Agora "em carreira solo", Assaí traça planos para desafiar liderança do Atacadão

Prestes a consolidar sua separação dos negócios de multivarejo do Grupo Pão de Açúcar e com o plano de reduzir a distância para o rival Atacadão, a empresa de atacarejo estuda a entrada em segmentos como e-commerce e atacado de distribuição

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O Assaí obteve uma receita líquida de R$ 39,3 bilhões em 2020

Depois de se consolidar como a grande alavanca de crescimento do Grupo Pão de Açúcar (GPA) nos últimos anos, o Assaí terá, a partir da próxima segunda-feira, 1º de março, uma nova perspectiva.

A data vai marcar a separação oficial das operações de multivarejo do GPA e o início das negociações das ações da bandeira de atacarejo no Novo Mercado da B3.

Mais do que a mudança no mercado de capitais, a companhia passa a ter autonomia para traçar seus próprios planos. E, nesse contexto, a empresa já avalia estratégias para reduzir sua distância em relação ao Atacadão, bandeira de cash & carry do Carrefour no Brasil e líder do segmento no País.

“É um movimento assertivo, que destrava valor para os acionistas e permite que cada um invista em seu segmento”, disse Belmiro Gomes, CEO do Assaí, em conferência com analistas nesta terça-feira, 23 de fevereiro. “Já operávamos, na prática, segregados, mas temos particularidades que exigem políticas específicas para cada operação.”

Dentro desse novo horizonte e em linha com as mudanças nos padrões de consumo, um dos planos do Assaí é investir em uma operação de comércio eletrônico. Até então, observou Gomes, essa guinada encontrava um freio no fato de que o próprio GPA já tinha suas bandeiras nesse espaço.

“O nosso entendimento era de que não fazia sentido construir outra operação e canibalizar as plataformas de e-commerce do Extra e do Pão de Açúcar”, afirmou o executivo. “Agora, com a cisão, estamos revisitando essa estratégia e, com certeza, teremos novidades em um curto espaço de tempo.”

Segundo Gomes, a entrada no canal deve envolver parcerias com empresas desse ecossistema e por ofertas mais voltadas ao público B2B. Ele ressaltou, porém, que a construção do projeto levará em conta algumas nuances do segmento.

“O digital trouxe indiscutivelmente impactos, mas isso não é uniforme para todas as categorias. O produto alimentar, por exemplo, tem as suas dificuldades”, frisou. “O consumidor que compra um caixa de som e paga R$ 10 no frete não está disposto a fazer o mesmo na compra de 5 kg de açúcar.”

A estratégia vai de encontro à estreia recente do Atacadão no segmento. Em outubro, a marca do Carrefour lançou sua operação de e-commerce, inicialmente no estado de São Paulo e voltada ao público B2B.

Para concretizar esse esforço, o grupo adquiriu uma fatia de 51% na startup CotaBest, que já atuava nesse espaço. O novo canal integra tanto as vendas online do Atacadão quanto as ofertas de mais de 300 parceiros. Ao mesmo tempo, a bandeira fechou parcerias de entregas com aplicativos como Rappi e Cornershop, da Uber, para entregas.

Assim como acontecia na relação entre GPA e Assaí, o Atacadão é o principal negócio do Carrefour. Em 2020, sua receita líquida cresceu 23,1%, para R$ 47 bilhões. Enquanto a receita líquida total da rede francesa foi de R$ 67,6 bilhões, um salto de 19,7% na comparação anual.

No mesmo período, o Assaí reportou uma receita líquida de R$ 39,3 bilhões, o que representou uma expansão de 29,6% sobre o resultado de 2019. O lucro líquido, por sua vez, registrou alta de 31,9%, para R$ 1 bilhão.

Em relatório, os analistas Luiz Guanais, Gabriel Savi e Victor Rogatis, do BTG Pactual, projetam que, a partir da cisão das operações do GPA, o Assaí deve reportar uma receita líquida de R$ 44 bilhões em 2021.

Para concretizar esse crescimento e em busca do topo no ranking do setor, outra iniciativa em estudo no Assaí também inclui uma modalidade na qual o Atacadão já atua: o atacado de distribuição. Gomes destacou que, diferentemente de seu “outro competidor”, o Assaí priorizou, desde o início, ganhar escala no modelo de autosserviço.

“Agora, sendo bem direto e claro, pensamos em entrar no atacado de distribuição e estamos estudando com bastante carinho essa possibilidade”, afirmou, quando questionado sobre essa frente. “A capilaridade que temos hoje faz com que esse projeto seja mais fácil de ser executado.”

Hoje, a rede tem presença em 23 estados e no Distrito Federal. Em 2020, foram inauguradas 19 lojas, com a estreia nos mercados do Maranhão e de Roraima. Apenas no quarto trimestre, foram 9nove inaugurações. No total, o Assaí tem uma base de 184 lojas em operação.

Para 2021, o plano é inaugurar 28 lojas e, até 2023, manter um ritmo anual de aberturas de mais de 25 unidades. Segundo Gomes, nesse intervalo, a prioridade será a expansão orgânica. Ele enxerga, no entanto, que, concluído esse período, o setor deve começar a assistir a mudanças importantes.

“Hoje, ainda há espaço para o crescimento da taxa de penetração do setor, o que tem permitido que vários players cresçam ao mesmo tempo”, disse o executivo. “Mas é possível que, em um horizonte de três anos, comece a acontecer um movimento forte de consolidação nesse mercado.”

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