ARTIGO: Sucesso do Gol às vésperas de sair de linha é um tapa na cara da indústria

A seis meses de sair de linha, o Volkswagen Gol foi o carro mais vendido no Brasil em julho, um momento simbólico, quase um ritual de passagem, para uma indústria que agora só investe em carros mais equipados, mais conectados e mais caros

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O Gol foi o carro mais vendido no mês de julho e teve 11.925 emplacamentos

Um fato inédito aconteceu no mercado automotivo brasileiro em julho deste ano. O Volkswagen Gol, a seis meses de ser tirado de produção, foi o carro mais vendido no mês. Teve 11.925 emplacamentos, superando dois recentes fenômenos da indústria automobilística: a picape Fiat Strada e o Chevrolet Onix, campeões nacionais de vendas desde 2015.

Onix e Strada são carros que ganharam nova geração em 2019 e 2021, respectivamente. O Gol, não. A atual geração do Volkswagen Gol foi lançada em 2008. É um carro de um tempo em que não havia Instagram, nem TikTok. O carro mais vendido no Brasil é da época do primeiro iPhone (hoje na 13ª geração) e de um ano que só havia três SUVs fabricados no Brasil (Ford EcoSport, Hyundai Tucson e Mitsubishi Pajero). De lá para cá, o Gol passou por duas atualizações (2012 e 2016), mas foi relegado a segundo plano dentro da Volkswagen.

Ainda este ano, a Volkswagen vai produzir uma série especial Gol Last Edition, de 1.000 unidades, para celebrar 42 anos de sucesso, dos quais 27 consecutivos como campeão nacional de vendas (1987 a 2013). Sai de cena a velha plataforma PQ-24 e entra em seu lugar a moderna plataforma modular MQB-A0 na fábrica de Taubaté (SP). De lá, sairão o inédito Polo Track (substituto do Gol) e mais três novos carros compactos.

O Gol tem hoje apenas uma versão, que usa um defasado motor 1.0 de 75 cv e tem preço sugerido de R$ 75.830. Sugerido, mas pouco praticado. Segundo a Fenabrave, 81% dos emplacamentos do VW Gol vêm das vendas diretas. Isso explica o sucesso inédito de um produto que já esgotou seu ciclo de vida e serve como um tapa na cara da indústria automobilística, que está totalmente dissociada da realidade econômica da população brasileira.

Dos 21.320 Gol emplacados em junho e julho, 17.339 foram na modalidade venda direta. A Volkswagen não revela para quem foram essas vendas, mas especialistas do mercado acreditam que a grande maioria foi para locadoras de automóveis. Segundo a Anfavea, a associação que representa as fabricantes de carros, no início de julho havia uma demanda reprimida de 600 mil carros para esse setor. Como maiores compradoras, as locadoras costumam ter desconto de 20% ou mais nos preços sugeridos. Isso deixaria o preço do Gol em R$ 60.664.

Para dar uma ideia, o carro mais acessível do Brasil hoje é o Fiat Mobi, que custa R$ 63.390. Porém, o Mobi não é um carro que atende plenamente a uma típica família classe média brasileira como o Gol. Trata-se de um subcompacto, de apenas 3,59 m, com porta-malas de 200 litros. O Gol, ao contrário, tem 3,89 m e comporta 285 litros de bagagens. Serve não apenas para rodar na cidade e para viagens, mas também para o trabalho, por ser prático e robusto.

Mas, enquanto o velho Gol faz sucesso antes de sua despedida, a indústria automobilística investe apenas em carros modernos, caros e inacessíveis para 99% da população. Mais do que a capacidade de transportar pessoas e coisas, a indústria está focada em vender conectividade, sonhos e um futuro ecológico por meio de carros elétricos ou híbridos.

Enquanto o Brasil real ainda sofre com 9,3% de desemprego e tem 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer diariamente (segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), o Brasil da indústria automobilística investe em carros mais equipados, mais conectados, mais seguros e mais caros. Na lógica das empresas não há mais espaço para carros genuinamente brasileiros, como o Gol. Outros do tipo ficaram pelo caminho, como o Ford EcoSport, o Troller TR4 e o Volkswagen Fox.

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) indica que a renda média do brasileiro é de R$ 2.548. Mas quem compra carro zero no Brasil está no topo da pirâmide social, ou seja, entre os 5% que têm renda média de R$ 10.313. Segundo a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), 77,7% dos brasileiros estão endividados e 28,6% das famílias estão com as contas em atraso.

A glória final do VW Gol, portanto, é também um momento simbólico, quase um ritual de passagem. Mas não será a morte do Gol. Será uma aposentadoria, pois continuará em atividade como o carro usado mais vendido do país – só em julho foram 64.906 unidades, quase o dobro do segundo colocado (Fiat Palio).

A Volkswagen acredita que o Gol já não cumpre com suas obrigações como antes. Tem permitido um brilho final, sugando suas últimas energias, mas vai encostá-lo porque, na sua visão (que é também a visão de toda a indústria automobilística), o Gol já deu o que tinha que dar.

Quando a fábrica de Taubaté produzir o último Gol, será o fim definitivo do carro nacional feito por brasileiros para brasileiros em uma empresa alemã. Em seu lugar entrará o carro moderno, totalmente dependente dos semicondutores e dos chips eletrônicos disputados a tapa no mercado global.

Mas o Gol não sairá sozinho de cena. Junto com ele, em pouco tempo, irão seus dois derivados, o sedã Voyage e a picape Saveiro. Assim, das 25 versões de carros que a Volkswagen oferece hoje no mercado, sairão justamente quatro das cinco únicas que custam menos de R$ 100 mil (a média atual é de R$ 150.455 e o mais caro chega a R$ 332.180).

Embora o movimento em direção a automóveis cada vez mais caros – que logo se tornarão acessíveis somente para aquele 1% da população que, segundo o Ipea, tem renda média de R$ 28.659 – seja da indústria como um todo e não só da Volkswagen, a despedida do Gol como carro mais vendido do Brasil é um exemplo de como o setor está dissociado da realidade nacional. E isso também é simbólico, pois desde o governo Juscelino Kubitschek, em 1957, o carro acessível foi um fator de integração e desenvolvimento do país.

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