crédito e débito devem estar entre as mais afetadas pelo PIX. Segundo o estudo, essas empresas devem perder participação de mercado e de rentabilidade por conta do sistema do Banco Central. O volume transacionado deve também se reduzir, migrando para outras alternativas de pagamentos.

Em um sentindo contrário, as empresas de tecnologia e as fintechs devem ser as principais beneficiadas por esse novo cenário de competição. Entre elas, são empresas como Nubank, Neon ou Banco Original, chamados de neobancos, que estão desafiando as companhias e devem inovar na oferta de serviços para atrair novos correntistas.

Os bancos tradicionais, que são grandes emissores de cartões, tendem a sofrer mais. “Muitos acreditam que os bancos só têm interesse no PIX para diminuir custos das agências e receber boletos”, afirma outra fonte de setor financeiro.

Os pagamentos instantâneos têm também potencial de representar entre 15% e 24% do consumo privado nos próximo 10 anos. Em um cenário conservador, ele ultrapassa o dinheiro como meio de pagamento em 2030. “O produto de débito deve ser substituído pelos pagamentos instantâneos”, diz Boanerges Ramos Freire, presidente da Boanerges & Cia, consultoria especializada em serviços financeiros.

Mas não é apenas o cartão de débito que deve ser ameaçado pelo PIX. No evento da estreia da plataforma, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, anunciou o PIX Garantido, que prevê também parcelamentos a partir do primeiro semestre de 2021, competindo com o cartão de crédito.

Deverá haver muita competição. Mas há um grupo de empresas de deve sentir mais a chegada do PIX. Um estudo da consultoria Roland Berger acredita que as companhias mais atingidas pelo PIX são Cielo, Rede, GetNet, Stone, PagSeguro e Mercado Pago.

Segundo a  consultoria, o fim das taxas de transferências entre pessoas físicas pode custar aos grandes bancos e às credenciadores algo em torno de R$ 13 bilhões ao ano. O estudo acredita o que PIX deve acelerar o uso da tecnologia QR Code, muito comum na China.

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