Assaí cai, GPA sobe (e Belmiro Gomes tenta convencer os investidores)

Após comprar 71 lojas do Extra Hiper, do GPA, por R$ 5,2 bilhões, a ação do Assaí está em qeuda. Para tentar revertar a percepção negativa do mercado, o CEO da companhia se dedicou a explicar a estratégia em teleconferências

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Belmiro Gomes, CEO do Assaí

Quando o Assaí anunciou, na noite de quinta-feira, dia 14 de outubro, que estava comprando 71 lojas do Extra Hiper, do GPA, por R$ 5,2 bilhões, o CEO da companhia, Belmiro Gomes, já imaginava que os acionistas reagiriam de mal humor e que sua sexta-feira seria dedicada a dar explicações.

Logo na abertura do pregão, a ação da empresa chegou a cair 6,49%, a R$ 16,70. “A gente sabia que o mercado iria atirar primeiro e perguntar depois”, afirmou o executivo, em uma teleconferência com analistas logo pela manhã, seguida de uma conversa com jornalistas.

Embora a transação indique uma expansão da rede de atacarejo, os investidores estranharam o fato de a operação entre Assaí e GPA ter sido realizada dez meses após a aprovação da cisão entre as duas partes, que permanecem vinculadas ao mesmo controlador, o grupo francês Casino. Além disso, ficaram incomodados com a ausência de minoritários no processo de decisão.

“Ficamos profundamente incomodados com o fato de os acionistas minoritários não terem participado da transação”, afirma o Itaú BBA, em relatório distribuído a clientes na manhã desta sexta-feira, antes da abertura do mercado.

O banco de atacado, porém, reconheceu que a transação tem méritos. “Esses ativos estão unicamente posicionados nas principais cidades do Brasil e provavelmente não são replicáveis”, escrevem os analistas Thiago Macruz, Helena Villares, Gabriel Simões, Maria Clara Infantozzi e Felipe Amancio.

Enquanto isso, a ação do GPA, a ponta vendedora na operação, abriu o dia em alta e, por volta das 15h40, acumulava valorização de 12,93%, a R$ 31,26. “É uma transação que apoia o processo de monetização de ativos e racionalização de portfólio para GPA, uma vez que descontinua sua bandeira de hipermercado, de baixo desempenho”, afirma o Goldman Sachs, em relatório.

Gomes, do Assaí, explicou que a aquisição era um desejo antigo, mas que só conseguiu concretizá-la agora porque estava dependendo de um acordo entre o GPA e o fundo Península, que pertence Abilio Diniz e é dono da maioria das lojas negociadas, para autorizar o comprador a realizar mudanças estruturais nos imóveis. O acordo só foi fechado em abril, após a cisão do Assaí, que antes era uma subsidiária do GPA.

O segundo motivo para a compra das 71 lojas foi um movimento de expansão similar feito por um concorrente. Em março, também já depois da cisão, o Carrefour anunciou a compra do Grupo Big, que antes pertencia ao Walmart, por R$ 7,5 bilhões.

“Na medida em que esses movimentos acontecem, houve um distanciamento. Então buscamos maneiras de acelerar a nossa expansão de forma rentável”, disse o executivo. “O nosso movimento nos coloca de novo na disputa pela liderança.”

Com pressa, o Assaí encontrou no GPA o parceiro ideal para pegar um atalho. “Por termos o mesmo controlador, a operação não passa pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Então, conseguimos ser mais rápidos do que se fosse com outra empresa.”

Além de tudo isso, o executivo procurou argumentar que se trata de um bom negócio, que será estratégico para a rede do Assaí, que pretende crescer para regiões mais centrais e próximas de um público de mais alta renda.

As 71 lojas são as maiores da rede do Extra Hiper (outras 32 seguiram com o GPA e serão convertidas para outras bandeiras, pois o Extra Hiper será extinto) e 63 delas estão localizadas em 16 capitais ou regiões metropolitanas.

“São pontos diferenciados, se comparado às grandes lojas que o Assaí opera, com baixa canibalização da rede do Assaí”, disse o executivo, que afirmou que o Assaí só precisará fechar seis unidades.

O acordo com o GPA, ele ressaltou, também faz o Assaí superar uma barreira imobiliária. “As lojas que foram adquiridas foram abertas há 20 anos ou 30 anos, quando havia disponibilidade de terrenos de 50 mil ou 60 mil metros quadrados, para estacionamentos com 700 vagas. Hoje, é impossível conseguir terrenos assim (em regiões centrais). A maior parte das grandes lojas está ficando na periferia.”

O Assaí espera começar a fazer as conversões das lojas no início de 2022. Após o início das obras, uma primeira leva de reabertura deve acontecer em meados do ano que vem. Uma segunda onda deve ficar para 2023.

A estimativa da companhia é que as lojas compradas possam triplicar o faturamento, de R$ 8,7 bilhões para R$ 25 bilhões, na soma de todas. A expectativa é que a rede do Assaí chegue a 338 pontos no fim de 2024, com receita de R$ 100 bilhões, após as conversões das unidades do Extra Hiper e com o plano de expansão orgânica da companhia, que prevê 18 aberturas em 2022, 20 em 2023 e mais 20 em 2024. Hoje, são 192 unidades abertas.

Segundo a companhia, as unidades adquiridas devem começar a se pagar já no quarto mês, com expectativa de atingir a maturidade no segundo ano de funcionamento. O dinheiro investido pelo Assaí, estima Gomes, deve ser recuperado em um prazo de quatro a cinco anos.

Na avaliação de Gomes, a expansão da rede ocorre em um mercado favorável para o atacarejo, que deve se beneficiar da crise econômica e da inflação, com mais consumidores e comerciantes recorrendo a alternativas mais baratas. “O atacarejo cresce no Brasil e há uma competição maior com players regionais. Chegar a esses pontos do Extra Hiper está em linha com isso.”

No acordo de R$ 5,2 bilhões com o GPA, R$ 4 bilhões serão pagos pelo Assaí, em parcelas até 2024, e o restante, R$ 1,2 bilhão, ficará a cargo de um fundo imobiliário que tem a garantia da rede de atacarejo.

Na visão de Gomes, o mercado só tem implicado com a transação porque se trata de um acordo feito entre duas empresas que estão ligadas ao mesmo controlador e que recentemente fizeram uma cisão. “Se fosse com outro, nos mesmos termos, o mercado iria reagir bem”,  acredita o executivo.

Em relação ao processo para fechar o negócio, o executivo afirmou que a empresa buscou respeitar todas as questões de governança e que somente os membros independentes participaram da votação, sem aqueles que pudessem ter algum tipo de conflito relacionado ao Casino, o grupo controlador.

As explicações do CEO talvez já estejam surtindo feito. Após cair mais de 6% na abertura do pregão, o papel da companhia já reduz as perdas. Por volta das 16h00, recuava 2,18%, a R$ 17,46.

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