As três forças que estão “movendo montanhas” no sistema financeiro nacional

Tecnologia, comportamento do consumidor e regulação formam os alicerces das mudanças que estamos vivendo, muitas vezes sem percebermos de forma tão clara no nosso dia-a-dia

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Já parece ser um consenso no mercado de que o sistema financeiro nacional está passando por profundas transformações. Possivelmente as mais intensas das últimas décadas, sendo quase uma unanimidade principalmente no que tange ao quesito da velocidade em que essas mudanças estão ocorrendo. Os próprios reguladores preveem que a dinâmica de funcionamento do sistema financeiro como um todo será muito diferente nos próximos anos.

Dentre os mais diversos benefícios esperados a partir dessa revolução silenciosa, talvez um dos ganhos mais esperados pela sociedade seria a promoção da tão esperada inclusão financeira da nossa população e a definitiva digitalização do dinheiro no Brasil, reduzindo custos para a sociedade, ajudando a combater a informalidade e a criminalidade, bem como auxiliando mais diretamente no bem-estar da população em geral.

Mas antes de concluirmos algo a respeito do que poderia ser um cenário de uma explicação mais profunda acerca das mais variadas alavancas de todas essas transformações, vale avaliarmos o ambiente evolutivo que estamos vivendo neste momento e seus motivadores.

É neste contexto que seria possível visualizarmos três forças que estão convergindo de forma positiva e simultânea, afetando diretamente esse mercado e que passou a envolver a disseminação da tecnologia como alicerce de profundas mudanças no comportamento dos consumidores frente ao uso cada vez mais intenso das soluções digitais, aceleradas, naturalmente, por tudo aquilo que estamos evoluindo em termos de um novo marco regulatório.

Referidas forças (tecnologia, comportamento do consumidor e regulação), além de se complementarem de forma quase imperceptível, formam o tripé que possivelmente estaria se moldando como um dos grandes alicerces das mudanças que estamos vivendo e as que estão por vir, muitas vezes sem percebermos de forma tão clara no nosso dia-a-dia.

Com a entrada em vigor do PIX, Sistema de Pagamentos Instantâneos no Brasil em novembro de 2020 e mais recentemente do Open Banking ou Open Finance, foi dada a largada de construção daquilo que o próprio Banco Central do Brasil denomina como Sistema Financeiro Aberto. Funcionando de forma interoperável e totalmente conectada.

É nesse contexto em que a evolução tecnológica, formação de um novo tipo de consumidor e uma ampla modernização da regulamentação se sedimentam como forças que se unem e até se confundem em um movimento tão profundo que culminará necessariamente na criação de novas alavancas que permitirão saltos significativos na vida financeira dos brasileiros.

Novas infraestruturas estão sendo montadas para suportar novos métodos de pagamentos, novas formas de concessão de crédito e uma profunda simplificação de abertura de contas digitais de formas totalmente intuitivas e instantâneas, dentre outras questões relevantes para todos nós, num emaranhado de soluções e de plataformas que interligarão instituições financeiras, credenciadoras, fintechs, sociedades de crédito direto, sociedades de empréstimos entre pessoas, corretoras, cooperativas de crédito, dentre outros participantes.

Tudo isso se desmaterializando em soluções financeiras espalhadas nas mais diversas formas de interação e contato entre consumidores, com uso intensivo da inteligência artificial e novas redes de telecomunicações baseadas no 5G, conectando comércio, plataformas tecnológicas, redes sociais, aplicativos de mensagens, carteiras digitais, marketplaces de comércio eletrônico e até apps de entregas, serviços e transportes.

Essa nova onda de competição certamente será extremamente positiva, trabalhando-se com a premissa de que toda a vez em que as instituições participantes do mercado, sejam incumbentes ou novos entrantes, digitais ou tradicionais, decidem se voltar para determinado objetivo, torna-se evidente que a sociedade em volta será de certa forma impactada positivamente em relação ao seu status inicial, principalmente naqueles quesitos mais facilmente percebidos, como preço, qualidade, segurança ou melhoria da experiência.

Por isso, não vejo mais sentido falarmos mais em bancarização como um sinônimo de abertura de uma conta em banco. Seria mais prudente focarmos na “inclusão financeira e digital” da população, movimento que poderá se dar a partir de vários tipos de novos instrumentos e participantes do sistema financeiro. É uma nova era que se forma e um novo jeito de nos relacionarmos com o nosso próprio dinheiro, extinguindo-se por completo aquele recente, mas envelhecido, conceito de “acessar o meu banco”.

*Raul Moreira é membro do Conselho de Administração e coordenador do Comitê de Inovação do Banco Original

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