Negócios

No Carrefour, lucro em alta, mas ações paradas

A operação brasileira da rede francesa reportou um forte desempenho em 2020, com aumento de 43,1% no lucro. Mas os papéis não avançam desde o incidente de morte de um cliente negro em uma de suas unidades, em novembro, travando sua recuperação diante dos investidores

 

Na manhã desta quinta-feira, ao divulgar seus resultados referentes do quarto trimestre e de 2020, o Carrefour confirmou o forte desempenho que vinha mostrando no decorrer do ano passado. Entretanto, uma questão parece seguir como um ponto de interrogação na imagem da empresa no mercado.

Há exatos três meses, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro, de 40 anos, foi espancado até a morte por seguranças de uma loja do grupo em Porto Alegre. O caso gerou comoção em todo o País e trouxe à tona, mais uma vez, o histórico conturbado de incidentes da rede francesa no País.

“O combate ao racismo e as questões de ESG sempre estiveram no DNA do grupo”, afirmou Nöel Prioux, CEO do Carrefour, em conferência com analistas, nesta quinta-feira, 18 de fevereiro. “E o evento trágico de novembro só reforçou o nosso compromisso em trabalhar de forma incansável para construir, todos os dias, uma operação mais saudável e justa.”

Apesar do discurso e do fato de as ações da empresa estarem sendo negociadas com alta de 1,64%, por volta das 12h30, alguns componentes mostram que o grupo ainda tem um caminho a percorrer para restabelecer a confiança no mercado e capitalizar, de fato, a performance mostrada em seu balanço.

Em 2020, as ações do Carrefour acumularam uma queda de pouco mais de 21% na B3, mesmo diante da trajetória positiva da companhia no período. O rival na área varejista Grupo Pão de Açúcar (GPA) viu suas ações recuarem 15,4% no ano passado. Desde o incidente em 19 de novembro, os papéis do Carrefour não saíram do lugar. Já as ações do GPA subiram 24,9%.

Essa distância entre os resultados reportados e o histórico recente no mercado de capitais também foi ressaltada em relatório da XP Investimentos. “Apesar de reconhecermos os compromissos da empresa dentro da agenda ESG e vermos com bons olhos as recentes iniciativas da companhia nessa frente, reforçamos que ainda há muito mais a ser feito para melhorar as métricas e esforços ESG do Carrefour”, escreveu a analista Marcella Ungaretti.

No relatório, a XP Investimentos estabeleceu uma recomendação neutra para o Carrefour e definiu o preço-alvo da ação de R$ 25 para o fim de 2021.

Para superar esse desafio e reverter essa imagem, o Carrefour anunciou, desde o caso de Porto Alegre, um plano de ação no qual assume, inicialmente, oito compromissos, além de um fundo de R$ 40 milhões destinado às causas da diversidade e do combate à discriminação racial.

Entre outros pontos, o plano inclui medidas como reformular o modelo de segurança adotado nas operações, com a meta de internalizar 100% das equipes, o que inclui a reciclagem na capacitação dos profissionais, a partir de temas como direitos humanos e protocolos de abordagem.

A estratégia traçada também envolve iniciativas para estimular empreendedores negros, por meio de ações como o uso dos marketplaces e espaços físicos da rede francesa para divulgar projetos com esse foco em cada região.

Outra frente nessa direção é utilizar o espaço que a companhia mantém com outras três companhias francesas – BNP Paribas, Edenred e Ingenico – no State, hub de inovação instalado em São Paulo, para incentivar incubar e acelerar projetos de empreendedores negros.

Resultados

Enquanto ainda tem o desafio de mostrar resultados concretos dessas iniciativas, o Carrefour Brasil destacou os números reportados em toda a operação. A empresa fechou o quarto trimestre de 2020 com um lucro líquido de R$ 886 milhões, alta de 31,1% sobre igual período de 2019. No ano, a última linha do balanço ficou em R$ 2,75 bilhões, um crescimento de 43,1%.

Entre outubro e dezembro, a receita da companhia avançou 22,3%, para R$ 20,7 bilhões. No resultado consolidado de 2020, o indicador mostrou um salto de 18,5%, para R$ 71,1 bilhões. Como de praxe, o destaque ficou com o Atacadão, que apurou uma receita de R$ 47,2 bilhões, 23,1% superior a 2019.

A bandeira de atacarejo do grupo encerrou 2020 com 236 unidades. No quarto trimestre, foram inauguradas 14 lojas da marca, entre elas, seis pontos de venda convertidos a partir da aquisição das lojas do Makro.

O plano de expansão na bandeira para o ano, que envolve 45 lojas, foi um dos pontos destacados pelos analistas Victor Saragiotto e Pedro Pinto, do Credit Suisse, em relatório, juntamente com outro fator.“A assertividade nas iniciativas de lucratividade observada em 2020 veio para ficar e não parece estar devidamente incorporada aos níveis de preços atuais”, escreveram os analistas.

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