Argentina ganha “superministro”, mas terá uma nova era na economia?

Sergio Massa toma posse como ministro da Economia, Produção e Agricultura e prioriza equipe experiente na área fiscal em sinalização positiva a investidores. Há expectativa com o anúncio de medidas, mas especialistas avaliam que sem ajuste fiscal seu sucesso será limitado

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Sergio Massa, ministro da Economia, Produção e Agricultura da Argentina

A Argentina ganha nesta quarta-feira, 3 de agosto, um superministério da Economia, Produção e Agricultura, mas terá uma nova era na economia com a chegada de Sergio Massa, ex-presidente da Câmara dos Deputados, ao posto mais elevado do gabinete de Alberto Fernández?

A nomeação é comemorada por investidores que apostam na influência política de Massa para adotar medidas que encontram resistência na coalizão governista que comanda o país. Mas não há lua de mel no horizonte.

“A equipe econômica, no geral, parece mais forte que as anteriores da atual administração, com mais experiência. O principal problema será a vontade política de execução, sobretudo das medidas fiscais. E duvidamos que Massa imponha cortes significativos, muito impopulares, sobre a base eleitoral do governo. Sem um ajuste fiscal, nada funcionará”, afirmam os economistas Alejo Costa e Sofia Ordonez, do BTG Pactual, em nota.

A inflação atingiu 64% em 12 meses até junho, a maior em 30 anos. E poderá encostar em 90% até o fim de 2022. O juro básico está em 60%. A taxa de câmbio, em torno de 290 pesos por dólar. Antes da indicação de Massa, a taxa estava em 327 pesos.

Atuante no Twitter, Massa demonstrou ter clareza sobre as expectativas dos investidores e anunciou, em seu perfil na rede social, o prestigiado Raúl Rigo como secretário da Fazenda. Rigo deixou o posto junto com o ex-ministro Guzmán, com quem participou das negociações para o acordo firmado com o FMI, em março deste ano.

Outro respeitado especialista anunciado por Massa – também via Twitter – é Jorge Damper, que assumirá a subsecretaria de Orçamento, além de Claudia Balestrini que será a subsecretária da Receita Federal. Ao divulgar os nomes dos principais assessores, o superministro da Economia cravou. “O objetivo é ordenar e cuidar das contas públicas”. E a estratégia de comunicação produziu efeito imediato.

“A reação do mercado até agora foi positiva. Os preços dos títulos globais da Argentina, embora ainda muito desvalorizados, tiveram uma recuperação e o fosso observado entre o câmbio paralelo e o oficial diminuiu de 150% para 100%. Ainda elevado, mas bem menor”, informa Juan Barbosa, economista do Itaú Unibanco, especialista em Argentina.

O economista, baseado em Buenos Aires, disse em entrevista ao NeoFeed que o novo ministro ganhou algum tempo, porque as expectativas são de que ele possa “promover os ajustes necessários nas políticas fiscal e monetária”. Barbosa lembra que Massa não é economista, mas é um político chave e sua nomeação sinaliza “uma trégua na luta interna da coligação governante, um fato positivo”.

O especialista do Itaú afirma que, embora seja provável uma oposição do grupo kirchnerista ao ajuste fiscal, a chegada de Massa ao Ministério da Economia – agora ampliado – poderá ser “a última oportunidade para melhorar as propostas desse grupo que está muito preocupado com as eleições presidenciais de 2023”.

O encontro da vice-presidente Cristina Kirchner com Massa, na segunda-feira, foi um sinal de apoio, até agora, à sua designação, acrescenta Barbosa. Ele lembra que o cenário base da Argentina é de inflação muito elevada e economia estagnada.

“As probabilidades de uma crise maior não são tão baixas e isso está por trás da chegada de Massa ao ministério. Exatamente para evitar o aprofundamento desse cenário e uma crise política”, diz Barbosa. Entre os principais pontos que Massa terá de atacar, segundo Barbosa, está a urgência em aumentar as reservas internacionais para apoiar qualquer decisão de política cambial.

“O mais importante, porém, é mudar o regime fiscal. É preciso reduzir o persistente déficit fiscal e a sua monetização porque isso está na raiz da deterioração de preços e de controles de capital, rejeição ao peso e distorções na aplicação de incentivos”, avalia Barbosa. “Evidentemente, são necessárias reformas estruturais para mobilizar o setor privado na economia e aumentar a produtividade.”

Em outro lance tão politicamente relevante quanto nomear ex-assessores de Guzmán, Massa viajará para os EUA, onde planeja reuniões com o FMI, Banco Mundial e investidores na terceira semana de agosto. Ele também irá a Paris, onde deve se encontrar com representantes de credores privados reunidos no Clube de Paris; e ao Catar, para conversar com os fundos soberanos, informa a Bloomberg.

Sinal de que é um hábil político, como tem sido apresentado aos investidores, Massa já teria convidado sua antecessora Silvina Batakis para acompanhá-lo no périplo internacional. E, segundo a imprensa local, ela teria dito “sim”. Afinal, durante o seu mandato relâmpago, Batakis dirigiu-se a Washington e apresentou-se ao FMI.

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