Apesar das controvérsias, Facebook segue lucrando. Mas até quando?

Mesmo envolvida em uma série de polêmicas, a empresa reportou alta de 17% no lucro do terceiro trimestre, para US$ 9,2 bilhões. O resultado esconde, porém, uma série de desafios para a rede

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Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook

Maior rede social do mundo, avaliada em US$ 880 bilhões e um dos gigantes do mercado de tecnologia, o Facebook alcançou esses status em meio a um histórico conturbado que combina críticas a respeito do seu modelo e a crescente pressão de autoridades sobre suas estratégias.

Essa coleção ganhou novas peças nas últimas semanas, quando uma série de reportagens trouxe à tona documentos internos do Facebook que expuseram falhas e práticas controversas da empresa. Entre elas, o foco em maximizar o engajamento e os lucros, em detrimento do combate a questões como a disseminação de fake news e de discursos de ódio, e o uso da plataforma para o tráfico de pessoas.

O contexto pouco positivo para a companhia foi complementado em 4 de outubro, quando tanto o Facebook, como o Instagram e o WhatsApp, suas outras plataformas, sofreram um “apagão” e ficaram fora do ar durante praticamente todo o dia, em todo o mundo.

Mesmo nesse cenário, o fato é que o Facebook segue ganhando bastante dinheiro. É o que mostrou o resultado apurado pela companhia no terceiro trimestre deste ano. O balanço relativo ao período foi divulgado na segunda-feira, 25 de outubro.

Entre julho e setembro, o Facebook reportou um lucro de US$ 9,2 bilhões, alta de 17% sobre o terceiro trimestre de 2020. Na mesma base de comparação, a receita cresceu 35%, para US$ 29 bilhões, sendo a publicidade, o carro-chefe da empresa, responsável por US$ 28,2 bilhões, um salto de 33%.

“Nós fizemos um bom progresso neste trimestre e nossa comunidade continua crescendo”, disse Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, a respeito do resultado. “Estou animado com o nosso roadmap.”

Em um primeiro momento, o mercado sinalizou que concordava com Zuckerberg. E que, à parte de qualquer confusão, o interesse dos investidores segue restrito ao crescimento da operação. As ações da companhia encerraram o pregão de ontem cotadas a US$ 328,69, alta de 1,3%.

Entretanto, a resposta do mercado nesta terça-feira mostra claramente que nem tudo são flores para a companhia em Wall Street. Os papéis da empresa fecharam as negociações na Nasdaq com queda de 3,92%, cotados a US$ 315,80. Durante o dia, o preço das ações chegou a cair mais de 5%.

Parte dessa reação está diretamente relacionada a questões reforçadas pela própria empresa na divulgação dos resultados. Entre eles, a projeção de uma receita entre US$ 31,5 bilhões e US$ 34 bilhões no quarto trimestre, diante do que a companhia classifica como “ventos contrários contínuos”.

Segundo o Facebook, os tais ventos incluem fatores relacionados à Covid-19 e ao cenário macroeconômico. Muitos anunciantes teriam começado a reduzir seus gastos com publicidade em virtude do cenário ainda adverso como consequência da pandemia.

Um dos principais pontos de atenção destacados, no entanto, foi uma atualização das regras de privacidade da Apple, que passa a exigir que os aplicativos tenham permissão explícita dos usuários de iPhones e iPads para que seus dados possam ser usados em frentes como segmentação de publicidade.

Diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandbeg ressaltou que a medida irá dificultar a estratégia de direcionamento de anúncios dos usuários da rede social. O que, por consequência, deve impactar consideravelmente as receitas da empresa.

“Nós e nossos anunciantes continuaremos a sentir o efeito dessas mudanças nos próximos trimestres”, afirmou Sheryl, em teleconferência sobre os resultados. A executiva também observou que o crescimento da receita de publicidade teria sido maior no trimestre sem essas alterações.

Outro ponto ressaltado por analistas foi a desaceleração no crescimento da base de usuários do Facebook. No período, a rede alcançou um volume de 2,91 bilhões de usuários ativos mensais, alta de 6%.

Documentos obtidos pelo The Wall Street Journal em março mostram que essa é uma preocupação que da empresa já há algum tempo. Os dados apontam que o número de usuários diários do Facebook na faixa etária de 18 a 29 anos está em queda e tem um recuo projetado de 45% nos próximos dois anos. Outra pesquisa interna mostra que os jovens consideram a rede social “chata” e “desatualizada”.

Na conversa com analistas sobre o resultado do terceiro trimestre, Zuckerberg abordou o tema e disse que o Facebook está reorganizando seus times para ter maior foco no atendimento desse público, em detrimento dos usuários de outras faixas etárias.

Um dos principais planos em curso no Facebook para reverter essa queda envolve o chamado metaverso, conceito que tem atraído cada vez mais atenção no mercado e que envolve o uso de realidade aumentada e virtual para permitir a interação das pessoas, com seus avatares, em um ambiente digital.

Em linha com esse plano, o Facebook informou que, a partir do quarto trimestre, irá separar a divulgação dos seus resultados entre seus negócios atuais e a divisão que inclui justamente essas tecnologias.

A companhia observou ainda que os investimentos nessa nova frente, batizada de Facebook Reality Labs, vão reduzir seu lucro operacional em 2021 em cerca de US$ 10 bilhões. Na semana passada, por exemplo, a empresa anunciou que planeja criar 10 mil empregos na Europa relacionados aos negócios no metaverso.

“Este não é um investimento que será lucrativo para nós em um futuro próximo”, disse Zuckerberg aos analistas, sobre a guinada da rede. “Mas, basicamente, acreditamos que o metaverso será o sucessor da internet móvel.”

Na conferência sobre os resultados do trimestre, Zuckerberg reservou tempo ainda para criticar a cobertura recente da imprensa envolvendo os vazamentos de informações internas da companhia.

“A crítica de boa fé nos ajuda a melhorar”, observou. “Mas minha opinião é que o que estamos vendo é um esforço coordenado para usar seletivamente documentos que vazaram para pintar uma imagem falsa da nossa empresa.”

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